quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Chocolates e vacas na geopolítica pós-Trump, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Relações comerciais entre Brasil e Índia são muito pequenas em relação ao tamanho das economias

No século XIX, a coroa portuguesa foi à Índia buscar mudas de árvores altas para fazer sombra aos cacaueiros cultivados por aqui. Vieram jaqueiras, mangueiras, laranjeiras. Essa combinação é usada até hoje no sul da Bahia, na região chamada Cabruca, cenário do clássico “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. De lá, saem chocolates com terroir de frutas amarelas.

“É o que encanta os jurados”, contou à coluna Thiago Fernandes, diretor do consórcio Cabruca, que reúne 15 marcas de chocolate da região. No ano passado, barras com sabor de laranja, de queijo canastra com doce de leite e de cumaru conquistaram medalhas de prata na premiação da Academy of Chocolate, em Londres. No ano anterior, a marca Ju Arléo havia conquistado medalha de ouro com seu chocolate sabor cupuaçu. Desempenho semelhante foi alcançado pelas consorciadas na International Chocolate Awards de Nova York.

Fernandes era um dos 300 empresários que estiveram na semana passada em Nova Déli participando do Fórum Empresarial Índia-Brasil, promovido pela ApexBrasil. Na capital indiana, fechou um contrato para fornecer seu produto para a rede Modern Bazaar, de produtos de luxo. “Vão ficar ao lado do caviar”, brincou.

No processo para abrir esse mercado, que levou cerca de um ano, contribuiu uma degustação promovida na embaixada do Brasil, para a qual foram convidados os chefes de cozinha dos principais hotéis de luxo da cidade, jornalistas e potenciais compradores.

A eles foi oferecido, entre outros, um chocolate sabor tchai, a bebida local, desenvolvido por Patricia Viana, uma das consorciadas. Ela viveu algum tempo na Índia e sua marca se chama Modaka, que significa “docinhos que agradam ao paladar de Ganesha”.

Ao mesmo tempo que busca mercados na Ásia e América Latina, o consórcio batalha para obter um certificado de indicação geográfica. Sem ele, não será possível exportar para a Europa. Mas, na mão contrária, os europeus poderão enviar seu produto para o Mercosul de forma facilitada, como parte do acordo entre os dois blocos.

A tese de mestrado de Fernandes, que trata do consórcio e da indicação geográfica como fatores de upgrade social, é uma das peças do processo em busca da certificação.

Ele conta que 80% das empresas do Cabruca são lideradas por mulheres. Elas substituíram os coronéis e viraram a chave: de fornecedoras de cacau para a indústria, passaram a produzir chocolate de alta qualidade, agregando valor para a comunidade.

As vacas leiteiras gir fizeram trajeto semelhante ao das frutas amarelas. De origem indiana, os animais vieram para cá também no século XIX. Passaram por aprimoramento genético e agora a fazenda Floresta, de Lins (SP), envia embriões para a Índia.

Produtores indianos disseram ao ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, que antes conseguiam 5 litros de leite por vaca, e agora obtêm 40 litros. Roberta Bertin Barros, proprietária da fazenda, contou sua história em um painel do fórum empresarial sobre agricultura familiar.

São duas histórias da relação do Brasil com a Índia, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na semana passada para se reunir com o primeiro ministro Narendra Modi e promover um encontro empresarial ambicioso.

Ficou evidente que as relações comerciais entre os dois países, de US$ 15 bilhões em 2025, são muito pequenas em relação ao tamanho das economias.

Mas, talvez com exceção dos minerais críticos, o atual cenário oferece dificuldades para a ampliação do comércio de mercadorias.

Com uma agricultura predominantemente familiar, base para distribuição de renda, o país é fechado para produtos do agronegócio, que são a força da balança comercial brasileira. O frango fracionado enfrenta tarifa de importação de 100%. A Índia é autossuficiente em açúcar.

Porém, as potencialidades são exploradas de outra forma. Na visita, a Vale anunciou investimento de US$ 500 milhões em uma planta de blendagem de minério de ferro brasileiro com minério indiano, para explorar outros mercados. A Embraer informou que vai montar aviões KC-390 Millenium e E-175 na Índia, com peças fabricadas localmente, em parcerias com a Mahindra e a Adani. A Unica tem, já há algum tempo, uma associação com sua contraparte indiana para divulgar a mistura de etanol à gasolina em outros países.

“Somos dois necessitados”, definiu Lula, ao dizer que o diálogo com a Índia é mais fácil por ser entre iguais, enquanto Europa e Estados Unidos exercem “autoritarismo”.

Na visão do presidente, seguimos “colonizados” do ponto de vista tecnológico e econômico. “Então é preciso construir parceria com gente que tenha similaridade conosco, para que a gente possa somar o nosso potencial e nos tornar fortes”, resumiu.

A visita de Lula à Índia teve um caráter estratégico importante, ao mostrar o adensamento das relações de duas potências médias, num momento em que os demais países buscam novos parceiros para escapar da instabilidade provocada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

 

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