O Estado de S. Paulo
Eventual queda dos regimes do Irã e de Cuba poderia melhorar o humor dos americanos
Donald Trump disse na quinta-feira que vai
esperar entre 10 e 15 dias por progresso nas negociações com o Irã, antes de
decidir sobre ação militar. Em junho, o americano se deu duas semanas para
decidir, numa quinta-feira, dia 19, e ordenou o bombardeio das instalações
nucleares iranianas no domingo, 22.
Trump segue padrões de conduta. Na
sexta-feira, ele admitiu a possibilidade de ataque limitado ao Irã,
precisamente o que o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, tem tentado
dissuadi-lo de fazer.
O USS Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, está se deslocando do Caribe, onde participou das operações contra a Venezuela, para o Golfo Pérsico. Lá já se encontra o USS Abraham Lincoln, deslocado do Mar do Sul da China.
Acompanhados de seus grupos de batalha, eles
constituem a maior força militar americana mobilizada no Oriente Médio desde a
invasão do Iraque em 2003. Os EUA estão militarmente prontos para bombardeios
de grande escala e operações especiais, com a retirada de pessoal não essencial
da região e a definição de alvos, incluindo autoridades do regime.
Em meados de janeiro, Trump só não ordenou um
ataque por causa dos pedidos das monarquias árabes do Golfo, alvos de eventuais
retaliações iranianas, e da advertência de Netanyahu de que ataques pontuais e
inconclusivos só evidenciariam a resiliência do regime.
A questão é: como mudar o regime em Teerã sem
tropas no terreno, algo que a opinião pública americana não toleraria? Entra um
padrão estabelecido na Venezuela, onde a captura de Nicolás Maduro criou espaço
para um governo obediente em Caracas. No caso iraniano, decapitações, ainda que
maciças, não bastariam.
Os problemas do governo Trump se acumulam
neste ano de eleições no Congresso: a persistência do alto custo de vida, a
indignação pela falta de indiciamentos de suspeitos nos crimes de Jeffrey
Epstein e pela morte de dois cidadãos americanos nas operações anti-imigração.
A eventual queda dos regimes do Irã e de Cuba poderia melhorar o humor dos
americanos.
O líder espiritual Ali Khamenei e outros
integrantes da cúpula acreditam que a mobilização militar americana pode ser um
blefe, dada a oposição da opinião pública dos EUA a uma aventura militar; e que
um ataque limitado só reforçaria a percepção de solidez da teocracia.
Há uma perigosa assimetria de análises de cenário e de expectativas entre Trump e a cúpula iraniana, um clássico ‘dilema do prisioneiro da teoria dos jogos, no qual o desconhecimento da estratégia do outro conduz a decisões irracionais, destrutivas para ambos.

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