sexta-feira, 13 de março de 2026

Alta da inflação e endividamento das famílias tiram o sono de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Palácio do Planalto teme que o choque do petróleo frustre uma das principais apostas políticas de Lula para sua campanha de reeleição: a “economia do afeto”

A guerra no Oriente Médio introduziu uma variável externa que pode alterar significativamente o cenário político brasileiro em pleno ano eleitoral, sobretudo a estratégia de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A escalada do conflito e o risco de interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz provocaram a disparada do preço do barril, que chegou a ultrapassar a casa dos US$ 120 antes de recuar para a faixa de US$ 90. Governos do mundo inteiro estão diante da ameaça de inflação doméstica e desgaste político.

No Brasil, diante da ameaça externa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote emergencial para conter a alta do diesel. As medidas incluem a zeragem de PIS e Cofins sobre o combustível, uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores e a criação de um imposto extraordinário de 12% sobre a exportação de petróleo. A engenharia fiscal apresentada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, busca compensar a renúncia estimada de R$ 30 bilhões do PIS e Cofins com o aumento de arrecadação proveniente da exportação de petróleo.

Lula quer evitar que o diesel, principal combustível da logística brasileira, provoque uma onda inflacionária. O transporte rodoviário responde por cerca de dois terços do escoamento da produção agrícola e industrial. Qualquer aumento expressivo no diesel rapidamente se transmite aos preços de alimentos, fretes e serviços. Em termos políticos, pode ter efeito devastador em ano eleitoral. É um cenário de tirar o sono.

A crise energética ocorre em um momento econômico delicado. Depois de um período de crescimento moderado e aumento do emprego, o Banco Central (BC) manteve a taxa básica de juros em níveis elevados — cerca de 15% ao ano — para conter a inflação. O resultado é um ambiente de crédito caro, que tem pressionado as finanças das famílias brasileiras.

Dados recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostram que 80,2% das famílias estavam endividadas em fevereiro de 2026 — o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Mais preocupante é o avanço da inadimplência, que voltou a subir e já atinge 29,6% das famílias. Quase metade dessas dívidas está em atraso há mais de 90 dias, evidenciando uma deterioração do quadro financeiro doméstico.

Essa situação cria um triângulo de fogo. A inflação corrói a renda real, enquanto o endividamento limita a capacidade de consumo — dois fatores que afetam diretamente a percepção da população sobre o desempenho econômico do governo. Num ambiente eleitoral, mesmo quando os indicadores macroeconômicos permanecem relativamente equilibrados, o sentimento econômico pode se deteriorar rapidamente e encandecer a campanha dos candidatos de oposição.

“Economia do afeto”

O Palácio do Planalto teme que o choque do petróleo frustre uma das principais apostas políticas de Lula para sua campanha de reeleição: a chamada “economia do afeto”, para usar a feliz expressão do historiador Alberto Aggio. A estratégia do governo vinha se baseando na recuperação do emprego, na expansão de programas sociais e na recomposição do poder de compra das camadas mais pobres. O objetivo era reconstruir um clima de bem-estar econômico capaz de sustentar a popularidade presidencial. Faltou combinar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os aiatolás iranianos.

Com crescimento moderado e renda em expansão, eleitores tendem a valorizar estabilidade e continuidade. Foi esse ambiente que permitiu a Lula construir sua hegemonia eleitoral nos anos 2000, quando a combinação de commodities em alta e políticas sociais ampliou a base de apoio do governo. O cenário atual, porém, é outro: juros altos, endividamento recorde das famílias e um choque externo nos preços de energia. Essa mistura não estava prevista.

As pesquisas eleitorais recentes já indicam um cenário competitivo. Levantamentos divulgados nas últimas semanas mostram uma redução da vantagem de Lula em cenários de segundo turno contra adversários da direita, especialmente o senador Flávio Bolsonaro. O crescimento do principal candidato do campo bolsonarista reflete, em parte, o desgaste natural de um governo em seu quarto ano, mas também a sensibilidade do eleitorado à situação econômica.

Inflação e custo de vida são fatores decisivos em eleições. É impossível convencer o eleitorado de que choques externos são os verdadeiros responsáveis por aumentos de preços, ainda mais quando os agentes econômicos atribuem a inflação e juros altos ao déficit fiscal do governo. Para a maioria dos cidadãos, a responsabilidade recai inevitavelmente sobre quem está no poder. O desafio de Lula, portanto, é essencialmente político. A eficácia das medidas anunciadas dependerá da rapidez com que a redução do diesel chegará às bombas e, sobretudo, do comportamento do preço internacional do petróleo nas próximas semanas. Se a guerra no Oriente Médio se prolongar e a volatilidade energética persistir, o impacto inflacionário poderá neutralizar boa parte dos ganhos sociais obtidos pelo governo nos últimos anos.

 

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