O Globo
Está na hora de colocar para fora do poder os
políticos que foram cooptados pelo crime organizado.
Como a maioria dos casos que acontecem na política do Rio de Janeiro nas últimas dezenas de anos, o da eleição do governador-tampão para terminar o mandato do governador inelegível Claudio Castro é cheio de contradições e reviravoltas. O que parecia uma questão simples de resolver, pois as provas de corrupção do governador eram irrefutáveis, transformou-se em uma chance política de remover os grupos criminosos que dominam o Estado do Rio antes mesmo da eleição marcada para outubro.
Sendo a eleição direta, como defende a
maioria dos especialistas, a oposição, vencendo, assumirá o governo e poderá
concorrer à reeleição no cargo. Perderá praticamente um mandato governamental,
mas antecipará a limpeza necessária. Se o atual grupo que domina o estado
prevalecer na eleição direta, não há o que fazer a não ser admitir o
apodrecimento das estruturas da política regional. Não se trata de uma disputa
apenas hermenêutica, mas moralizadora como passo inicial para restaurar a
predominância do estado de direito sobre o estado criminoso que já avançou
excessivamente seus tentáculos sobre o poder político fluminense.
A tentativa de golpe dado pelo governador
condenado por abuso de poder político e econômico ao renunciar ao cargo um dia
antes da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ficou evidente, e não é
aceitável que em uma democracia a autoridade judicial seja superada por uma
jogada ilegal que beneficiará o mesmo grupo que governava o estado e foi punido
com a condenação do seu chefe. O prosseguimento do golpe deu-se com desfaçatez
no dia seguinte, ao tentarem nomear o presidente da Assembleia Legislativa em
uma eleição fajuta que acabou sendo anulada por desvios incontornáveis.
Não é possível que a mesma Justiça que puniu
duas vezes o grupo criminoso que tomou conta do governo do Rio nos últimos anos
vá se deixar enredar por um terceiro golpe, a eleição indireta a ser realizada
sob o controle deles que apoiavam o governador condenado e o presidente da
Assembleia preso por ligações com o crime organizado. É longa a relação de
governadores do estado do Rio que foram presos ou cassados por problemas de
corrupção, e já está na hora de colocar para fora do poder os políticos que
foram cooptados pelo crime organizado.
O momento é propicio a uma medida de
saneamento político do Estado, sem que seja necessário mais tarde, como já
aconteceu em outras ocasiões, que uma intervenção federal venha tentar resolver
os problemas de segurança pública que impedem o Rio de alcançar o futuro de
desenvolvimento social e econômico que merece. A decisão por uma eleição direta
para o governo-tampão é a melhor maneira de resolver esse dilema que vive o
Estado desde que a Capital do país foi transferida para Brasília sem o devido
apoio ao novo Estado que surgiu da junção do Rio com a Guanabara.
A liminar que o ministro Cristiano Zanin deu
suspendendo a eleição indireta tem a possibilidade de ser julgada no plenário
presencial, juntamente com a outra decisão, no plenário virtual que, embora já
tenha maioria a favor das regras de uma possível eleição indireta, não se
encerrou e não tratou do mérito da eleição direta, colocada na discussão em bom
momento pelo ministro Alexandre de Moraes. Já existindo quatro votos em dez a
favor da eleição direta, basta que dois ministros que já votaram mudem seus votos,
diante dos fatos novos surgidos. Estão nesse caso os ministros Luis Fux, a
ministra Carmem Lucia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que está
sendo afrontado pelos sucessivos golpes do grupo afastado do poder, o ministro
Dias Toffoli e o presidente Edson Facchin.

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