O Estado de S. Paulo
Ímpeto do presidente de moldar mundo à sua
imagem entra em conflito com o desejo de sucesso
A duração da guerra no Irã depende do desfecho de um conflito travado no governo americano. O secretário do Tesouro Scott Bessent e a chefe de Gabinete Susie Wiles advertem para os danos econômicos e políticos. Donald Trump lida com o desejo de deixar uma impressão profunda na história.
Quem observa Trump há muitos anos aponta nele uma obsessão por deixar sua marca, desde os primórdios como empresário do ramo imobiliário. Seus empreendimentos icônicos, assim como os produtos que ele criou, em geral sem sucesso, levam o nome “Trump” em letras garrafais.
Na sua viagem ao Golfo Pérsico, em maio,
Trump esteve acompanhado dos filhos Donald Jr. e Eric e de Jared Kushner,
casado com sua filha Ivanka. Eric e Kushner trataram de negócios bilionários
das respectivas empresas enquanto Trump reforçava os laços econômicos e
militares com a Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Trump deseja estender o poder e prosperidade
associado a seu nome de forma física, por meio dos herdeiros, e de forma
simbólica, como o “presidente mais consequente da história”, segundo suas
palavras. “Estamos fazendo isso pelo futuro”, afirmou ao anunciar a operação
Fúria Épica, no dia 28.
“A definição de paz para ele é uma ordem
mundial sob seu comando”, disse a biógrafa Gwenda Blair, autora de The Trumps:
Three Generations of Builders and a President, ao colunista Michael Hirsh, da
revista Foreign Policy. Assim, na cabeça dele, desfaz-se a contradição entre
ser pacificador e iniciar uma guerra.
Quando ativistas do Maga apontaram no ano
passado contradições com as bandeiras do movimento em suas atitudes de não
liberar os Arquivos Epstein e de ordenar ataques no Caribe, ele respondeu:
“Quem define o que é ou não Maga sou eu”.
O ímpeto de moldar o mundo à sua imagem entra
em conflito com o desejo de sucesso. A Organização Trump quebrou seis vezes,
com decisões nas quais o desejo de engrandecer sua marca falou mais alto do que
a análise fria do mercado e do modelo de negócios. Agora, ele arrisca perder a
maioria republicana na Câmara e no Senado, nas eleições de novembro.
O ímpeto é tão forte que prejudica sua visão.
Na quarta-feira, Trump disse aos líderes do G-7 que o regime iraniano queria se
render, mas não sobrara ninguém para anunciar a decisão. No dia seguinte, foi
anunciada a escolha de Mojtaba Khamenei, que Trump tinha declarado
“inaceitável”, pela Assembleia dos Peritos.
Trump apostou sua credibilidade perante
líderes mundiais. E perdeu. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário