domingo, 26 de abril de 2026

Crise global dá recado de prudência a Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Com ou sem crise internacional, as falhas da política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia do Brasil

As aventuras guerreiras de Donald Trump e de seu companheiro Benjamin Netanyahu foram insuficientes, até agora, para causar perdas – ou perdas visíveis – às exportações brasileiras. Com superávit de US$ 7,54 bilhões nas três primeiras semanas de abril e de US$ 21,72 bilhões desde o começo do ano, o comércio exterior do Brasil parece ter sido pouco afetado, por enquanto, pelo conflito no Oriente Médio e pela navegação restrita no Estreito de Ormuz. Desde janeiro, o País exportou US$ 103,58 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Para 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior projeta vendas externas de US$ 364,20 bilhões e superávit de US$ 72,1 bilhões.

O bom desempenho comercial tornou-se rotineiro, ou quase, nos últimos 25 anos. A maior parte dos brasileiros talvez nem tenha noção dos problemas externos do País nos anos 80 e em boa parte dos 90. Muitos nem sabem, quase certamente, das dificuldades cambiais enfrentadas, durante um curto período, também neste século. Com reservas de US$ 362 bilhões em março, o Brasil vive hoje, em termos financeiros, uma segurança externa apenas sonhada nos 20 anos finais do século passado.

Como resposta à hiperinflação, o País sustentou um penoso e produtivo ajuste entre 1994 e os primeiros anos dos anos 2000. A arrumação interna era essencial para a saúde das contas públicas, para a contenção dos preços e também para a sustentação do equilíbrio externo. Exceto por um breve período, no início do segundo decênio deste século, o poder central manteve contas públicas sustentáveis e inflação em ritmo tolerável.

Abriu-se algum espaço para o investimento produtivo e a economia continuou a crescer. Em alguns anos, o Produto Interno Bruto (PIB) superou os 2% de expansão, mas sem sustentar uma aceleração prolongada. A crise global iniciada em 2020 afetou severamente o aumento da produção e do emprego, e a retomada do crescimento, nos anos seguintes, foi prejudicada por falhas da política econômica.

A história é bem conhecida. Sem um controle maior e uma gestão sustentável das contas públicas, a inflação permanece distante de qualquer meta razoável. Nesse quadro, uma política monetária conduzida com seriedade acaba resultando em juros elevados e em desestímulo à expansão econômica. Mantida por longo tempo em 15% e reduzida recentemente a 14,75% ao ano, a taxa básica de juros caracteriza bem a condição brasileira. Com ou sem crise internacional, as falhas da política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia do Brasil.

Essas limitações são bem conhecidas por empresários e economistas do mercado financeiro. As projeções de expansão econômica em 2026 voltaram a subir e a mediana registrada no boletim Focus chegou a 1,86% na segunda semana de abril. Mas a expectativa de inflação também continuou a aumentar e atingiu 4,80%, ultrapassando o limite superior da meta oficial, 4,5%. Segundo o mesmo boletim, a alta esperada para os preços ao consumidor em 2027 alcançou 3,99%, continuando bem acima do centro do alvo, 3%.

Inflação superior à meta e crescimento econômico medíocre permanecem, portanto, como referências para o mercado e para os formuladores da política de juros. As condições instáveis da política e da economia globais têm sido mencionadas com destaque nos comunicados dessas autoridades. Mas suas análises continuam destacando a insegurança em relação ao quadro fiscal, isto é, às contas do governo central.

Contrariando o empenho dos técnicos e também dos ministros mais prudentes da área financeira, o presidente da República tem continuado a gastar sem levar em conta as limitações do Tesouro Nacional. De vez em quando, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz algumas palavras a favor da austeridade financeira, mas logo retorna ao padrão defendido pelos companheiros e aliados mais adeptos da identificação entre governar e gastar.

Não se pode, é claro, governar sem gastar. Mas pessoas prudentes, dentro e fora do governo, levam em conta a limitação do dinheiro, as necessidades futuras, as várias e inevitáveis incertezas e, naturalmente, a conveniência de usar recursos do modo mais eficiente.

O mercado já elevou de 12,50% para 13% os juros básicos projetados para o fim deste ano. Para 2027, a taxa estimada chegou a 11%, superando por 0,5 ponto a registrada nas quatro semanas anteriores. Assim como os dirigentes do Banco Central (BC) tentam prever o comportamento do mercado, os agentes do setor privado tentam antecipar as decisões das autoridades monetárias.

Nos últimos dez anos, essas autoridades têm procurado ressaltar o caráter técnico e autônomo de suas deliberações, depois de um breve e lamentável período de subordinação do BC à chefia do Executivo. O compromisso de manter a política monetária subordinada a critérios técnicos – mas dentro de padrões compatíveis com objetivos de emprego e de certos padrões sociais – pode ser um importante fator de segurança num período de muita incerteza quanto à política, ao comércio e às finanças internacionais.

 

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