sábado, 4 de abril de 2026

O que significa machismo estrutural? Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

As mulheres estão numa situação de desigualdade competitiva, enfrentando desafios institucionais, simbólicos e materiais maiores do que os homens enfrentam. E o pior: precisam lidar com a ideia amplamente difundida de que essa desigualdade é fruto da natureza, e não de uma certa cultura

Sabemos que o machismo é um problema estrutural, mas será que há clareza sobre o que isso significa? Gostaria de propor o debate porque estamos às vésperas da eleição e, se há um cenário em que as desigualdades se manifestam, é na cena política.

Para entender o caráter estrutural de uma desigualdade, precisamos saber que uma sociedade é, antes de tudo, uma ordem. Há padrões duráveis que se manifestam na nossa cultura, no modo de pensar e organizar o mundo. Eles orientam as relações que organizam todos os espaços de vida, como a família, a escola, a religião, o estado, as instituições como um todo. Assim se cria o que chamamos "estrutura" e se permite o funcionamento da vida comum em uma sociedade organizada.

Quando afirmamos que uma sociedade patriarcal é estruturalmente machista, estamos dizendo que o princípio de superioridade masculina se manifesta em todas as dimensões da vida, de forma muitas vezes sutil e implícita, criando uma desigualdade que é abrangente, naturalizada e alimentada pela própria sociedade. Assim, família, estado, igreja, arte acabam por reforçar uma certa ordem estável, o que torna muito difícil para as mulheres superarem, individualmente, o ciclo de exclusões a que estão expostas: há uma rede de interdições que se retroalimentam, justamente por serem estruturais.

Esse machismo estrutural se manifesta no plano das instituições, que são moldadas para favorecer certos grupos; no plano simbólico, alimentando discursos, estereótipos e uma linguagem; e no plano material, por meio de uma distribuição de riqueza muito desigual. Por isso as mulheres estão numa situação de desigualdade competitiva, enfrentando desafios institucionais, simbólicos e materiais maiores do que os homens enfrentam. E o pior: precisam lidar com a ideia amplamente difundida de que essa desigualdade é fruto da natureza, e não de uma certa cultura.

As eleições são um exemplo do quão difícil é para uma mulher conseguir chegar aos espaços de poder que efetivamente tornam possível as mudanças dos padrões da sociedade. É um evento muito oportuno para vislumbrarmos as desigualdades de competição, as assimetrias que dificultam a vida das mulheres, e para reafirmarmos o potencial de transformação que vem da ação política, porque temos a capacidade humana para mudar e corrigir padrões indesejáveis.

Indivíduos, sozinhos, por melhores que sejam, não são capazes de mudar toda uma forma de organização social. Essa mudança, para acontecer, precisa vir de um esforço coletivo, a partir da construção de um consenso sobre o princípio da igualdade como marca de justiça. Só assim deixaremos de sobrecarregar pessoas como se elas pudessem, quixotescamente, nos salvar de nossos vícios comuns.

 

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