O Estado de S. Paulo
Se você desconfia do que Daniel Vorcaro contratava ao contratar o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, desconfiará da intenção do banqueiro ao investir, sob o aval da família Bolsonaro, no filme sobre Jair Bolsonaro. Este é o incômodo que perturba o bolsonarismo: ter caído na rede vorcárica, emaranhado Flávio Bolsonaro na mesma trama de suspeição em que está Xandão.
Não se trata – não ainda – de questão
policial; em nenhum dos casos havendo prova de que vantagem fora barganhada em
troca do contrato-investimento. A questão tem natureza política e impacto
limitador sobre o discurso eleitoral – sobre a porção do discurso que pautará
os humores eleitorais. Porque há um padrão vorcárico–defácilreconhecimento –
para estabelecimento de relações de interesse, a pergunta fundamental
permanecendo a mesma: o que Vorcaro comprava, ou desejava comprar, ao comprar,
usando um fundo-fachada, parte da parte de Dias Toffoli no hotel?
O uso de fachadas, pilar do padrão vorcárico,
compõe a rede por meio da qual o sujeito, invisível, estava em todos os
lugares, sabido já que ao menos alguns dos milhões de dólares que destinou ao
filme foram remetidos – para fundo administrado pelo advogado de Eduardo
Bolsonaro – por meio de empresa-laranja, metida com firmas suspeitas de lavar
recursos para PCC e máfia italiana, de que o banqueiro se servia quando até o
compliance do Master recusava uma operação.
O que Vorcaro contratava, ou desejava contratar,
ao contratar a banca da esposa de ministro do STF? É pergunta que o
bolsonarista não pode fazer sem que a outra se imponha. O que Vorcaro adquiria,
ou desejava adquirir, ao adquirir cota em filme sobre expresidente cuja família
controla os destinos da direita brasileira?
Ninguém pode provar que Flávio – ou Moraes,
ou Toffoli – tenha pactuado contrapartida aos dinheiros despendidos por
Vorcaro. Ninguém pode dizer que Flávio não tivesse contrapartida a lhe
oferecer. Um senador, com liderança sobre bancada, proponente de projetos de
lei, filho de ex-presidente, com acesso a nomeados pelo pai na administração
federal, com acesso fácil ao governo Castro no Rio e, senão candidato ele
próprio, palavra decisiva sobre quem seria o escolhido a concorrer contra Lula.
Tipo a ser conquistado, investimento com mais futuro do que aquele em Ciro
Nogueira – também um senador de oposição.
E há a questão das datas, que os Bolsonaro
instrumentalizam para apregoar que os contatos com Vorcaro seriam anteriores às
revelações sobre as pilantragens do sujeito. Proponha-se marco temporal
conservador para o que seria a eclosão pública do affair Master, impossível
desde então desconhecer as traficâncias vorcáricas: 3 de setembro de 2025, o
dia em que o BC rejeitou a compra do banco pelo BRB. É de cinco dias depois, 8
de setembro, o áudio em que Flávio pede o dinheiro devido ao “irmão” que também
passava “por um momento dificílimo”. É de 16 de novembro, véspera da prisão de
Vorcaro, a mensagem em que declara – “estou e estarei sempre contigo” – não
haver “meia conversa” entre eles.

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