O Estado de S. Paulo
Para o vice-presidente da República Geraldo
Alckmin, o estrago produzido pelos juros altos ficará substancialmente reduzido
se for feita uma pequena mexida na meta de inflação.
Se para definir os juros, em vez de medir a
inflação pelo IPCA cheio (custo de vida), como é agora, for adotado o critério
de núcleo de inflação, os juros podem despencar.
Núcleo de inflação, assim entendido, é o mesmo IPCA, só que expurgado das variações de preços dos alimentos e dos combustíveis, dois itens voláteis, sujeitos a frequentes choques de oferta. Chuva demais ou chuva de menos ataca os preços do chuchu; um espirro da Opep mexe com os preços do petróleo e do gás...
Alckmin observa que o Fed (banco central dos
Estados Unidos) não fixa os juros básicos com base na inflação cheia, mas com
base na variação do núcleo da inflação assim expurgada. É o que deveria ser
adotado aqui, propõe ele.
Essa ideia poderia fazer sentido no Brasil se
não houvesse uma quase impossibilidade. É que por aqui vigora a indexação
(correção monetária), que são os reajustes de preços e valores pela inflação
passada. Preços administrados (fixados pelo governo), o salário mínimo,
aposentadorias, remuneração dos funcionários públicos, dívidas, impostos,
aluguel, despesas de condomínio e tanta coisa mais sofrem reajustes pela
inflação passada. Essa indexação é transferida para os demais preços e, assim,
propaga a inflação.
Se é para trabalhar com o núcleo de inflação
para definição dos juros, é preciso, também, ou acabar com a indexação, ou
indexar também pelo núcleo os valores acima apontados. Na condução de sua
política monetária, o Fed não enfrenta a contaminação dos preços pela
indexação. Pode usar o núcleo sem maiores contra indicações. É grande equívoco
defender a vigência em bruto também, por aqui, do sistema em uso nos Estados
Unidos.
Quase sempre, quem quer reformar o sistema de
metas de inflação se limita a atacar os sintomas e não as causas, que não se
limitam à indexação.
O PT, em suas Diretrizes para o futuro,
defende não apenas o fim da autonomia do Banco Central (e da política de
juros). Quer, também, rever a meta de inflação. Entende que a meta, de 3% em
doze meses, hoje em vigor, é baixa demais e, assim, exige juros altos para ser
cumprida. A proposta é de aumentar essa meta para que a Selic possa ser mais
baixa.
Também o PT não quer agir sobre as causas da
inflação, que são as excessivas despesas do governo, que despeja dinheiro
demais na economia. Não quer atacar a febre; quer mudar a escala do termômetro.
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