O Povo (CE)
Os partidos seguem tratando a representação
feminina como ativo simbólico, sem transformá-la em critério para distribuir o
poder
Após uma semana de negociações aceleradas, as
chapas da oposição e situação começam a tomar forma no Ceará. O campo
governista anunciou uma composição que deve assegurar a tentativa de reeleição
de Elmano de Freitas. Para o senado, o nome de Cid Gomes foi confirmado,
garantindo-se a primeira suplência para Júnior Mano.
A solução, chancelada por uma foto do presidente Lula com as principais lideranças envolvidas, parece acomodar os interesses de Freitas, Santana e Cid Gomes no estado, evitando-se uma ruptura que poderia comprometer as chances de reeleição petista. PT, PSB e MDB devem caminhar juntos e oferecer um grande desafio ao PL e PSDB.
Pela oposição, Ciro Gomes se consolida como
o pré-candidato ao governo, com chances de ter Roberto Cláudio ao seu lado
como vice. Capitão Wagner e Alcides Fernandes devem integrar as vagas para o
Senado Federal, sedimentando uma derrota para Priscila Costa e
Michelle Bolsonaro no estado.
Poderíamos analisar as fotos das duas chapas
sob várias perspectivas, mas me concentrarei em uma delas: onde estão as
mulheres? É bastante paradigmático que tenhamos mais uma eleição
majoritária em que a representatividade feminina é inexistente ou pouco
viável eleitoralmente. Essa ausência não deve ser interpretada pelos
leitores como um acaso, ela é o reflexo de uma estrutura partidária e
política bastante hostil ao fortalecimento de lideranças femininas mais jovens
que possam renovar os quadros e garantir mais equilíbrio de gênero nas
candidaturas para os tão fundamentais cargos do Poder Executivo.
Seria natural esperarmos essa
sub-representação entre os conservadores, mas o campo progressista não tem
oferecido exemplo diferente. O esvaziamento do protagonismo feminino foi
observado em diversos estados, especialmente no Ceará, no Rio Grande do Norte e
no Pernambuco, com candidatas competitivas preteridas em lugar de figuras mais
tradicionais.
Longe de representar um ano de renovação,
2026 será marcado como um ano de retorno (ou reforço) de uma política dos
caciques. Nela, partidos optam por ceder espaço a lideranças masculinas mais
consolidadas, ainda que haja uma percepção muito clara da necessidade de
convencer as mulheres eleitoras para que se garanta o sucesso de
qualquer candidatura. As mulheres se tornaram fundamentais para conferir
legitimidade ao discurso, mas raramente aparecem como o nome em torno do qual o
poder efetivamente se organiza.
Os partidos seguem tratando a representação feminina como ativo simbólico, sem transformá-la
em critério para distribuir o poder. As mulheres dispõem, contudo, de um
instrumento poderoso para mudar essa realidade: o seu voto e a cobrança por
maior coerência entre discurso partidário e a prática.
*Doutora em Direito (USP), professora da
Universidade Federal do Ceará.

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