Folha de S. Paulo
Decisão do STF de ir mantendo desembargador à
frente do governo fluminense é a melhor para o Rio
O problema é que ela atropela a ordem
sucessória prevista na Constituição estadual e na federal
Tá tudo dominado. É pequena a chance de a
Assembleia Legislativa do Rio de
Janeiro (Alerj) tomar boas decisões. Seria uma temeridade
colocar o novo presidente da Casa, que também é candidato a governador, para
comandar interinamente o estado após a crise de múltiplas vacâncias.
É provavelmente com base nessas verdades autoevidentes que o STF vem mantendo o presidente do TJ fluminense, desembargador Ricardo Couto, à frente do Palácio Guanabara, em vez do deputado estadual Douglas Ruas. Vale ainda ressaltar que Couto está fazendo um bom trabalho como administrador provisório.
Não tenho dúvida de que a solução encontrada
pelo STF é a melhor para o Rio. Se fosse a única decisão que a corte tivesse de
tomar —a interação única da teoria dos jogos—, eu não teria reparos. O problema
é que o STF tem uma pauta quase infinita, o que o lança no campo dos jogos de
interações repetidas.
E, para manter Couto e não Ruas à frente do
Guanabara, os ministros estão passando por cima da ordem sucessória determinada
pela Constituição do Rio de Janeiro, que reproduz quase que literalmente a
Constituição Federal. Pior, há precedentes do próprio STF determinando que essa
ordem é obrigatória. Estados que tentaram inventar coisas diferentes aí foram
impedidos de fazê-lo.
Para um observador externo, é quase
impossível olhar para essa situação e não concluir que os ministros, em vez de
aplicar a lei e ver qual resultado político ela produz, estão tomando uma decisão
política e reinterpretando a lei de modo a sustentá-la. Se a corte recorresse a
esse expediente só muito excepcionalmente, não haveria maiores prejuízos. As
fronteiras entre julgar e legislar são às vezes nebulosas. Mas o STF tem tomado
decisões que podem ser lidas como politicamente motivadas com tanta frequência
que o Judiciário vai deixando de ser percebido como um Poder mais técnico do
que político. Os danos reputacionais são cumulativos e difíceis de reparar.
No mínimo, o STF precisa administrar melhor
sua agenda de casuísmos.
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