Folha de S. Paulo
Demolição do Cruz da Esperança, tradicional
espaço de cultura preta, é desrespeito à capital paulista
Revela uma visão de cidade: a do cercadinho,
de um lado, e a do espaço público para todos, de outro
Realizada nesta quarta-feira (29), a demolição do Espaço Cruz da Esperança, no bairro da Casa Verde, na zona norte da capital paulista, é um dos últimos exemplos de desrespeito da Prefeitura de São Paulo com o patrimônio cultural da cidade. Fundado em 1958, o Espaço Cruz era um dos principais locais de cultura preta na metrópole, com rodas de samba, capoeira, futebol e práticas religiosas. Ao longo do dia, chegaram à imprensa denúncias de desrespeito ao patrimônio religioso, como demolição sem respeitar rituais de locais sagrados de terreiro.
Com o aval judicial, a demolição do Espaço
Cruz se dá com a justificativa da construção do parque Campo
de Marte. Opor locais culturais a parques, no entanto, é simplista;
se tivesse interesse, o prefeito Ricardo Nunes (MDB)
poderia aliar o respeito pela história do local e por seus frequentadores à
construção do parque, o que não houve. Parques sem diálogo com a comunidade
local já nascem estéreis. Para Nunes, gerir o município prescinde de dialogar
com quem exerce cotidianamente seu direito a viver a cidade e usufruir de
espaços públicos.
São diversos exemplos, apenas neste ano de
2026. Em junho, grupos de teatro reclamaram que editais de fomento à cultura
estão atrasados.
Em março, o Teatro de
Contêiner (região central), foi abaixo em meio à falta de
clareza sobre a realocação da companhia que ocupava o espaço havia dez anos. Em
fevereiro, o Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro,
passou a ser ameaçado de desapropriação após um decreto municipal prever a construção de um boulevard. A
mesma gestão municipal da cultura que evita dialogar com grupos locais luta na
Justiça para transplantar à cidade uma Times Square caricata, o tal Boulevard São
João.
A gestão Nunes privilegia o privado ao
público, haja vista a desastrosa concessão do Vale do
Anhangabaú. Está em disputa não somente um espaço cultural, parque
ou teatro, mas sim uma visão de cidade; a do cercadinho, de um lado, e a do
espaço público para todos, de outro.

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