sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A pirâmide virou pião, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Em breve, o Brasil terá mais idosos acima de 60 anos do que jovens abaixo de 15

A diferença é que os países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecer

O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e hoje, "em que deixamos de ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de vida de 78 anos".

"Esse aumento", disse dra. Margareth, "se deveu a intervenções sanitárias, como vacinação em massa, sobretudo na primeira infância, saneamento básico, ainda que desigual, expansão do SUS (Sistema Único de Saúde) e avanços na medicina, mesmo em regiões remotas. Nas próximas duas décadas, seremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15".

A dúvida é se estaremos equipados para essa nova situação. Segundo o gerontólogo Alexandre Kalache, citado por ela, países desenvolvidos como o Japão e os europeus primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil envelhece marcado pela pobreza. "Ser velho e pobre no Brasil é o mais triste destino", disse dra. Margareth. "Numa sociedade tão excludente como a nossa, o velho e pobre se torna um fardo para a família, ainda que, com frequência, se veja o triste paradoxo de uma modesta pensão ou aposentadoria desse idoso ser a fonte de renda primordial para aquele núcleo familiar."

Dra. Margareth continuou: "Num país 90% urbanizado como o Brasil, o cenário urbano é hostil para as pessoas mais velhas. Precisamos de reformas públicas, de exercer grande pressão sobre os transportes, as cidades e as moradias, para adaptá-los a elas. Envelhecer em boas condições permite o acesso a cuidados de toda ordem, e até prazeres, que seguramente adoçam a perda de autonomia".

E concluiu: "A vida não precisa ser só exaustão e urgência —é travessia. É habitar o tempo com serenidade, justiça e autonomia. Como diz o acadêmico Ailton Krenak, ‘se não aprendermos a pisar suavemente na terra, o céu cai sobre a nossa cabeça’".

 

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