Folha de S. Paulo
Em breve, o Brasil terá mais idosos acima de
60 anos do que jovens abaixo de 15
A diferença é que os países desenvolvidos
enriqueceram antes de envelhecer
O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para
baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em
conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth
Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma
sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e
hoje, "em que deixamos de
ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de
vida de 78 anos".
"Esse aumento", disse dra. Margareth, "se deveu a intervenções
sanitárias, como vacinação em massa, sobretudo na primeira infância, saneamento
básico, ainda que desigual, expansão do SUS (Sistema Único de Saúde)
e avanços na medicina, mesmo em regiões remotas. Nas próximas duas décadas,
seremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15".
A dúvida é se estaremos equipados para essa nova situação. Segundo o
gerontólogo Alexandre
Kalache, citado por ela, países desenvolvidos como o Japão e os
europeus primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil envelhece
marcado pela pobreza. "Ser velho e pobre no Brasil é o mais triste
destino", disse dra. Margareth. "Numa sociedade tão excludente como a
nossa, o velho e pobre se torna um fardo para a família, ainda que, com
frequência, se veja o triste paradoxo de uma modesta pensão ou aposentadoria
desse idoso ser
a fonte de renda primordial para aquele núcleo familiar."
Dra. Margareth continuou: "Num país 90% urbanizado como o Brasil, o
cenário urbano é hostil para as pessoas mais velhas. Precisamos de reformas
públicas, de exercer grande pressão sobre os transportes, as cidades e as
moradias, para adaptá-los a elas. Envelhecer em boas condições permite o acesso
a cuidados de toda ordem, e até prazeres, que seguramente adoçam a perda de
autonomia".
E concluiu: "A vida não precisa ser só
exaustão e urgência —é travessia. É habitar o tempo com serenidade, justiça e
autonomia. Como diz o acadêmico Ailton Krenak,
‘se não aprendermos a pisar suavemente na terra, o céu cai sobre a nossa cabeça’".
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