sábado, 22 de agosto de 2026

A vontade de Deus influencia o seu voto? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Vivemos em um estado laico, mas isso não significa dizer que Deus está totalmente aposentado da política. Uma pesquisa interessante conduzida pelo Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense, revelou que, para 81% dos eleitores, é fundamental que um candidato acredite em Deus. O número sobe para 89% na faixa de quem ganha até um salário mínimo.

Para 74% dos eleitores, acreditar em Deus torna as pessoas melhores, e mais de 80% acreditam que as escolas devem ensinar crianças e jovens a ter fé. Os números são reveladores de um país profundamente crente, que não aceita a tese de uma separação entre assuntos religiosos e questões de estado.

A centralidade da religião para o senso de moralidade compartilhada desafia as teses mais tradicionais da sociologia. Para autores como Hannah Arendt, uma das características do mundo moderno é um processo profundo de separação entre o espaço público e o espaço privado, com a privatização da religião. Dizendo de modo mais simples, nós seríamos, em tese, herdeiros de uma concepção de mundo em que as questões de fé são particulares e as questões públicas devem ser tocadas sem necessária referência a uma religião. Só assim, dizem os teóricos, um mundo de pluralismo religioso tornou-se possível: foi preciso privatizar o credo para todos pudessem escolher o seu.

Há uma distância maior entre as teses e a realidade do que gostaríamos de imaginar. Embora o estado de direito democrático fundado pela nossa constituição seja laico, a verdade é que a maioria das pessoas conduz suas vidas e decide politicamente com uma dependência profunda de sua fé. Filósofos contemporâneos atentos ao fenômeno já chamaram atenção da importância de levarmos a religião em conta em nossas explicações sobre as dinâmicas políticas do presente, especialmente sobre o quão difícil é, para o cidadão religioso, essa "separação estrita entre argumentos religiosos e não religiosos", como explicou Manfredo Oliveira em seu livro A religião na sociedade urbana e pluralista.

O desafio não tem solução fácil, porque abrir mão da laicidade do estado nos fará retroceder para um mundo de fanatismo, negação das liberdades e misticismo religioso. Sem pretender apontar caminhos ou soluções, me parece urgente executarmos um cuidado que é, hoje, factível: evitar a instrumentalização da religião e dos espaços de credo para a promoção de candidaturas. É preciso controlar, com menos pudor, o uso mal-intencionado da fé para convencer eleitores de que o interesse pessoal de alguns é o desejo do seu deus. Quando Deus se partidiariza e entra no embate, até ele precisa cumprir, e com rigor, a lei eleitoral

*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará.

 

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