Valor Econômico
Nem a inteligência artificial seria capaz de
reproduzir o capítulo final da novela da candidatura Cleitinho
A inteligência artificial tem sido a geni
desta reta final de campanha, com peças como o avatar do ex-presidente Jair
Bolsonaro na convenção do PL, mas não se pode atribuir aos seus predicados o
capítulo final da novela da candidatura ao governo de Minas do senador
Cleitinho Azevedo (Republicanos). O vídeo divulgado na tarde desta
segunda-feira pelo presidente do Republicanos e deputado federal Marcos Pereira
(SP), ao lado do senador e do presidente estadual do partido, Euclydes
Pettersen, é fruto da degeneração natural da política brasileira.
Favorito à disputa estadual, o senador, que
foi eleito em 2022 nas asas do bolsonarismo, manteve suspense até a semana
passada. Faltou à convenção de 25 de julho, mas publicou um vídeo de
inteligência artificial em que aparecia com dois parentes já falecidos, o pai e
o irmão. Recebia, do primeiro, um incentivo e, do outro, a bandeira de Minas.
Na cronologia dos fatos exposta por Marcos Pereira, o partido esperou uma decisão de Cleitinho até a noite de terça-feira. Como esta decisão não aconteceu, o Republicanos divulgou, em nota, que ele não seria candidato. Na quarta-feira, Cleitinho deu uma entrevista em que, exaltado, diz ter 40% nas pesquisas e reitera a candidatura: “a voz do povo é a voz de Deus”.
O picadeiro ficou armado até o fim de semana
quando Marcos Pereira disse que, por pressão da chapa de deputados estaduais e
federais, reabriria a discussão com Cleitinho. Desta reunião, realizada em
Brasilia nesta segunda, resultou o vídeo imune a imitações. Nele, o presidente
do Republicanos, um ex-pastor da Igreja Universal em quem Cleitinho, numa
entrevista a O Globo no início de junho, professou sua desconfiança, relatou, ao
seu lado, suas idas e vindas na disputa e pediu que o senador, um “homem
sentimental”, confirmasse sua desistência.
Cleitinho desatou a chorar, pediu perdão, mas
disse que não conseguia cuidar nem de si mesmo, dirá do povo mineiro. Em
seguida, Pereira se dirigiu a Pettersen, ex-deputado federal indiciado em
inquérito da Polícia Federal por suspeita de ser o “agente mais bem remunerado”
do esquema de fraudes em descontos associativos do INSS, disse que era preciso
acatar a “vontade de Deus”.
Ao embargar a voz para falar do próprio pai
falecido, o dirigente estadual do Republicanos passou o microfone para Pereira
que relatou sua origem de filho adotado e, em novo dueto com Cleitinho,
concluiu que o senador não estava bem mas contava com suas orações. A pressão
da bancada de deputados estaduais e federais desapareceu tão rapidamente quanto
surgiu e o líder das pesquisas ficou de fora da disputa.
No meio desse puxa-encolhe, Marcelo Aro (PP),
ex-Casa Civil de Romeu Zema, integrante do núcleo mais próximo do ex-presidente
da Câmara, Eduardo Cunha, e ex-diretor de ética e transparência da CBF na
gestão Marco Polo Del Nero, banido do futebol pela Fifa por corrupção, suborno
e propina, entrou em negociação com Republicanos, União e PP para disputar o
governo.
O governador Mateus Simões (PSD), candidato à
reeleição com apoio de Zema e Gilberto Kassab, definiu Aro, com quem vivia às
turras no governo, como “oportunista de plantão” apoiado pelo “presidiário
cassado” Eduardo Cunha. Zema completou: “É ave de rapina”. Aro avisou que,
oportunamente, se pronunciará e nesta segunda, foi confirmado candidato.
Em convenção fechada nesta terça, o
Republicanos deve firmar neutralidade na disputa nacional, negando a legenda
para a ex-presidente da Caixa, Daniela Marques, ser a vice de Flávio Bolsonaro.
O PL acende duas velas. Uma vai para o Centrão, que pode colocar em pé a
candidatura da tríplice aliança Ciro Nogueira, Antonio Rueda e Eduardo Cunha no
Estado cujas licenças ambientais, alvo de operações da PF, serão alvo de cobiça
a partir da aprovação do marco regulatório de exploração dos minerais de terras
raras.
A outra vai para Lula, por levar a disputa ao
2º com um provável palanque reunindo dois ex-prefeitos de BH, Alexandre Kalil
(PDT), cuja iconoclastia pode lhe levar a herdar o voto antissistema de
Cleitinho, e Patrus Ananias (PT), contra Simões ou Aro, provável palanque de
Flávio Bolsonaro.
Um 2º turno, porém, como deixou claro na
convenção, é tudo que o presidente não quer, mas a fatura de 1º turno também
tem na disputa nacional por Minas, segundo maior colégio do país, com mais de
10% do eleitorado, um de seus principais obstáculos. Primeiro candidato mineiro
à Presidência desde que Aécio Neves chegou, competitivo, contra Dilma Rousseff,
ao 2º turno de 2014, Zema não repetirá o feito, mas atravanca a vida de Lula.
Na Genial/Quaest da semana passada, enquanto,
nacionalmente, Lula aparecia com 13 pontos percentuais acima de Flávio entre as
mulheres, registrava, em Minas, empate técnico (26% x 24%) nesta fatia do
eleitorado. Quem lhe tira o voto das mineiras é Zema que, segundo Felipe Nunes,
diretor da Quaest, é popular entre as eleitoras (14%), principalmente do Norte
de Minas, onde fica o Vale do Jequitinhonha, outrora reduto petista.
Se o Estado não falhar no papel de espelho do
país, o que se vê são disputas dramáticas em que o Centrão deixou de apostar no
histriônico e se vale de um profissional de suas hostes para o Palácio da
Liberdade, mas joga para se manter como fiel da balança para quem quer que
esteja no Palácio do Planalto.

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