segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Precisamos de menos Janja e mais cultura, por Miguel de Almeida

O Globo

A bonita ideia de reparação condena o país a uma falsa clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade

“Barreto, essa história de cultura é lá com a Janja, fale com ela”, disse Lula. Barreto é Luiz Carlos Barreto, lendário produtor cinematográfico, responsável pela hagiografia “Lula, o filho do Brasil”. Janja é a primeira-dama Janja da Silva. O diálogo ocorreu no início do Lula 3, e Barretão, desconsolado, o narrou a diversos interlocutores. A insatisfação com a política cultural explodiu num manifesto da classe artística, pouco divulgado, à beira do primeiro turno. Em meio ao apoio, destacam-se as pauladas na orientação praticada pelo MinC:

— Queremos um salto não apenas quantitativo, de orçamento, mas sobretudo qualitativo na visão, compreensão e gestão da cultura e das artes por parte do próximo governo Lula.

Assinado por cerca de 600 nomes da área artística, entre eles Fernando Morais, biógrafo de Lula, as atrizes Glória Pires e Irene Ravache, a carta se posiciona contra diretrizes caras à atual gestão:

— As políticas devem ser mais que meramente simbólicas: devem ter resultados artísticos, econômicos e sociais relevantes.

E, por fim, afirma que o passado (Lula 1 e 2) foi melhor que o presente janjista:

— É fundamental que Iphan, Funarte, Ancine tenham políticas consistentes. É preciso coragem, retomar o brilho de gestões anteriores, em que os diversos segmentos artísticos sentiam os avanços como palpáveis.

Existem diferenças notáveis de orientações entre as três administrações comandadas por Lula. Em relação à primeira, a guinada é difícil de compreender, sobretudo para quem pensa a cultura dentro de uma economia de mercado num país emergente (vá lá!). Se anteriormente havia uma diretriz em que o produto cultural era meio de identidade e de geração de renda, sem descaracterizar ou instrumentalizar a arte, a atual gestão do MinC o tornou um objeto manipulado de uso político. Se quiser dar a isso um nome, pode chamar de stalinismo cultural. É algo que morreu com a queda do Muro de Berlim, mas ainda sobrevive em setores da seara petista.

Sob o ministro Gilberto Gil, nos primeiros Lulas, havia um pensamento antenado com o desenvolvimento de políticas culturais à luz das melhores práticas. Ali se enxergava o que ocorria na Coreia do Sul — hoje um dos grandes players mundiais, haja vista seu ótimo cinema e o pop que exporta, lotando estádios, e também a área editorial, em que ganha espaço. Em poucos anos, a Coreia do Sul tratou filmes, canções e livros como política industrial. Não mais apenas carros ou gadgets são exportados pelos coreanos.

Anota o documento da classe artística, que apoiou Lula:

— É preciso que o próximo governo compreenda que o audiovisual, a música e o mercado editorial são indústrias estratégicas geradoras de divisas e que não podem continuar ausentes do projeto de reindustrialização do Brasil.

O Brasil deu vários passos atrás sob a gestão Janja/Margareth Menezes. É o que reconhecem os artistas e, ao apontar o uso funesto do “simbólico” como linha ideológica, miram o regime de cotas seguido pelo atual governo. A bonita ideia de reparação condena o país a uma falsa clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade. Gil, ao contrário da simpática Menezes, tinha autoridade e indicou seus chefes de departamento para seguir uma linha plural e descentralizada, sem qualquer traço de manipulação ou de catequese. Gil é instruído, cosmopolita e compreende o papel da cultura no mundo globalizado.

O espírito identitário prejudica outras áreas; não apenas na cultura, mas também nos laboratórios. Até a unção de viés reparatório, o CNPq era órgão responsável por avaliar as propostas e determinar sua execução. Agora a ciência se curva ao atraso (alguém lembrou Lysenko?). Em diversas chamadas feitas com o Ministério da Saúde, o mérito científico passa por um segundo filtro, de relevância social. A pontuação será positiva caso o projeto conte com pesquisadores trans, indígenas, quilombolas etc. Segundo o IBGE, os quilombolas são 0,65% da população; os editais dão pontos à equipe que tiver ao menos 5% deles — quase oito vezes a proporção do país.

— Onde arranjarei geneticista trans? — ouvi de cientistas.

Bem pontuados no CNPq e elogiados nos órgãos acadêmicos lá fora bateram na trave do conselho reparatório. As pesquisas não serão financiadas.

Quem perde? Todos nós. Lula ganhou graças àqueles que votaram contra o sobrenome Bolsonaro, não a seu favor — e que isso fique claro aos camaradas petistas. O Congresso eleito, mais conservador, mostra como a população deseja um novo desenho de desenvolvimento. Espero que seja mais criativo e menos pedestre.

Na toada atual, o país caminha para seu glorioso passado extrativista.

 

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