O Globo
A bonita ideia de reparação condena o país a
uma falsa clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade
“Barreto, essa história de cultura é lá com a
Janja, fale com ela”, disse Lula.
Barreto é Luiz Carlos Barreto, lendário produtor cinematográfico, responsável
pela hagiografia “Lula, o filho do Brasil”. Janja é a primeira-dama Janja da
Silva. O diálogo ocorreu no início do Lula 3, e Barretão, desconsolado, o
narrou a diversos interlocutores. A insatisfação com a política cultural
explodiu num manifesto da classe artística, pouco divulgado, à beira do
primeiro turno. Em meio ao apoio, destacam-se as pauladas na orientação
praticada pelo MinC:
— Queremos um salto não apenas quantitativo,
de orçamento, mas sobretudo qualitativo na visão, compreensão e gestão da
cultura e das artes por parte do próximo governo Lula.
Assinado por cerca de 600 nomes da área
artística, entre eles Fernando Morais, biógrafo de Lula, as atrizes Glória
Pires e Irene
Ravache, a carta se posiciona contra diretrizes caras à atual gestão:
— As políticas devem ser mais que meramente simbólicas: devem ter resultados artísticos, econômicos e sociais relevantes.
E, por fim, afirma que o passado (Lula 1 e 2)
foi melhor que o presente janjista:
— É fundamental que Iphan, Funarte, Ancine
tenham políticas consistentes. É preciso coragem, retomar o brilho de gestões
anteriores, em que os diversos segmentos artísticos sentiam os avanços como
palpáveis.
Existem diferenças notáveis de orientações
entre as três administrações comandadas por Lula. Em relação à primeira, a
guinada é difícil de compreender, sobretudo para quem pensa a cultura dentro de
uma economia de mercado num país emergente (vá lá!). Se anteriormente havia uma
diretriz em que o produto cultural era meio de identidade e de geração de
renda, sem descaracterizar ou instrumentalizar a arte, a atual gestão do MinC o
tornou um objeto manipulado de uso político. Se quiser dar a isso um nome, pode
chamar de stalinismo cultural. É algo que morreu com a queda do Muro de Berlim,
mas ainda sobrevive em setores da seara petista.
Sob o ministro Gilberto
Gil, nos primeiros Lulas, havia um pensamento antenado com o
desenvolvimento de políticas culturais à luz das melhores práticas. Ali se
enxergava o que ocorria na Coreia do Sul — hoje um dos grandes players mundiais, haja vista seu
ótimo cinema e o pop que exporta, lotando estádios, e também a área editorial,
em que ganha espaço. Em poucos anos, a Coreia do Sul tratou filmes, canções e
livros como política industrial. Não mais apenas carros ou gadgets são
exportados pelos coreanos.
Anota o documento da classe artística, que
apoiou Lula:
— É preciso que o próximo governo compreenda
que o audiovisual, a música e o mercado editorial são indústrias estratégicas
geradoras de divisas e que não podem continuar ausentes do projeto de
reindustrialização do Brasil.
O Brasil deu vários passos atrás sob a gestão
Janja/Margareth Menezes. É o que reconhecem os artistas e, ao apontar o uso
funesto do “simbólico” como linha ideológica, miram o regime de cotas seguido
pelo atual governo. A bonita ideia de reparação condena o país a uma falsa
clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade. Gil, ao contrário da
simpática Menezes, tinha autoridade e indicou seus chefes de departamento para
seguir uma linha plural e descentralizada, sem qualquer traço de manipulação ou
de catequese. Gil é instruído, cosmopolita e compreende o papel da cultura no
mundo globalizado.
O espírito identitário prejudica outras
áreas; não apenas na cultura, mas também nos laboratórios. Até a unção de viés
reparatório, o CNPq era órgão responsável por avaliar as propostas e determinar
sua execução. Agora a ciência se curva ao atraso (alguém lembrou Lysenko?). Em
diversas chamadas feitas com o Ministério da Saúde, o mérito científico passa
por um segundo filtro, de relevância social. A pontuação será positiva caso o
projeto conte com pesquisadores trans, indígenas, quilombolas etc. Segundo o
IBGE, os quilombolas são 0,65% da população; os editais dão pontos à equipe que
tiver ao menos 5% deles — quase oito vezes a proporção do país.
— Onde arranjarei geneticista trans? — ouvi
de cientistas.
Bem pontuados no CNPq e elogiados nos órgãos
acadêmicos lá fora bateram na trave do conselho reparatório. As pesquisas não
serão financiadas.
Quem perde? Todos nós. Lula ganhou graças
àqueles que votaram contra o sobrenome Bolsonaro, não a seu favor — e que isso
fique claro aos camaradas petistas. O Congresso eleito, mais conservador,
mostra como a população deseja um novo desenho de desenvolvimento. Espero que
seja mais criativo e menos pedestre.
Na toada atual, o país caminha para seu
glorioso passado extrativista.

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