sábado, 21 de fevereiro de 2026

Vorcaro e os embalos de Trancoso, por Thaís Oyama

O Globo

Com caviar à farta, festas eram repletas de beldades croatas, russas e ucranianas para alegrar os convivas

Um cínico diria que, no território da concupiscência, os operadores da Corte brasiliense refinaram bastante seus métodos. No primeiro governo Lula, lobistas recorreram à autointitulada “promotora de eventos” Jeany Mary Corner para que suas “recepcionistas” azeitassem as relações entre empresários e integrantes da “República de Ribeirão Preto”, como era chamado o núcleo da Fazenda comandado por Antonio Palocci. Os encontros — que, segundo testemunhas, ocorriam numa mansão do Lago Sul, com churrasco, uísque 15 anos e latas de energéticos — hoje parecem festa de quermesse perto do padrão de suntuosidade com que o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, tratava os seus amigos, entre eles vultos da República.

Olha elas, por Flávia Oliveira

O Globo

Festa foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana

O carnaval 2026, que chega hoje ao sábado derradeiro, premiou um sambista, Ciça, o mestre dos mestres de bateria, enredo campeão da Unidos do Viradouro; homenageou um astro, Ney Matogrosso, via Imperatriz Leopoldinense; reverenciou um intelectual negro, Nei Lopes, autor de “Ifá Lucumí”, livro que inspirou o desfile da Paraíso do Tuiuti. Pôs holofotes em Luiz Inácio Lula da Silva, tema da rebaixada Acadêmicos de Niterói, e na movimentação dos adversários pela disputa eleitoral. Espantou-se com o prefeito da cidade brincando de deficiente visual no camarote na Avenida; e com o pré-candidato ao governo do Rio, o mesmo Eduardo Paes, apoiado pelo presidente de esquerda, acertando a sério a vaga de vice com o clã de Washington Reis, hegemônico em Duque de Caxias, bolsonarista raiz.

O travessão, esse injustiçado, por Eduardo Affonso

O Globo

Ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata

Com a IA fazendo revisão gramatical, tradução — e até coluna de opinião! —, há cada vez mais leitores em alerta para o risco de estarem comprando GPT por gente. E um dos sinais mais evidentes da trapaça (sim, usar máquina de escrever é uma coisa, usar “máquina de escrever” é outra...) são os travessões.

Nada mais injusto. O travessão já existia na Idade Média e se consolidou com o advento da imprensa, fazendo o meio de campo com os parênteses, a vírgula e o ponto e vírgula. Os parênteses chamam o leitor para um canto e cochicham alguma coisa, com as mãos em concha. O travessão, não: ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata. É mais que o respiro dado pela vírgula — é uma pausa dramática. Ela só interrompe; ele cria um clima. Se o ponto e vírgula se esforça para organizar, o travessão apita e manda parar o jogo.

O delegado Xandão quer intimidar, Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Xandão Orloff observa Dias Toffoli e pensa: eu sou você amanhã. E se antecipa. O juiz “com sangue nos olhos”. Houvesse República entre nós, estando ele também no celular de Vorcaro, o País esperaria relatório da Polícia Federal sobre as relações do delegadão com a turma do Master. Documento da mesma natureza daquele que a PF entregou a Fachin relativamente a Dias Toffoli – peça que reúne indícios de crimes.

Eu não serei você amanhã – reage. E então a operação policial contra servidores da Receita Federal; Alexandre de Moraes de repente relator paralelo do caso Master, para o qual escreve novela concorrente e da qual dispara capítulos intimidatórios em que a trama central se tornou a atividade ilícita do Fisco. Contra a revelação de relações econômicas cruzadas de “altas autoridades”, a intimidação cruzada também à Polícia Federal e à imprensa.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suprema Corte enfim impõe limites a Trump

Por O Globo

Ainda que ele tente restaurar tarifaço, juízes mostraram que um presidente não pode fazer tudo o que quer

Mesmo que tenha demorado, a Suprema Corte americana começou enfim a impor limites à Presidência imperial de Donald Trump. O tribunal decidiu que grande parte da alta nas tarifas de importação promovida desde o ano passado é ilegal. Por 6 votos a 3, os juízes determinaram que a lei de 1977 usada por Trump para justificar novas taxas emergenciais não dá amparo às decisões. Em nota, o tribunal afirmou que Trump não pode usá-la para reivindicar o poder de alterar tarifas sem aval do Congresso. Ele ainda dispõe, contudo, de outros instrumentos legais para decretar tarifas, com base em justificativas como segurança nacional ou práticas comerciais desleais.

Mera exaltação artística de uma figura pública, por Hélio Silveira

Folha de S. Paulo

Ato Ilícito exige comprovar desequilíbrio no pleito, uso indevido da máquina ou pedido explícito de votos fora de época

O uso de um jingle antigo em contexto de narrativa histórica não configura pedido de voto futuro; trata-se de memória

Carnaval é a maior vitrine da cultura popular brasileira. Na avenida do samba, a história é recontada, personalidades são eternizadas e críticas sociais ganham ritmo e melodia. O desfile da escola Unidos de Niterói, que prestou homenagem à trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se alvo de controvérsia política e de ações na Justiça. Contudo, ao despirmos o episódio das paixões partidárias e analisá-lo sob a ótica do direito eleitoral, a tese de abuso de poder ou propaganda antecipada revela-se juridicamente frágil.

Para configurar ilícito eleitoral, é preciso mais do que a mera exaltação de uma figura pública; é necessária a comprovação de desequilíbrio no pleito, o uso indevido da máquina ou pedido explícito de votos fora de época. Nenhum desses elementos parece estar presente no caso.

Mendonça dá mais transparência ao caso Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Semana termina com Toffoli, Moraes e Alcolumbre perdendo o controle do processo; era o que mais temiam

Vorcaro busca combinar perguntas com parlamentares para ir ao Congresso, mas estratégia pode ter ido para o brejo

O ministro do STF André Mendonça garante mais transparência ao determinar que o presidente do SenadoDavi Alcolumbre, entregue à CPI do INSS os dados do ex-banqueiro Daniel Vorcaro originados de quebra de sigilo.

As informações ficarão também com a Polícia Federal, que, sob pressão máxima nas últimas semanas, terá que redobrar a cautela para não se ver numa nova armadilha. Na PF, o que se espera é que o risco de provas serem corrompidas, usadas de forma seletiva ou até mesmo anuladas posteriormente diminua.

O coringa bolsonarista, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Sem generais à disposição, filho 01 pode escolher um vice capitão da PM

Derrite virou um trunfo ideológico mais importante que Tarcísio

Desde a mudança para a Papudinha, a saúde de Bolsonaro deve ter melhorado, o acompanhamento médico é constante. A vitimização diminuiu. Até porque a unidade da PM em Brasília se transformou numa espécie de comitê político, com o entra-e-sai dos filhos, da ex-primeira-dama, de advogados, dirigentes partidários e aliados mais próximos.

Da cadeia, Bolsonaro dá as ordens e bola as estratégias que vão sustentando –mais que isso, consolidando– a candidatura de Flávio à Presidência. "Faça tudo o que eu fiz, me tenha como espelho", é a lição resumida ao filho 01.

Supremocracia em xeque, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

A guarda da Constituição não pressupõe a manutenção do modelo supremocrático

Como a autoridade judicial não se renova pelo voto, não será fácil sair desta crise

Após contribuir de maneira fundamental para defender a democracia de seus inimigos, o Supremo Tribunal Federal imergiu, por seus próprios feitos, numa aguda crise reputacional. A questão que se coloca neste momento é se conseguiremos superar esta crise ou se estamos frente ao esgotamento do modelo supremocrático.

Ao concentrar no STF as funções de tribunal constitucional, corte de últimos recursos e tribunal de primeira instância para a classe política, a Constituição deslocou o Supremo para o centro do sistema político. Não houve questão relevante de natureza política, econômica ou moral a que não se tenha reclamado a última palavra do Supremo.

Luiz Werneck Vianna (1938-21.2.2024)* - Onde mora o perigo (O último artigo, do meu amigo, no Blog, (17.2.2023)

Quase dois meses da defenestração do fascismo tabajara do Estado já se respira melhor e o alento da esperança se faz sentir mesmo no caminho de pedras que temos pela frente. Verdade que o governo democrático tem agido com tino, reforçando e ampliando suas alianças, além de perseguir pautas de larga aceitação como as da consolidação das nossas instituições e, principalmente, na sua opção pelos temas ambientais, hoje quase consensuais. Contudo, o cenário, na aparência inofensivo, mal esconde as ameaças que nos rondam. Estropiado como está, depois do insucesso da trama golpista de 8 de janeiro, o bolsonarismo ainda é um movimento político com forte representação no poder legislativo e conseguiu atrair segmentos da população curtidos pelo ressentimento, homens e mulheres, boa parte de meia idade, que encontraram nele um sentido para suas vidas obscuras e solitárias e deve persistir como força eleitoral, ao menos a curto prazo.

Seu movimento não se expressou na forma partido, provavelmente porque Bolsonaro, formado na cultura política do AI-5, dominante nos desvãos da caserna dos anos 1970, sempre se orientou tendo em vista um golpe militar, refratário à política e aos movimentos de massa, apenas mobilizados para fins de agitação e de valorização do seu papel de condottieri. O resultado desastrado da intentona do infausto dia 8, segundo recente declaração sua, parece que lhe abriu os olhos para a política. Daí para a forma partido falta um passo.

Seu voto para o Congresso Nacional vale ouro, por Marcus Pestana

A organização do sistema democrático tem diversas configurações: monarquia constitucional, república presidencialista ou parlamentarista. A redemocratização brasileira, pós-1985, foi institucionalizada através da Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1986. O texto constitucional, que é o marco fundador da Nova República, promulgado em 1988, tem claro viés parlamentarista. No entanto, previa um plebiscito a ser realizado em 1993, para a escolha da forma e do sistema de governo. O regime republicano derrotou a monarquia e o presidencialismo venceu o parlamentarismo por larga margem de votos. Sempre tivemos no Brasil presidentes da República fortes e a cultura popular pende mais para líderes carismáticos do que para programas partidários.

Risco sistêmico vs. Fraude, Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O elo entre dinheiro e ganância sustenta a relação especulação e alavancagem e a fraude é só uma extensão

Os escribas deste artigo tiveram a oportunidade de conhecer e entrevistar Karl Marx, colunista do New York Daily Tribune. Marx denunciou o escândalo financeiro que abalou os súditos de sua majestade britânica em 1856.

O Banco Master? Não, o Royal ­British Bank.

Aqui vamos transcrever partes da conversa com o colunista Karl Marx:

Carnaval e eleições, por Cláudio Couto

CartaCapital

De forma simpática ou crítica, políticos costumam ser retratados em sambas-enredo. A celeuma em torno da escolha da Acadêmicos de Niterói parece muito barulho por nada, causado por boas doses de moralismo

A semana de carnaval e aquelas que a antecedem costumam ser marcadas pela evidência de celebridades e subcelebridades na preparação e, depois, na efetiva participação em desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. Destaques, rainhas de bateria e homenageados são retratados na cobertura da mídia. Alguns, por sinal, já são figurinhas carimbadas do evento momesco, pois, ano sim, ano também, se preparam diligentemente para a festa, tendo nela oportunidade para se manter visíveis e faturar durante o resto do ano. São festeiros profissionais.

Udenismo na avenida, Sergio Lirio

CartaCapital

Na passarela, o surrado enredo “é preciso mudar tudo que está aí”

No carnaval, segundo a máxima, “quem sobe, desce”. Tradução: escolas recém-promovidas são candidatíssimas a voltar ao lugar de onde vieram. A Acadêmicos de Niterói não fugiu à sina, dirão os experts. Mas o histórico dos desfiles cariocas não explica tudo. O rebaixamento era uma barbada. A nota oficial divulgada após o desfile na Marquês de Sapucaí, na qual a escola de samba pedia uma análise estritamente técnica do seu desempenho no percurso até a Praça da Apoteose, revelava o temor, talvez a certeza, do destino anunciado. É difícil afirmar até que ponto o “medo venceu o amor” na decisão dos jurados. O tribunal das redes sociais havia dado seu veredicto antes mesmo de a escola atravessar a Sapucaí na noite do ­domingo 15. O bloco do udenismo estava na rua e a marchinha da “indignação seletiva” contagiava os cidadãos de bem, que saltaram das suas latas em conserva para protestar contra a “campanha eleitoral antecipada” em favor do presidente Lula, embora o petista tenha sido tema de enredo no passado sem que a homenagem revirasse as entranhas dos foliões da moralidade. A Acadêmicos ficou na lanterna, mas conquistou os holofotes no sambódromo, no Brasil e no exterior. Um feito.

Lula e os riscos do carnaval, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Vítima de uma vaidade juvenil, Lula contribuiu para um fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas imensos efeitos colaterais em termos de mobilização da oposição e aprofundamento da antipatia de um público que precisa conquistar

É difícil encontrar boas razões para o apoio de Lula ao desfile em sua homenagem promovido pela escola de samba Acadêmicos de Niterói. Vítima de uma vaidade juvenil, o presidente contribuiu para um fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas com imensos efeitos colaterais em termos de mobilização da oposição, produção de ruído político e aprofundamento da antipatia de um público que Lula precisa conquistar.

Mergulhando em incertezas na avenida, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão

“Não vou deixar eles me vencerem de jeito nenhum!”. A fala de Lula, pronunciada, na intimidade, entre correligionários, transpirou, e foi parar em praça pública. Desqualificando o próprio partido, repercutiu como uma ameaça, desenterrando fantasmas que ele mesmo criou.  

Fez lembrar a provocação evasiva da sua lavra do “NÓS E ELES”, que alçava a concorrente na disputa eleitoral ao cargo de Presidente da República, em 2022, a figura de um militar da reserva, deputado federal falastrão, mas com vários mandatos. No Congresso, era considerado “Baixo Clero”.

Naná Vasconcelos, por Ivan Alves Filho

O tempo das lembranças, sempre elas...Com o músico Naná Vasconcelos, aprendi muito sobre a música brasileira e internacional. Percussionista extraordinário, pernambucano, Naná tinha um nome barroco: Juvenal de Holanda Vasconcelos. E era de uma simplicidade a toda prova.