segunda-feira, 2 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim

Por O Globo

Líder de um dos regimes mais cruéis do planeta está morto, porém fatos ainda poderão frustrar as ambições de Trump

Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.

PT aguarda alianças com partidos para anunciar palanques

Por Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

O Supremo risco de os heróis virarem vilões, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Supersalários, contrato com escritório de familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de cultura para revolta

Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.

Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.

O aumento de novas fontes de renda e o consumo, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Em comparação a 2019, há 21,6 milhões fontes adicionais de rendimento na economia, o que tem dado fôlego à demanda das famílias

O consumo das famílias tem um papel de destaque no crescimento da economia brasileira nos últimos anos, especialmente no período entre 2021 e 2024. Nesses quatro anos, avançou a uma média anual de 3,85%, acima dos 3,6% da média do PIB. Novas fontes de renda ajudam a explicar esse desempenho do consumo privado, cujo ritmo arrefeceu em 2025 e pode ter alguma reaceleração em 2026, mas sem voltar ao ritmo de 2021 a 2024, dado o nível elevado dos juros e do endividamento das famílias, que tem provocado o aumento da inadimplência. Nesse cenário, a demanda das famílias deve passar de um crescimento na casa de 1,5% no ano passado para 2% neste ano.

O município é o protagonista, por Preto Zezé

O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

Países ricos podem trabalhar menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias

A jornada de trabalho tem caído ao longo da história mundial. Isso decorre de uma combinação de três fatores: o enriquecimento das sociedades, a introdução de tecnologias que aumentam a produtividade e a democracia. Já voltaremos à última questão, mas podemos adiantar um fato observado por toda parte: os trabalhadores têm jornadas maiores nas ditaduras.

Na Europa da social-democracia, trabalha-se em média 30 horas semanais. São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias. Em ambiente democrático, sindicatos, partidos e organizações civis tomaram a decisão de trabalhar menos para já desfrutar a riqueza acumulada. Dito de outro modo, essas sociedades consideram que seu atual nível de consumo já é suficiente para uma boa vida, de modo que se pode desacelerar a produção. Mas todas elas trabalharam duro, com longas jornadas. Não existe almoço grátis.

Segredo judicial, uso e abuso, por Demétrio Magnoli

O Globo

A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem

Nos sistemas democráticos, a sociedade deposita confiança extrema nas autoridades encarregadas de gerenciar a Justiça. A prova encontra-se no instituto do segredo judicial. Aceitamos que elas detenham informações temporariamente vedadas a nós — concordamos com uma radical assimetria de poder. A implicação: vandalizar o privilégio do monopólio da informação é uma traição maior de confiança. O STF envereda por esse caminho, sob a alegação paradoxal de que vivemos em excepcionalidade permanente.

Quem pode investigar quem? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A intervenção do Supremo em CPI desafia os contornos práticos da separação de poderes

Quando a interferência do Supremo Tribunal Federal na política é indevida? A pergunta não é retórica. Ela ganha concretude quando o Judiciário intervém no funcionamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – instrumento clássico de controle político exercido por minorias parlamentares.

Uma CPI é, muitas vezes, o que resta a uma minoria legislativa para fiscalizar governos, expor condutas potencialmente ilícitas e produzir informação qualificada. Em democracias ancoradas no princípio da separação de poderes, trata-se de mecanismo legítimo de controle.

Paradoxalmente, porém, raramente uma CPI consegue impor perdas políticas reais a governos. A maioria parlamentar tende a esvaziar investigações inconvenientes. Por isso mesmo, a Constituição protege o direito de minorias instaurarem CPIs desde que preenchidos requisitos formais.

Uma vez instalada, a comissão não é estática. Ao longo das investigações, fatos novos surgem, conexões inesperadas aparecem e o escopo original pode ser ajustado. A dinâmica investigativa não é linear. CPIs não são peças processuais imutáveis; são arenas políticas de produção de informação.

Federação da Esquerda para disputar o futuro, por vários autores (nomes ao final do texto)

Folha de S. Paulo

Com o avanço do bolsonarismo, não existe espaço para gastar nossas energias em disputas internas menores

É claro que também traz dificuldades, que podem ser enfrentadas com um debate aberto sobre organização interna

Há momentos de encruzilhada na história que exigem decisão. Estamos vivendo um deles. A extrema direita avança no mundo e, mesmo com Jair Bolsonaro preso, segue com força política e social no Brasil.

Os Estados Unidos, com a reedição da Doutrina Monroe por Donald Trump, comandam um movimento aberto de recolonização na América Latina, buscando tomar nossas riquezas naturais e destruir nossa soberania.

Isso exige da esquerda brasileira grandeza política e responsabilidade para colocar diferenças em segundo plano e construir um amplo movimento de unidade. Não apenas na disputa eleitoral de 2026, mas na disputa da sociedade e de um projeto de futuro.

A reação institucional a Trump finalmente mostra sua face, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Estripulias autoritárias geraram dissenso em sua base legislativa e na sociedade civil pujante

O Legislativo vetou a política do ICE, cortando seu orçamento, o que implicaria em sua virtual paralisia

A velocidade dos desvios do governo Trump em relação às normas legais e constitucionais durante seu segundo mandato tem sido dramática. John Burn-Murdoch, com base em um índice agregado de retrocesso democrático, trouxe evidências de que, em seus primeiros anos no cargo, ela foi muito maior do que a de outros líderes populistas (veja aqui os fatores que explicam essa característica do decisionismo trumpista).

Partiu Marcello Cerqueira, um sonhador, por Edmílson Martins de Oliveira*

Marcello Cerqueira partiu. Foi ver outras paisagens e encontrar velhos amigos de sonhos e de lutas. Está, certamente, no lugar com que sempre sonhou: um mundo de liberdade, paz e harmonia, fraterno, sem tirania, sem perversidade, sem ganância, onde só há eternidades.

Partiu ontem, sábado, 28 de fevereiro de 2026, e está, com euforia, participando da grande festa, organizada em sua homenagem, por muitos amigos e companheiros de luta, que já estão no país de eternidades.

Marcello viveu intensamente a vida aqui neste planeta. Lutou, com todas as suas forças, por um Brasil mais justo, por um mundo melhor, com igualdade e condições de vida justas para todos. Foi um sonhador e não estava sozinho.

Eu e o Marcelo conhecemo-nos e nos tornamos amigos desde 1978. Naquela ocasião, eu era candidato a deputado estadual e Marcello a deputado federal pelo então MDB.

Havia somente dois partidos: ARENA, que apoiava o governo da ditadura militar, e o MDB, de oposição. Nós militávamos no grupo chamado de “Autênticos do MDB”, que fazia a verdadeira oposição ao regime.