sábado, 16 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Denúncias da PF contra Castro são consistentes

Por O Globo

Defesa nega irregularidades, mas é essencial esclarecer até que ponto ele se envolveu com grupo de Magro

São graves as acusações contra o ex-governador fluminense Cláudio Castro trazidas à tona pela Operação Sem Refino, que investiga fraudes no setor de combustíveis. De acordo com a Polícia Federal (PF), Castro atuou de forma decisiva para blindar e favorecer interesses do grupo Refit, do empresário Ricardo Magro. A PF diz ainda que ele promoveu trocas estratégicas no alto escalão, sancionou leis sob medida e incentivou órgãos estaduais a trabalhar em benefício do grupo de Magro, dono da Refinaria de Manguinhos. “O Rio direcionou todos os esforços de sua máquina pública num engajamento multiorgânico em prol do conglomerado de Ricardo Magro”, afirma relatório da PF. A secretaria estadual de Fazenda, prossegue o texto, “virou extensão da estrutura empresarial do grupo Refit”. A operação representa mais um revés para Castro, menos de dois meses depois de ele renunciar ao cargo e ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A gargalhada de Flávio eleva a mentira a um novo patamar de cinismo, por Thaís Oyama

O Globo

A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade

A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.

— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.

Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.

— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.

Campanha à espreita, por Flávia Oliveira

O Globo

Levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master

É certo que o furacão que varreu figuras da direita brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História. Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.

O crepúsculo dos prefixos, por Eduardo Affonso

O Globo

Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita

Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.

Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem ultratireoidismo).

Sem meia conversa entre Flávio e Vorcaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu como relator do caso no STF.

Um mundo sem roteiro, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Se antes as empresas eram premiadas pela eficiência, agora elas são homenageadas pela resiliência

Nas últimas décadas, as empresas aprenderam a tomar decisões em um mundo muito competitivo, mas com um script relativamente previsível. Tínhamos globalização crescente, capital barato, cadeias eficientes, tecnologia avançando, porém de forma incremental.

O problema do mundo atual não é apenas o risco, mas agora é preciso decidir em um mundo imprevisível – acima do que poderíamos admitir como normalidade. E o custo da incerteza não aparece no balanço como despesa operacional. Mas está em toda parte: investimentos adiados, contratações suspensas, caixa parado e decisões que nunca saem do PowerPoint.

China, EUA e Brasil, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump e Xi Jinping conversam em Pequim. O dólar nunca esteve tão baixo. O ouro conseguiu extraordinária valorização nos mercados globais. E as consequências são percebidas no interior da Amazônia, com o garimpo ilegal

Donald Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, e os brasileiros tentam antecipar o que será combinado entre os dois grandes da economia mundial. Juntos, eles significam 40% do comércio internacional. Desde Barack Obama, o governo dos Estados Unidos age no sentido de conter o veloz desenvolvimento econômico dos chineses. Na era Trump, os norte-americanos aumentaram muito suas tarifas específicas para produtos daquele país. Pequim respondeu na mesma medida. Também elevou tarifas. 

As fragilidades de Flávio Bolsonaro, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Flávio é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de Michelle

A divulgação do áudio com a voz do pré-candidato Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi o fato político mais importante da semana, não só pelo conteúdo das mensagens em si, mas pelos desdobramentos após a notícia ser veiculada. As manifestações constrangidas ou forçosamente indignadas dos aliados são reveladoras de um aspecto evidente da candidatura: sua fragilidade.

O resgate da confiança, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Em matéria judicial, não apenas as ações, mas também as aparências importam

Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão

A autoridade do Poder Judiciário, em uma democracia constitucional, depende da confiança dos cidadãos. Sem a percepção de imparcialidade, independência e integridade dos tribunais, até decisões juridicamente corretas passam a ser vistas como expressões de interesses políticos ou influências privadas. Quando isso ocorre, a própria estabilidade democrática se fragiliza.

Esse entendimento levou democracias contemporâneas a tratar a ética judicial como questão estrutural. Os Princípios de Bangalore, organizados em 2001 sob os auspícios das Nações Unidas, consolidaram a ideia de que a legitimidade do Judiciário depende não apenas da integridade efetiva dos magistrados, mas também da confiança social em sua conduta. Em matéria judicial, portanto, não apenas as ações, mas também as aparências importam.

A relação íntima entre os Bolsonaros e Vorcaro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 e empresário trambiqueiro tinham um pacto: 'Estarei contigo sempre'

03 pode ter usado dinheiro sujo do Master para tramar contra o Brasil nos EUA

No fim de abril, com as duas derrotas impostas a Lula no Congresso em menos de 24 horas —rejeição de Jorge Messias ao STF e derrubada do veto ao projeto de lei da dosimetria—, Flávio Bolsonaro subiu nas tamancas. "O governo acabou", disse.

O otimismo não era um reflexo das pesquisas —que apontavam o bolsonarista e o petista tecnicamente empatados no segundo turno—, mas sim de um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, carregando a certeza de que os fisiológicos do centrão iriam abraçar a candidatura do filho 01. Logo depois, num discurso a empresários de Santa Catarina, Flávio garantiu que ficaria no poder no mínimo por dois mandatos e que, com sua ascensão, a esquerda seria insignificante durante 40 anos.

A partidarização da bactéria, por Cláudio Couto

CartaCapital

Na visão dos bolsonaristas, a Pseudomonas aeruginosa é um micro-organismo de esquerda

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.

Mr. Magoo e os economistas, Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Ortodoxos ou heterodoxos, os arautos da economia de manual se recusam a enxergar a realidade

Mr. Magoo, personagem de desenho animado nos bons tempos da televisão. Um velhinho bem de vida, teimoso e com deficiência visual, se recusava a usar óculos. Sua péssima visão, causada pela miopia, o colocava sempre em situações perigosas e engraçadas. Onde sempre escapava ileso. Nossos ­Magoos da macroeconomia de manual também se recusam a usar óculos. Sua deficiência não é visual, é uma miopia em relação à realidade e às relações econômicas. A deficiência visual é democrática, essa miopia se estende aos ortodoxos e heterodoxos. Ambos têm seus campos de visão estreitos e dividem a economia, enxergando-a em blocos. O sistema financeiro e o rentismo são vistos como anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional.

A indefinição ainda predomina, por Murillo de Aragão

Veja

O acaso vai continuar no comando do processo eleitoral

A expectativa sobre o resultado das eleições é uma constante no mundo econômico. Em sucessivos eventos promovidos em torno da premiação do Person of the Year, em Nova York, o tema era as pesquisas eleitorais e as tendências. Todos queriam saber para onde o Brasil irá com o novo presidente. O recente desempenho de Lula surpreendeu alguns em Wall Street, mas não todos. Outros se mostravam decepcionados com as últimas notícias. De fato, nos últimos tempos, parte expressiva dos analistas de mercado começou a considerar a eleição presidencial praticamente decidida em favor de Flávio Bolsonaro. Essa leitura, contudo, padece de um vício recorrente: tenta projetar de forma linear um processo que, por natureza, é descontínuo, contingente e sensível a circunstâncias. Enfim, a campanha ainda está em seu estágio inicial. As eleições serão submetidas aos fatos novos. O vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme que conta a história de Jair Bolsonaro, por exemplo, já repercute nas preferências eleitorais e prova a letalidade de certas novidades para os candidatos. O que se observa agora é um instantâneo, construído a partir de pesquisas preliminares, movimentos incipientes de aliança e, sobretudo, expectativas. Ainda não é um filme.

Brasil 2070: que legado queremos deixar? Por Marcus Pestana

O Brasil, de 1980 a 2025, prisioneiro da armadilha de renda média, viu o PIB per capita global ultrapassar o PIB per capita brasileiro. Em 1980, a riqueza brasileira gerada por nossa economia em um ano, dividida pela população, era de US$ 4.427. Em 2025, foi de US$ 23. 381. Ou seja, teve um crescimento de apenas 428%. Enquanto isso, o PIB per capita global foi de US$ 3.380 para US$ 26.189. Um incremento de 675%. No mesmo período os países que já eram ricos tiveram um crescimento de 625% e os países emergentes avançaram 1.128%.

Mannheim e a questão dos intelectuais, por Ivan Alves Filho*

Prefácio de Ivan Alves Filho para a obra Mannheim e a questão dos intelectuais, de André Malina, Rio de Janeiro, Autografia Editora, 2026. 

Uma questão sempre me acompanhou e ela tem que ver com a influência das ideias marxistas na construção da cultura contemporânea. Pensadores, estrategistas políticos, artistas plásticos, escritores, cineastas, pesquisadores das ciências – foram muitos os homens da intelligentsia atraídos pelas propostas que Karl Marx e Friedrich Engels começaram a esboçar no célebre Manifesto do Partido Comunista, de 1848. E que, posteriormente, Marx aprimoraria, no tocante à sua concepção do desenvolvimento das ideias, no seu livro Teses sobre Feuerbach, quando estabelece os vínculos entre teoria e prática – a práxis, justamente.