segunda-feira, 8 de junho de 2026

Nota sobre relações de força, por Antonio Gramsci *

As notas escritas a propósito do estudo das situações e do que se deve entender por “relações de força”.  O estudo sobre como se devem analisar as “situações”, isto é, sobre como se devem estabelecer os diversos níveis de relação de forças, pode servir para uma exposição elementar de ciência e arte política, entendida como um conjunto de regras práticas de pesquisa e de observações particulares úteis para despertar o interesse pela realidade efetiva e suscitar intuições políticas mais rigorosas e vigorosas.  Ao mesmo tempo, é preciso expor o que se deve entender em política por estratégia e tática, por “plano” estratégico, por propaganda e agitação, por “orgânica” ou ciência da organização e da administração em política.  Os elementos de observação empírica que habitualmente são apresentados de modo desordenado nos tratados de ciência política (pode-se tomar como exemplar a obra de G. Mosca: Elementi di scienza politica) deveriam, na medida em que não são questões abstratas ou sem fundamento, ser situados nos vários níveis da relação de forças, a começar pela relação das forças internacionais (onde se localizariam as notas escritas sobre o que é uma grande potência, sobre os agrupamentos de Estados em sistemas hegemônicos e, por conseguinte, sobre o conceito de independência e soberania no que se refere às pequenas e médias potências), passando em seguida às relações objetivas sociais, ou seja, ao grau de desenvolvimento das forças produtivas, às relações de força política e de partido (sistemas hegemônicos no interior do Estado) e às relações políticas imediatas (ou seja, potencialmente militares).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fundo eleitoral e emendas distorcem a competição política

Por Folha de S. Paulo

Partidos, que receberão R$ 4,9 bi em dinheiro do contribuinte, deveriam buscar na sociedade seu sustento

Volta de doações de empresas seria um primeiro passo; parlamentares decidem cada vez mais o destino dos impostos, mas de forma degradada

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou a divisão de recursos do fundo eleitoral entre os partidos políticos. Como já era sabido, vultosos R$ 4,9 bilhões foram destinados no Orçamento para financiar campanhas neste ano.

Agremiações com desempenho eleitoral melhor na disputa mais recente por vagas no Congresso Nacional levam as maiores fatias desse Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O PL, de Jair Bolsonaro, ficou com a maior parcela, R$ 881,6 milhões, seguido pelo PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 615,3 milhões.

Entrevista: Lula vai ter mais de um palanque em vários estados para aproximar o centro, diz Wellington Dias

Por Victoria Azevedo – O Globo

Futuro integrante da coordenação da campanha, ministro do Desenvolvimento Social diz que erro do primeiro mandato foi não consolidar maioria no Congresso e prevê aproximação de partidos a partir de alianças aos governos locais

— BRASÍLIA - O ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) afirma que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser acompanhada por uma articulação voltada ao centro político. Em entrevista ao GLOBO, o ministro avalia que o principal erro do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples na Câmara e no Senado, diz que faltou cuidado e atenção na relação com os aliados, e defende a construção de palanques estaduais capazes de assegurar governabilidade em um eventual novo mandato.

Dias atuará na coordenação de campanha da reeleição ao petista, com foco na região Nordeste. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, o ministro afirma que é preciso retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defende a prerrogativa de Lula em reenviar o nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e diz que a atuação de Flávio Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump que resultou na classificação do PCC e do CV como organizações terroristas é para “abafar o escândalo do Master”.

Os temas que vão decidir a eleição deste ano, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Com situação fiscal comprometida, debate entre Lula e Flávio Bolsonaro passa mais por questões regulatórias do que políticas públicas tradicionais

Lula e Jair Bolsonaro mediram forças dois anos após a deflagração da pandemia. E apesar de ter ceifado a vida de mais de 700 mil brasileiros, a covid não foi o tema principal da eleição mais disputada da história.

Nos debates e na propaganda eleitoral de 2022, Lula se concentrou mais na defesa da democracia e na garantia de que manteria o Bolsa Família em R$ 600 e que retomaria os reajustes reais do salário-mínimo. Uma vez eleito, iniciou seu terceiro mandato com o slogan “União e Reconstrução”. Em agosto do ano passado, porém, sentindo a recuperação da popularidade após o tarifaço e a abertura de investigação contra o Brasil por Trump, os marqueteiros de Lula trocaram o mote para “Do lado do povo brasileiro”.

Qual é o tamanho do ativismo fiscal do governo em 2026? Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Impacto das medidas expansionistas neste ano deve ser de R$ 215 bilhões, enquanto as iniciativas que elevam a receita totalizam R$ 109 bilhões, estima Marcos Mendes

O governo intensificou o uso de medidas de expansionismo fiscal desde meados do ano passado, com impactos que superam R$ 200 bilhões neste ano. Há iniciativas de caráter financeiro, extraorçamentário e mesmo primário que não impactam o teto de gastos do arcabouço, mas todas afetam a dívida pública, já em trajetória de alta forte, superando 80% do PIB no caso do endividamento bruto. Ao mesmo tempo, há uma busca por aumento de receitas, em vários casos por meio de tributos regulatórios que prejudicam a produtividade da economia, aponta o economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, responsável por essas avaliações e estimativas, em nota para a XP Investimentos.

O Brasil da renda média, para menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Parece que os problemas de fundo só aparecem nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média, para menos

Não sei se prestaram atenção, mas o ambiente econômico piorou nas últimas semanas. Há muitas causas para isso, mas a mais importante é a percepção de que a inflação está de novo em alta. E, se é assim, a taxa básica de juros não pode mais cair. Ou, como dizem os economistas, reduziu-se o espaço para o Banco Central cortar a Selic, atualmente no nível, elevado, de 14,5% ao ano.

A guerra no Oriente Médio é parte do problema. Petróleo mais caro, e bem mais caro, causa inflação no mundo todo, mas pegou a economia brasileira no contrapé. O ambiente parecia bem positivo: inflação em queda, crescimento do PIB, rendimentos do trabalho em alta, desemprego em baixa recorde, dólar comportado. Com o Banco Central cortando a taxa de juros, então, era um resultado dos sonhos. Desinflação com expansão econômica.

.A nobreza dos novos imaginários, por Preto Zezé

O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Coalizões da impunidade nem sempre vencem, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O desejo de retaliar a Justiça pode estar presente. A capacidade de fazê-lo, não

O que acontece quando líderes políticos poderosos são condenados? A resposta mais intuitiva é que a condenação fortalece a democracia. Afinal, ela sugere que ninguém está acima da lei e aumenta os custos de futuros desvios.

Mas em um artigo ainda preliminar e provocativo, os cientistas políticos Luciano Da Ros e Manoel Gehrke chamam atenção para a reação dos próprios políticos. Os autores mostram de forma comparada que condenações de ex-chefes de governo (entre 1946 e 2025) frequentemente são seguidas por reformas que reduzem a independência e os poderes do Judiciário. A lógica é simples. Quando um líder poderoso é condenado, a mensagem enviada aos demais políticos é que eles podem ser os próximos. Em vez de aceitarem passivamente esse novo risco, passam a apoiar mudanças institucionais capazes de limitar o Sistema de Justiça.

Corrupção, segurança e eleições, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Temas negativos na agenda pública alimentam sentimento de mudança e penalizam incumbentes

Embora corrupção não seja critério definidor para maioria do eleitorado, ela faz parte do processo da psicologia do voto

corrupção voltou a ocupar lugar de destaque na agenda pública, e não poderia ser diferente. Dois megaescândalos vieram à tona recentemente: INSS Master. Seus desdobramentos ainda estão em curso, mas irão marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos associados a emendas orçamentárias reverberam a questão. Haverá intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante: ela alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.

Tecido esgarçado, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ainda há setores que resistem à ideia de reparação aos descendentes dos escravizados

Racismo opera para impedir ou dificultar a ascensão de pessoas pretas e pardas

Comparo as relações étnico-raciais no Brasil a um tecido esgarçado, surrado pelo atrito e prestes a se romper pelo desgaste contínuo causado pela violação ou negação sistemática de direitos à população negra.

Sei bem que este é um país racista (machista, misógino e homofóbico também). Essa consciência me impede de nutrir a pretensão de contar com a concordância "de geral" em relação ao que penso e escrevo.

Nasce um otário por segundo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores

Quem serão esses milhões que seguem Camila Pudim, Pamela Fuego e Leuriscleia?

Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?

Um Homem de Muitos Séculos[1] por Elimar Nascimento *

Revista Será?  Nº 712, 05/06/2026

Edgar est mort: foi assim que nos chegou a notícia do falecimento do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, às vésperas de completar 105 anos, por sua filha Véronique. Era uma tarde de sexta-feira (29). Estávamos em um carro na Asa Norte (Brasília) retornando para casa, e um silêncio pesado se abateu sobre nós. Há algumas semanas ele lutava contra uma septicemia em Paris. Marianne Cohen, sua sobrinha, que estava conosco, o tinha visitado na terça-feira (26), antes de viajar ao Brasil. Sabíamos, portanto, dos riscos que sofria, mas tínhamos a esperança de que aquele que venceu o nazismo, o estalinismo e a perseguição por seu pensamento fora da curva resistiria ainda e mais uma vez.

O fracasso do socialismo autoritário, por Antonio Fausto do Nascimento*

Abertura dos arquivos da extinta URSS possibilitou o conhecimento público da escravidão dos gulags e dos crimes em larga escala, praticados em setenta anos de poder soviético.

Avultam pesquisas históricas e acadêmicas. Orlando Figes, da Universidade inglesa de Cambridge, foi um dos melhores pesquisadores com A TRAGEDIA DE UM POVO, livro que levou mais de seis anos para ser escrito (1).

Durante os últimos decênios do czarismo, milhões de camponeses foram afastados das áreas rurais. A população urbana quadruplicou. Não havia legislação trabalhista e previdenciária. As conquistas dos trabalhadores britânicos e alemães permaneciam fora do alcance do operariado russo, na virada do século XIX. As fabricas estavam lotadas de maquinas obsoletas e perigosas, os acidentes do trabalho eram frequentes.

A partir de 1905, acentuado aumento das greves e protestos e primeira greve geral. Entre 1906/1909, mais de cinco mil presos políticos foram executados e outros milhares, condenados a prisão e trabalhos forçados.