segunda-feira, 8 de junho de 2026

Coalizões da impunidade nem sempre vencem, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O desejo de retaliar a Justiça pode estar presente. A capacidade de fazê-lo, não

O que acontece quando líderes políticos poderosos são condenados? A resposta mais intuitiva é que a condenação fortalece a democracia. Afinal, ela sugere que ninguém está acima da lei e aumenta os custos de futuros desvios.

Mas em um artigo ainda preliminar e provocativo, os cientistas políticos Luciano Da Ros e Manoel Gehrke chamam atenção para a reação dos próprios políticos. Os autores mostram de forma comparada que condenações de ex-chefes de governo (entre 1946 e 2025) frequentemente são seguidas por reformas que reduzem a independência e os poderes do Judiciário. A lógica é simples. Quando um líder poderoso é condenado, a mensagem enviada aos demais políticos é que eles podem ser os próximos. Em vez de aceitarem passivamente esse novo risco, passam a apoiar mudanças institucionais capazes de limitar o Sistema de Justiça.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fundo eleitoral e emendas distorcem a competição política

Por Folha de S. Paulo

Partidos, que receberão R$ 4,9 bi em dinheiro do contribuinte, deveriam buscar na sociedade seu sustento

Volta de doações de empresas seria um primeiro passo; parlamentares decidem cada vez mais o destino dos impostos, mas de forma degradada

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou a divisão de recursos do fundo eleitoral entre os partidos políticos. Como já era sabido, vultosos R$ 4,9 bilhões foram destinados no Orçamento para financiar campanhas neste ano.

Agremiações com desempenho eleitoral melhor na disputa mais recente por vagas no Congresso Nacional levam as maiores fatias desse Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O PL, de Jair Bolsonaro, ficou com a maior parcela, R$ 881,6 milhões, seguido pelo PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 615,3 milhões.

Corrupção, segurança e eleições, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Temas negativos na agenda pública alimentam sentimento de mudança e penalizam incumbentes

Embora corrupção não seja critério definidor para maioria do eleitorado, ela faz parte do processo da psicologia do voto

corrupção voltou a ocupar lugar de destaque na agenda pública, e não poderia ser diferente. Dois megaescândalos vieram à tona recentemente: INSS Master. Seus desdobramentos ainda estão em curso, mas irão marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos associados a emendas orçamentárias reverberam a questão. Haverá intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante: ela alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.

Tecido esgarçado, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ainda há setores que resistem à ideia de reparação aos descendentes dos escravizados

Racismo opera para impedir ou dificultar a ascensão de pessoas pretas e pardas

Comparo as relações étnico-raciais no Brasil a um tecido esgarçado, surrado pelo atrito e prestes a se romper pelo desgaste contínuo causado pela violação ou negação sistemática de direitos à população negra.

Sei bem que este é um país racista (machista, misógino e homofóbico também). Essa consciência me impede de nutrir a pretensão de contar com a concordância "de geral" em relação ao que penso e escrevo.

Nasce um otário por segundo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores

Quem serão esses milhões que seguem Camila Pudim, Pamela Fuego e Leuriscleia?

Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?

Um Homem de Muitos Séculos[1] por Elimar Nascimento *

Revista Será?  Nº 712, 05/06/2026

Edgar est mort: foi assim que nos chegou a notícia do falecimento do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, às vésperas de completar 105 anos, por sua filha Véronique. Era uma tarde de sexta-feira (29). Estávamos em um carro na Asa Norte (Brasília) retornando para casa, e um silêncio pesado se abateu sobre nós. Há algumas semanas ele lutava contra uma septicemia em Paris. Marianne Cohen, sua sobrinha, que estava conosco, o tinha visitado na terça-feira (26), antes de viajar ao Brasil. Sabíamos, portanto, dos riscos que sofria, mas tínhamos a esperança de que aquele que venceu o nazismo, o estalinismo e a perseguição por seu pensamento fora da curva resistiria ainda e mais uma vez.

O fracasso do socialismo autoritário, por Antonio Fausto do Nascimento*

Abertura dos arquivos da extinta URSS possibilitou o conhecimento público da escravidão dos gulags e dos crimes em larga escala, praticados em setenta anos de poder soviético.

Avultam pesquisas históricas e acadêmicas. Orlando Figes, da Universidade inglesa de Cambridge, foi um dos melhores pesquisadores com A TRAGEDIA DE UM POVO, livro que levou mais de seis anos para ser escrito (1).

Durante os últimos decênios do czarismo, milhões de camponeses foram afastados das áreas rurais. A população urbana quadruplicou. Não havia legislação trabalhista e previdenciária. As conquistas dos trabalhadores britânicos e alemães permaneciam fora do alcance do operariado russo, na virada do século XIX. As fabricas estavam lotadas de maquinas obsoletas e perigosas, os acidentes do trabalho eram frequentes.

A partir de 1905, acentuado aumento das greves e protestos e primeira greve geral. Entre 1906/1909, mais de cinco mil presos políticos foram executados e outros milhares, condenados a prisão e trabalhos forçados.

Nota sobre relações de força, por Antonio Gramsci *

As notas escritas a propósito do estudo das situações e do que se deve entender por “relações de força”.  O estudo sobre como se devem analisar as “situações”, isto é, sobre como se devem estabelecer os diversos níveis de relação de forças, pode servir para uma exposição elementar de ciência e arte política, entendida como um conjunto de regras práticas de pesquisa e de observações particulares úteis para despertar o interesse pela realidade efetiva e suscitar intuições políticas mais rigorosas e vigorosas.  Ao mesmo tempo, é preciso expor o que se deve entender em política por estratégia e tática, por “plano” estratégico, por propaganda e agitação, por “orgânica” ou ciência da organização e da administração em política.  Os elementos de observação empírica que habitualmente são apresentados de modo desordenado nos tratados de ciência política (pode-se tomar como exemplar a obra de G. Mosca: Elementi di scienza politica) deveriam, na medida em que não são questões abstratas ou sem fundamento, ser situados nos vários níveis da relação de forças, a começar pela relação das forças internacionais (onde se localizariam as notas escritas sobre o que é uma grande potência, sobre os agrupamentos de Estados em sistemas hegemônicos e, por conseguinte, sobre o conceito de independência e soberania no que se refere às pequenas e médias potências), passando em seguida às relações objetivas sociais, ou seja, ao grau de desenvolvimento das forças produtivas, às relações de força política e de partido (sistemas hegemônicos no interior do Estado) e às relações políticas imediatas (ou seja, potencialmente militares).

Poesia | HINO NACIONA, de Carlos Drummond de Andrade | por Bruna Kalil Othero

 

Música | Nara Leão - Camisa Amarela (Ary Barroso)