quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela

Por O Globo

Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão

Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.

Os três signos da eleição 2026, por Vera Magalhães

O Globo

Disputa de 2026 encerra um ciclo de polarização, e uso massivo da IA e interferência dos EUA na disputa tornam incerta reação do eleitor e resposta das instituições

Há alguns paralelos possíveis entre a eleição de 2026 e as que a antecederam, mas pelo menos três fatores conferem a ela um grau de ineditismo e devem ditar a tônica da disputa.

O primeiro é histórico: trata-se, qualquer que venha a ser o resultado das urnas, do encerramento do ciclo de polarização entre bolsonarismo e lulopetismo inaugurado em 2018. A escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, para lhe suceder deu sobrevida a esse antagonismo, que chega a sua terceira versão. Na inauguração dessa era, foi Jair contra o “candidato do Lula”. Quatro anos depois, houve o acirrado confronto direto entre os dois líderes personalistas. E, agora, Lula tenta o quarto mandato enfrentando o herdeiro do clã adversário.

Não haverá em 2030 reedição dessa contraposição que tem impedido, à esquerda, à direita e ao centro, o surgimento de uma nova força política. Desde 2018, qualquer um que se apresente como alternativa a essa escolha maniqueísta tem recebido do eleitor o tratamento de “nanico”, e as pesquisas, até aqui, não permitem dizer que seja diferente neste ano.

Três tons de direita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao atacar candidato do PL, Caiado pregou coragem que parece faltar a Zema

Os presidenciáveis da direita botaram o bloco na rua. Flávio Bolsonaro puxou o cordão no último sábado. Foi seguido por Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O Zero Um chegou à convenção do PL sob pressão. Precisava mostrar que a candidatura continua de pé, apesar do abalo com o caso Master e da crise com a madrasta.

O ato foi marcado por ausências ilustres. Michelle enviou vídeo, mas não compareceu. Jair ficou na prisão domiciliar, e Carlos preferiu visitar Eduardo nos Estados Unidos.

Com o clã desfalcado, Flávio teve que se contentar com o irmão caçula. Foi acompanhado por Jair Renan, o vereador que diz “incomodar o sistema” de Balneário Camboriú.

Diplomacia carcerária é uma praga, por Elio Gaspari

O Globo

Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos

Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

— Palhaço.

Vem aí a fase de testes da reforma tributária, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Entidades pedem ‘harmonização regulatória’ e ‘medidas que garantam segurança jurídica e operacional’

A fase de testes da reforma tributária deve começar na próxima segunda-feira, dia 3. Empresas passarão a informar, nas notas fiscais, o valor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), dois tributos criados na reforma e que compõem o Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

No teste, será apurada, mas não recolhida, uma alíquota de 1%. As informações ajudarão a calcular qual alíquota será necessária para que o IVA arrecade o mesmo que o sistema tributário atual.

O problema é que nem todas as empresas estão preparadas para cumprir essa exigência. Mas, se não o fizerem, correm o risco de não conseguirem emitir notas fiscais.

O elogio a uma ditadura, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O promotor Gakiya deixou claro o que significa o modelo de El Salvador na Segurança Pública

Candidatos à Presidência da República à procura do voto de quem se sente inseguro no Brasil têm espalhado uma ideia: copiar o modelo de combate ao crime do salvadorenho Nayib Bukele, que governa há cinco anos seu país em estado de exceção. Bukele é um ditador como seu vizinho, o nicaraguense Daniel Ortega.

A lacração e o populismo que o vê como solução pouco se importam com a razão de Donald Trump nunca ter adotado tal modelo para os EUA, embora o defenda para os latino-americanos. Washington não chama a máfia americana de terrorista ou defende bombardear Little Italy. Mas a famiglia Gambino não vive no Rio. Afinal, por que americanos não podem ser mortos ou encarcerados sem acusação ou direito à defesa?

O risco da complacência com Donald Trump, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global

Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.

Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta Jansen

O Estado de S. Paulo

O antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos

O carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros

Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.

Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Enquanto progressistas abandonam seus artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político

Vigilância, denúncia e punição alimentam tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação

Ana Maria Machado João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

A obsessão com a decadência é a antecâmara do autoritarismo, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Autor nascido no século 19 ajuda a entender a direita de hoje

Direitas radicais compartilham convicção de que Ocidente está em perigo iminente

Há cem anos o mundo descobriu que o livro mais influente na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial era um volume de 600 impenetráveis páginas escritas por um ex-professor de escola secundária e acadêmico frustrado, dispensado do serviço militar pelas suas vistas curtas, que usou uma magra herança para explicar toda a história sem precisar analisar um documento.

O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.

Todos contra a educação, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lei da Copa, ao obrigar as escolas a darem férias durante todo o mês do evento, é retrocesso

Organizar calendário escolar não é tarefa trivial e deveria estar ao abrigo de investidas de políticos

Vários fatores conspiram para tornar o Brasil um suave fracasso. Um de nossos vícios estruturantes é o papel de coadjuvante que atribuímos à educação. Tivemos um bom exemplo disso na pandemia, quando autorizamos os shopping centers a sair do lockdown meses antes da reabertura das escolas.

A baixa prioridade dada à educação ganhou um novo capítulo com a sanção da lei nº 15.421/26, a Lei da Copa do Mundo Feminina, evento que terá lugar entre 24/6 e 25/7 do ano que vem no Brasil. O artigo 67 do diploma determina que todas as escolas do país, públicas e privadas, decretem férias durante a Copa. Os bons sentimentos por trás da medida são os de sempre: incentivar a participação popular e promover a isonomia de gênero, dando ao esporte feminino a mesma centralidade do masculino.

Na campanha do PL o candidato é o de menos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro foi figurante da dupla Jair e Javier na convenção em que a estrela deveria ser ele

Deslocado no figurino que o pai o mandou vestir, o senador não se encaixa em nenhum perfil com nitidez

Os estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro tiveram duas ideias para animar a convenção do PL. Nenhuma delas tinha como figura central o candidato. Ambas atearam fogo na controvérsia litigiosa e jogaram zero luz sobre o que pretende o postulante a presidente.

Estiveram lá o argentino que ora preside um país com a imagem ainda fresca de mau perdedor, despejando grosserias, e um Jair Bolsonaro de IA dando a entender que será ele o protagonista da cena governamental caso o filho seja eleito.

Candidatos de oposição têm agenda comum focada nos pontos fracos de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Hertz disputa esquerda crítica ao governo; Cury procura moderados; Caiado representa centro-direita administrativa; e Avalanche aposta no populismo

Promovida pelo Correio Braziliense, ontem, a primeira rodada de sabatinas com candidatos à Presidência mostrou que existe uma agenda comum de oposição ao governo, embora sejam muito diferentes as alternativas apresentadas. Hertz Dias (PSTU), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Leonardo Avalanche (PRTB) criticaram, por caminhos distintos, a condução da economia, o funcionamento das instituições, a política externa e a capacidade do Estado de enfrentar os problemas da população.

Essa convergência pode dificultar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, porque amplia o discurso oposicionista para além de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, essas candidaturas retiram votos do filho de Jair Bolsonaro, mas ninguém sabe qual será o destino desses eleitores num eventual segundo turno.

Os três caminhões de Argirita e o novo ofício do deputado federal, por Jairo Nicolau

Política & Dados

Uma cena numa cidade mineira e o que ela revela sobre a nova realidade das emendas parlamentares

Há poucas semanas fui a uma festa da família em Argirita, simpática cidade da Zona da Mata de Minas Gerais. Argirita tem uma população de cerca de 2.700 habitantes (2025) e tem a estrutura de centenas de pequenas cidades brasileiras: um núcleo urbano, que se organiza em torno da igreja matriz e de uma praça, e uma área rural, onde reside uma pequena fração da população do município.

Passeando pela cidade fiquei surpreso ao encontrar na praça principal, três caminhões estacionados, com uma faixa estendida entre eles, com os seguintes dizeres:

Consultando a excelente Plataforma Sólon, que disponibiliza dados sobre o valor das emendas transferidas para cada município, descobri que somente em 2026, Argirita recebeu 3 milhões de reais de emendas de deputados federais e senadores. O deputado Luiz Fernando (PSD) alocou valores expressivos na cidade nos últimos dois anos.

Não tenho como avaliar qual é a utilidade dos três caminhões novos para Argirita (minha intuição é que eles devem ser úteis), nem consegui saber como foram gastos os recursos das outras emendas parlamentares. Mas a partir desse episódio e de outros relatos, tenho pensado em dois efeitos da maciça utilização das emendas parlamentares no país.