segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Abstenção ou desilusão, por Carlos André Machado*

Correio Braziliense

Abstenção não é voto nulo nem voto em branco. Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe ninguém. Quem se abstém nem chega à urna

Trinta e três milhões e meio de brasileiros estavam no colégio eleitoral na eleição de domingo e decidiram não decidir nada. É a maior abstenção de primeiro turno desde o recorde de 1998 (21,49%) e quase o alcança: 21,08% do eleitorado ficou em casa nesta eleição, contra 20,95% em 2022. O índice sobe há cinco eleições seguidas. E, como toda ausência em política, essa também fala — só que mais baixo, e é preciso prestar atenção para ouvir o que ela diz.

Tapete vermelho na Paulista, por Maria Beatriz Giusti

Correio Braziliense

Mobilizada, especialmente, por estudantes, uma multidão ocupou a famosa avenida, tradicional centro econômico paulistano. Houve manifestações em mais de 300 locais do Brasil. Também em São Paulo, Flávio encontrou-se com prefeitos

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, reuniu ontem, na Avenida Paulista, mais de um milhão de apoiadores, segundo cálculo dos organizadores.  O ato "Marcha pela Democracia" contou com a participação de artistas e de lideranças políticas de São Paulo.

Tradicional centro econômico de São Paulo, a avenida abriga sedes de bancos comerciais, consulados e sindicatos. Também é conhecida como importante polo cultural, onde está o Masp, IMS, Japan House, Sesc, além de diversos cinemas e livrarias.

"Estamos nas ruas para defender nossos direitos, nossa democracia e um Brasil que respeite os interesses do povo brasileiro! Ninguém vai nos calar! Quando o povo se une e ocupa as ruas, a democracia avança e o Brasil muda! Vamos ocupar as ruas e as redes, enfrentar as ameaças de retrocessos e lutar por mais direitos, justiça e oportunidades para todos!", escreveu Lula em uma rede social. 

A falta que ainda nos faz uma boa direita, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico no governo Bolsonaro topou com o populismo

Em 2007, escrevi neste jornal que o Brasil precisava de uma boa direita. Voltei ao assunto em 2013. E outra vez em 2019. Quase 20 anos depois da primeira coluna, faz todo o sentido perguntar: a direita apareceu? Apareceu uma direita. Ganhou eleições, mobilizou milhões de pessoas, construiu um movimento político. Em 2019, colocou seu presidente no Palácio do Planalto e, hoje, tem o candidato favorito para este segundo turno. Além disso, se tornou a principal força do Congresso. Mas não é a direita de que eu falava.

Pensava numa direita liberal na economia e democrática na política. Defendia menos Estado onde o Estado atrapalha, mais eficiência onde ele é indispensável, contas públicas equilibradas, economia aberta, competição, investimento privado, liberdades individuais e de imprensa.

O governo Jair Bolsonaro obviamente não cabe nesse figurino. Sua inspiração assumida era a ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Além da opressão política, da tortura, dos assassinatos e da censura à imprensa, a ditadura aplicou um modelo econômico que nada tinha a ver com o liberalismo. Bem ao contrário, foi uma política estatizante e intervencionista.

Vivemos a política do espetáculo, por Preto Zezé

O Globo

Tem gente com carro financiado em 77 prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas não vive a vida dele

Eu curto ouvir ideia de roda de favela. No domingo, dia 4, fui votar nas Quadras, onde nasci, favela dentro da Aldeota, bairro rico de Fortaleza, e levei minha mãe, Dona Fátima, que sempre vota comigo. Na roda, o debate era política, e a palavra era polarização. Eu chamo de espetáculo, que não é o vídeo que chega no celular. É quando ele passa a decidir com quem a gente conversa, de quem tem medo e em quem vota. O principal desse show não é o que mostra, é o que esconde.

Tem gente em casa sem banheiro, em rua sem saneamento, discutindo quem pode usar o banheiro do shopping. Quem mora na favela e quem mora no prédio ao lado até parecem iguais na passeata. No dia a dia, um é patrão e o outro é empregado, e não têm as mesmas demandas. O espetáculo cria a miragem de que são iguais numa sociedade desigual e injusta.

Mulheres que querem voltar ao passado fazem barulho na política, por Ana Paula Araújo

O Globo

Antifeministas capturaram um movimento crescente, em que ‘influencers’ romantizam a dependência de marido

Meu único tio por parte de mãe fumou a vida inteira. Eu me dei conta do risco que ele corria quando tinha uns 7 anos e fizeram uma campanha antitabagismo na escola. Recolhi todos os panfletos e cheguei assertiva despejando a papelada em cima do meu tio querido, discorrendo sobre os males do cigarro e exigindo que ele parasse de fumar. Ele me ouviu com paciência, agradeceu, mas não pestanejou:

— Meu amor, se eu não puder viver do jeito que eu quero, de que adianta?

A pergunta dele me deixou com outras, que me acompanham até hoje, nas mais variadas situações. Admiro quem banca os próprios desejos e se dispõe a assumir os efeitos colaterais. Mas como discernir entre coragem e inconsequência? Quando o livre-arbítrio se transforma em autoengano? O que estou disposta a sacrificar?

A culpa pela derrota de Lula no 1º turno é do povo, por Demétrio Magnoli

O Globo

Justificativas ensaiadas têm algo em comum: eximir o presidente e seu partido de qualquer responsabilidade

Quem é o culpado? Sidônio Palmeira, Janja, Alexandre de Moraes, o “imperialismo ianque”, a “imprensa entreguista”, o mordomo? Todas essas hipóteses circulam na campanha de Lula e na base militante petista. Contudo, no fundo, a teoria mais permanente é outra: a culpa seria do povo.

Há muito, quando o PT perdeu uma eleição em São Paulo, a filósofa Marilena Chauí acusou a “classe média fascista”. Era estranho, pois o PT daquele tempo triunfara várias vezes nas grandes cidades do Sudeste, inclusive com o voto majoritário dos bairros de classe média. Afinal, essa camada social tornava-se fascista apenas quando o PT perdia?

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais

Por O Globo

Retrocesso na agenda de conservação é um dos riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito

Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.

A incerteza continua, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Deputados continuam vulneráveis às urnas, mesmo com recursos crescentes

Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Além dos fundos Partidário e eleitoral bilionários, cada parlamentar dispõe de cerca de R$ 40 milhões anuais em emendas individuais impositivas.

Seria razoável esperar que tamanha vantagem tornasse a reeleição cada vez mais segura. Mas as urnas de 2026 contrariaram essa expectativa. Segundo série histórica, apenas 54% dos deputados renovaram seus mandatos, abaixo da média histórica de 63%.

Embora superior ao resultado de 2018, quando a reeleição atingiu seu menor patamar histórico recente (47%), o porcentual revela que a sobrevivência eleitoral continua longe de ser garantida. Nem mesmo a expansão dos recursos orçamentários à disposição dos parlamentares parece ter revertido essa trajetória.

Direita política não é sinônimo de responsabilidade fiscal, por Cláudio Adilson Gonçalez

O Estado de S. Paulo

O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento

O avanço da direita na eleição de 4 de outubro provocou otimismo incomum no mercado financeiro brasileiro. De 2/10 até a tarde da sexta-feira, 9/10, o Ibovespa subiu 9%, o real valorizou 4,6% e os juros futuros longos registraram quedas expressivas, em torno de 1,5 ponto porcentual ao ano.

Há fundamento para parte dessa reprecificação. A probabilidade de alternância de poder aumentou, e o Congresso de 2027 será, em princípio, mais favorável a privatizações, desregulamentação e reformas pró-mercado. O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento.

Flávio Bolsonaro quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo, por Édouard Louis*

Folha de S. Paulo

Se eleito, senador tentará apagar uma liberdade que existe em poucos países

Político quer uma sociedade do medo e tornaria a vida dos pobres mais difícil

Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.

O mito do Nordeste vermelho, outra vez, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O Nordeste não constitui um sistema partidário distinto do restante do país

O peso do PT é menor nas bancadas federais do Nordeste do que nas de outras regiões

Em 2022, mostrei nesta coluna que o núcleo do centrão e o PL haviam eleito 35% dos deputados federais nordestinos. Os partidos de esquerda ficaram com 33%. A participação de PL, PP e Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à observada nacionalmente.

Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, contra 69 em 2022, mas a participação do Nordeste nessa bancada caiu de 21 cadeiras —30,4%— para 20, equivalentes a 28,6%. Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, agora a diferença aumentou: são 20 contra 50.

Ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Falar em mudança da Constituição apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual

Carta de 1988 representa um marco nacional na consolidação do Estado Democrático de Direito

Fiquei aterrorizada com essa conversa sobre "mudar a Constituição" com vistas a "redemocratizar o Brasil". O assombro se fundamenta na certeza de que nossa estrutura institucional estabelecida atualmente garante, em regra, o respeito à Lei Maior do país. Salvo melhor juízo, há 41 anos este país é uma democracia.

As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.

O clique da glória e da amargura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Um soldado prisioneiro de guerra volta do Vietnã e descobre que sua esperança foi em vão

A bela foto daquele momento é premiada e liga o fotógrafo e seu personagem para sempre

A foto, excepcional, correu o mundo em 1973. Mostrava um soldado americano, prisioneiro de guerra durante cinco anos no Vietnã, desembarcando recém-libertado numa base aérea na Califórnia. O homem é um major e se chama Robert Stirm. Está fardado, de costas para a câmera, e sua bela família corre euforicamente para abraçá-lo. São duas meninas, uma já adolescente, dois garotos e a esposa. Parecem estar no ar, os pés fora do chão, e a alegria em seus rostos é indescritível. A foto é de Slava Veder, também americano, da Associated Press.

Jornal também precisa descer do salto na cobertura eleitoral, por Ombudsman \ Alexandra Moraes

Folha de S. Paulo

Surpresa e tom de caricatura prejudicam reportagens sobre mulheres conservadoras eleitas para o Legislativo

Atenção que faltou para deputadas parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro, que leitores veem tratado como já eleito

Os resultados que geraram uma semana de críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).

Já na reta final da campanha e diante dos primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas voltassem ao "cercadinho" onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre pena.

Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.

Nos jornais, um climinha de "já ganhou" antes da hora, por Ombudsman \ João Marcelo Sena

O Povo (CE)

É necessário um pouco mais de cautela ao reportar a postura adotada pelas campanhas após o primeiro turno. Nos principais jornais, prevaleceu um clima de "já ganhou" antes da hora presente no otimismo que Flávio tentou demonstrar

O Brasil parece estar vivendo desde a noite do último domingo, 4, em função dos resultados das eleições e dos desdobramentos do apurado das urnas de todo o País. Não faltaram análises nos principais veículos sobre a composição do próximo Congresso, acerca do elevado número de governadores eleitos ou reeleitos num só turno e, claro, sobre a disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando o que projetavam as pesquisas.

Com poucas disputas em segundo turno pelos governos estaduais, a corrida pelo Palácio do Planalto fica ainda mais em evidência no noticiário. Ao longo da última semana, as agendas e estratégias de Flávio Bolsonaro e Lula pautaram a cobertura.

O candidato do PL vestiu a roupa de “futuro presidente”. O noticiário em torno de Flávio Bolsonaro baseou-se nos apoios recebidos para o segundo turno, nas projeções de cortes no orçamento que animaram os mercados e nas promessas de mudanças na Constituição sob o argumento de “redemocratizar” o País.

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva: mas o que é esta realidade efetiva? Será algo estático e imóvel, ou, ao contrário, uma relação de forças em continuo movimento e mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, baseando-se naquela determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para fazê-la triunfar, significa continuar movendo-se no terreno da realidade efetiva, mas dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). Portanto, o “dever ser” é algo concreto, ou melhor, somente ele é interpretação realista e historicista da realidade, somente ele é história em ato e filosofia em ato, somente ele é política.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 13 – Cadernos do Cárcere, v.3. p.35. 3ª Edição. Editora Civilização Brasileira, 2007.