O Globo
Tem gente com carro financiado em 77
prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas não vive a vida
dele
Eu curto ouvir ideia de roda de favela. No
domingo, dia 4, fui votar nas Quadras, onde nasci, favela dentro da Aldeota,
bairro rico de Fortaleza, e levei minha mãe, Dona Fátima, que sempre vota
comigo. Na roda, o debate era política, e a palavra era polarização. Eu chamo
de espetáculo, que não é o vídeo que chega no celular. É quando ele passa a
decidir com quem a gente conversa, de quem tem medo e em quem vota. O principal
desse show não é o que mostra, é o que esconde.
Tem gente em casa sem banheiro, em rua sem saneamento, discutindo quem pode usar o banheiro do shopping. Quem mora na favela e quem mora no prédio ao lado até parecem iguais na passeata. No dia a dia, um é patrão e o outro é empregado, e não têm as mesmas demandas. O espetáculo cria a miragem de que são iguais numa sociedade desigual e injusta.










