terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca

"Para Pasquino, a passagem do velho ao novo “reformismo” consistiria em promover, mais do que coalizões segundo interesses, coalizões segundo valores. Entre estes, como vimos, indica o ambiente, o direito à informação, a paz, associando-os à complementação da democracia política com a democracia social e à penetração da “cultura dos serviços” nos aparelhos da administração pública. São os novos “desafios” que a esquerda tem diante de si. Mas todos – uns mais, outros menos – pressupõem a possibilidade de desenvolver uma eficaz ação política supranacional. Não só as políticas de ambiente, paz e informação (que não poderiam ser implementadas sem a iniciativa pactuada dos países europeus e sem a ação que a Europa unida poderia desenvolver no cenário mundial), mas também o desenvolvimento da democracia econômica e da democracia social (que implicam o controle sobre a acumulação e a inovação, decididas de modo cada vez mais direto por “potências” econômicas supranacionais) e a reorientação dos aparelhos da administração pública e dos serviços requerem a unificação dos mecanismos de regulação em escala europeia e a superação dos modelos burocráticos herdados do Estado nacional."

*Giuseppe Vacca, ‘Por um novo reformismo”. Pág. 92. Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2009.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Protestos no Irã alimentam esperança

Por O Globo

Aiatolás voltam a reprimir oposição com violência, mas padecem de fraquezas internas e externas

Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.

Projeto da burrice é antigo. Por Larissa Leão de Castro

O Globo

Hélio Pellegrino descreveu em livro há mais de 30 anos não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos

Há pensamentos que o tempo não consome porque são escritos no nervo exposto de um país. O de Hélio Pellegrino é um deles. Resgatar hoje sua obra “A burrice do demônio”, mais de três décadas depois, é perceber como ele descreveu não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos, atravessado por desigualdades brutais, violências de Estado e uma tentativa insistente de organizar a burrice como projeto político.

Psicanalista, marxista, homem de fé e de poesia, recusou compartimentos. Para ele, a psicanálise não era luxo de consultório, mas instrumento de justiça social. Ao falar de desejo, falava também de salário, de moradia, de racismo, de tortura, de manicômios. Foi um dos primeiros a formular ideias como “sintoma social”, “patologia social” e “perversão social”, mostrando que alguns sofrimentos não cabem apenas no código do diagnóstico, nascem de estruturas históricas perversas, de pactos silenciosos de exclusão.

Democracia como limite. Por Merval Pereira

O Globo

As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

O escândalo Master pode ajudar o Brasil. Por Fernando Gabeira

O Globo

O lado sombrio do país tem se projetado com efeito mais devastador do que a intensa luz do sol iluminando todo esse processo

Algumas vozes defendem que o escândalo do Banco Master não seja totalmente revelado. Segundo elas, o impacto seria tão grande que o Brasil não aguentaria. É um grande equívoco. Apesar de sua fragilidade, a democracia brasileira não só aguentaria saber de tudo, como poderia usar a revelação de combustível para algumas reformas. O que envenena a convivência democrática é ver o enorme esforço que se faz para abafar o escândalo.

Bancos centrais enfrentam ataque. Por Míriam Leitão

O Globo

Parece uma temporada de ataques a bancos centrais: o Fed na mira de Trump e o BC às voltas com o desenrolar do caso Banco Master

O Fed sob um ataque tão direto e diante de uma tentativa de intimidação tão explícita não é apenas algo que nunca se viu. É que não se pensava que pudesse acontecer. A reação foi imediata, e quem deu o tom foi o próprio Jerome Powell. Normalmente comedido diante das grosserias de Donald Trump, o presidente da instituição não mediu palavras. Através de comunicados, ex-presidentes do banco central americano, de ex-secretários do Tesouro e de bancos centrais de vários países apoiaram Powell. Todo mundo sabe o custo para a sociedade de tirar a credibilidade do banco central. Todo mundo, menos Trump.

Memória e esquecimento: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Kleber Mendonça Filho recusou soluções fáceis e o mito clássico do herói grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro

A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua não-inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geografo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia — feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme constrói sua crítica política mais profunda.

A internet do Irã. Por Pedro Doria

O Globo

O que está acontecendo no Irã não é reedição do que ocorreu na Primavera Árabe. Há 15 anos, as redes sociais nascentes permitiram que grupos diferentes na Síria, no Egito e em tantos outros países se organizassem para protestar contra os regimes em que viviam. Os aiatolás entendem isso. Desde então, promoveram apagões de internet em todo o território nacional sempre que havia novas ondas de manifestações. Mas isso não quer dizer que a internet não seja usada. Os manifestantes também aprenderam a lidar com a estratégia do regime.

Fé, esforço e disciplina não bastam para empreender. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É óbvia a existência do desejo de viver sem patrão, uma busca de autonomia natural do ser humano, mas a opinião favorável à carteira assinada é uma realidade que se impõe em razão da segurança e dos benefícios da CLT

É difícil tirar os olhos do cenário global após a invasão da Venezuela pelos EUA. Mas vem aí a campanha eleitoral e não há como deixar de olhar para questões internas. Quando acabou o segundo turno das eleições municipais, em outubro de 2024, fervilharam análises para explicar as derrotas da esquerda.

Entre as causas, teve destaque a opinião de que a esquerda perdeu contato com as periferias. E a receita muito recomendada para retomar o diálogo era o apoio ao empreendedorismo.

O assunto voltou à discussão um ano atrás com o caso do atrapalhado anúncio da fiscalização das transferências bancárias acima de R$ 5 mil. Ganhou credibilidade naquele momento a mensagem falsa de que, com a medida, o governo iria taxar o Pix.

O cinema e a alma nacional. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula

O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.

Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.

Flávio se empolga, mas falha na moderação. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

O que no começo era um movimento para frear o avanço político da exprimeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e, também, um balão de ensaio para testar viabilidade eleitoral e manter a família em evidência começou a ganhar musculatura. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empolgou-se com sua pré-candidatura presidencial e passou a dar passos mais arrojados para tentar garantir apoios e sustentação à sua pretensão palaciana. Ele procurou empresários, agentes do mercado financeiro e foi até rezar numa igreja evangélica em Orlando. Agora, neste janeiro de 2026, já circula na Faria Lima que o filho zero um de Jair Bolsonaro conseguiu promessas de apoio para o cofre de sua campanha.

Procura-se um candidato. Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo

O Brasil enfrenta uma situação interna de extrema complexidade. A disfuncionalidade do sistema político afeta a governança e o equilíbrio entre os Três Poderes. Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo. O programa mínimo que a seriedade da crise atual exige é passar o Brasil a limpo e mudar o que tem de ser mudado dentro dos princípios democráticos.

Não se pode ignorar que tudo o que ocorre hoje é resultado de 20 anos de governos de esquerda e de direita que, pelas suas prioridades ideológicas, não levaram em conta as mudanças internas e as transformações globais e seus impactos sobre o País. A ausência de liderança no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no meio empresarial e no meio dos trabalhadores agrava o quadro nacional e exige de todos os que se preocupam com o futuro do Brasil um esforço para promover um debate sobre as mudanças que a sociedade brasileira terá de enfrentar para restaurar o crescimento em nível mais elevado, aumentar o emprego de forma sustentável, combater a corrupção sistêmica e a violência do crime organizado.

Trump contra o mundo. Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas

Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo perde.

Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói. Por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Os que sofrem merecem empatia, mas não são heróis

A dor nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito

Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado terrorista no teatro Bataclan, em Paris.

À primeira vista, a decisão poderia passar sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a elevação da vítima a um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.

Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?

O ópio do povo. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Embora Marx tenha feito crítica forte à religião, esquerda nunca foi muito consistente em condenar regimes teocráticos

Antiamericanismo é parte da explicação, mas também existe um vínculo metafísico que passa pela crença em utopias

Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral, econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.

Brasil se encolhe na liderança da América Latina. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente condena ação de Trump na Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia

Ambiguidade faz Lula perder a chance de marcar mandato com papel relevante no cenário internacional

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.

Enrolado com o Master, Cláudio Castro foge do Palácio Guanabara. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Governador teme que desastre fiscal atrapalhe eleição ao Senado

Sua candidatura, porém, ainda depende de absolvição no TSE

Cláudio Castro fez três pedidos ao gênio da lâmpada. A urgência é escapar da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A ação no TSE teve início em novembro, dias depois da chacina nos complexos do Alemão e da Penha. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação e inelegibilidade. O ministro Antônio Carlos Ferreira pediu vista, e a expectativa é que o processo seja retomado em fevereiro.

Bondi Beach e o massacre. Por Marcus Cremonese*

Neste 14 de janeiro faz exatos 30 dias do atentado antissemita ocorrido em Bondi, praia ícone de Sydney, na Austrália. O mundo ficou chocado com esse massacre que é tido como o maior “atentado terrorista” já acontecido neste país.

Uma semana depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro, senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas rabinos, imãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.