quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca*

“Não há dúvida de que as “ideologias” têm para Gramsci peso maior do que para qualquer outro pensador marxista, mas afirmar que “tornam-se o momento primário da história” equivale a inserir seu pensamento nos quadros conceituais da “filosofia do espírito” de Benedetto Croce. É verdade que Bobbio aplica ao pensamento gramsciano um paradigma dicotômico (estrutura/superestrutura) que não se lhe adapta. A “distinção entre sociedade política e sociedade civil” – escreve Gramsci – é uma “distinção metodológica”, não “orgânica”. “Sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos”. É um dos trechos mais conhecidos do Caderno 13, no qual Gramsci polemiza com o liberalismo porque, considerando “orgânica” o que deveria ser uma distinção “metodológica”, contrapõe o mercado ao Estado, ignorando que “também o liberismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva”[1]. Além disso, para Gramsci, a distinção entre estrutura e superestrutura é de caráter “metodológico”, tanto que a “metáfora arquitetônica”, em certo momento, cede o passo a outras conceituações.

*Giuseppe Vacca, Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci, Brasília/ Rio de Janeiro: FAP/ Contraponto, 2016, p. 267


[1] A. Gramsci, Quaderni del carcere, cit., p. 1592.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula tenta se eximir de responsabilidade na segurança

Por O Globo

Por conveniência, Planalto resiste a criar ministério e ameaça abandonar PEC que amplia o papel federal

São frustrantes os sinais de que o Palácio do Planalto pretende desistir da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, um dos dois principais projetos do governo federal na área (o outro é a legislação antifacção). A ideia de engavetar a PEC passou a ser cogitada devido a dificuldades para aprová-la no Congresso, diante de divergências com parlamentares e governadores, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O governo considera que o texto em tramitação, relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), foi desfigurado e se afastou do propósito original.

2026 e o grande teste para a imprensa. Por Vera Magalhães

O Globo

A desqualificação sistemática do jornalismo profissional, tratado como inimigo, tornou-se parte do repertório eleitoral

Em 2026, enquanto o Brasil se prepara para mais uma eleição presidencial em ambiente de alta polarização e o mundo assiste perplexo ao embaralhamento da ordem multipolar por parte de Donald Trump, o jornalismo atravessa um dos momentos mais desafiadores de sua história recente. Não se trata apenas de uma revolução do modelo econômico ou tecnológica. É uma disputa aberta pela credibilidade da informação, com impacto direto na preservação da democracia.

A viagem do Zero Um. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador tentou foto com Marco Rubio, mas teve que se contentar com Paulo Figueiredo

em busca de uma foto com Marco Rubio. Teve que se contentar com uma visita ao blogueiro Paulo Figueiredo.

A viagem do Zero Um resultou num fiasco. O senador queria mostrar que a família ainda tem prestígio na Casa Branca. Só conseguiu ser recebido pelo deputado e ex-lutador Jim Jordan, da extrema direita do Partido Republicano.

No ano passado, os filhos de Jair apostaram numa intervenção trumpista para livrar o pai da cadeia. A ilusão durou pouco. O Supremo resistiu aos ataques e condenou o ex-presidente a 27 anos de prisão. Donald Trump se aproximou de Lula, revogou o tarifaço e deixou Eduardo Bolsonaro falando sozinho.

A cocaína passou pelo Brasil. Por Elio Gaspari

O Globo

A polícia espanhola anunciou que, na primeira semana de janeiro, interceptou um navio (com jeito de ferro-velho) que transportava cerca de 10 toneladas de cocaína, escondidas em 294 caixas debaixo de um carregamento de sal. O barco tinha a bandeira da República de Camarões, e sua tripulação de 13 pessoas era composta por sérvios e indianos. Em dezembro, o barco havia passado por portos brasileiros. Ele foi abordado pelos espanhóis em alto-mar. Sem combustível, teve de ser rebocado até o Porto de Tenerife.

Essa foi a maior apreensão de cocaína em alto-mar. Segundo as autoridades espanholas, a operação resultou da cooperação das polícias de Estados Unidos, França, Portugal e Brasil.

Enforcamento de jovem Erfan pode acelerar derrubada do regime xiita iraniano. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações “normais” com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar

A execução do jovem Erfan Soltani, 26 anos, na forca, hoje, sob acusação de terrorismo, pelo regime do aiatolá Ali Khamenei, 86, tem potencial para piorar a mais grave crise enfrentada pela República Islâmica desde 1979. A morte de um manifestante não é novidade na longa história de repressão do Estado teocrático iraniano. Mas há momentos em que um único corpo, pendurado em praça pública, condensa o medo, a indignação e a ruptura moral de uma sociedade que já não aceita ser governada pela combinação da moralidade religiosa, vigilância militar e miséria econômica.

Um mundo de múltiplas ordens. Por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

Três delas são lideradas pelos EUA, Rússia e China, enquanto uma quarta poderá ter a liderança de Turquia, Arábia Saudita ou Irã

A intervenção de fato dos Estados Unidos na Venezuela nos coloca novamente diante de uma divisão geopolítica em que poucos países exercem dominância não só econômica, mas militar e territorial, sobre vastas regiões de sua influência. O economista Joseph Stiglitz chama de “nova era do imperialismo” os movimentos recentes. Outros preferem “novo imperialismo”, termo que se confunde com a denominação histórica atribuída aos fatos ocorridos nas últimas três décadas do século XIX, quando países europeus, o Japão e mesmo os EUA decidiram “tomar conta” de pedaços dos continentes africano e asiático.

Mundo corre para dissociar-se do risco americano. Por Edward Luce

Valor Econômico |   Financial Times

Não há precedentes de que uma potência dominante abandone sua primazia, como Trump vem fazendo

Até recentemente, o mundo acreditava que uma dissociação entre EUA e China estava a caminho. O que ocorre agora, no entanto, é que a maioria dos países está correndo para dissociar-se dos riscos americanos. Como podem atestar o presidente do banco central dos EUA, Jay Powell ou a Dinamarca, um dos aliados mais leais dos EUA, tentar acalmar Donald Trump só te leva até certo ponto. Pode te ajudar a comprar tempo, mas não substitui a necessidade de proteção contra uma superpotência que saiu da linha. Estamos, portanto, nos primeiros estágios da aceleração do processo de redução da exposição a riscos dos EUA.

Nixon, és tu? Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O receio dos investidores é de que o Fed se dobre diante da pressão de Trump para cortar os juros

O presidente Donald Trump está prestes a anunciar o nome de quem vai, a partir de maio, substituir Jerome Powell no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central considerado o bastião da estabilidade de preços nos Estados Unidos, e, por tabela, da liquidez mundial, além de ser o paradigma de independência da política monetária.

A pulsão de Trump é totalitária. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Pulsão do presidente dos EUA é totalitária, não apenas autoritária, o que implica em experiência desestruturante

Negar fascismo de Trump cria mais problemas do que resolve

Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.

O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.

Solta, Trump vai explodir o dólar. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Líderes da banca querem conter ataque contra independência do Banco Central americano

Trumpismo é força bruta na política e tentativa de fazer a vontade do rei na economia

Donald Trump quer dominar o Fed, o banco central dos EUA. Imagina que pode mandar na economia, sem mais —em juros, preços, dívida, empresas. Tudo não passaria de mera política, da vontade do rei. Imagina ainda que pode, sem mais, usar pura força na política mundial.

No limite, interessados, ofendidos e humilhados tendem a reagir. Na economia, com descrédito progressivo, em algum momento abrupto, do dólar e do mercado americano, onde está o grosso da poupança mundial. Na política, países vão pensar em coalizões de defesa e em ter bomba atômica.

A batalha real de 2026 será pelo Senado. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A próxima eleição decisiva do país pode não ser para presidente, mas para o Legislativo

Maioria no Senado permite que se avance uma agenda independentemente de quem governe

A próxima eleição decisiva no país será a batalha pelo Senado. O argumento parece esquisito, mas é preciso considerar duas coisas. A primeira é que, desde 2018, houve uma virada ideológica no voto brasileiro, na direção da direita radical.

Aquele centrão descrito como pragmático, disposto a trocar votos por cargos e grana, é hoje apenas uma ficção na cabeça dos jornalistas. O voto que deu bancadas a partidos como PL, Progressistas, União Brasil e Republicanos não é transacional; é ideológico e de matriz bolsonarista. Os detentores desses mandatos precisam provar, o tempo todo, fidelidade à base que os elegeu. O pragmatismo residual migrou para um espaço muito mais estreito, ocupado sobretudo pelo PSD, que não é centrão. O resto opera sob vigilância ideológica permanente.

O absurdo assume o poder. Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Universidade texana censura professor de filosofia e o impede de discutir diálogo de Platão

'O Banquete' afirma que humanos não são binários e isso seria ideologia de gênero, proibida por lei

"Reductio ad absurdum" é uma técnica argumentativa pela qual se busca refutar uma tese mostrando que sua aceitação leva a conclusões ilógicas, contraditórias ou absurdas. Já me vali algumas vezes desse recurso para criticar raciocínios, tanto por parte da direita como da esquerda, que desembocam em censura. Em mais de uma coluna afirmei que, a prevalecer esse tipo de pensamento, logo proibiríamos Aristóteles. Ele, afinal, defendia a escravidão.

BC oferece saída à francesa ao TCU. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Instituição financeira deu ao Tribunal de Contas a chance de sair de uma confusão em que nunca deveria ter entrado

No meio das suspeições sobre blindagem do Banco Master ainda restam o Supremo Tribunal Federal e o Congresso

O desfecho da reunião entre o Banco Central e o Tribunal de Contas da União, relatado por Vital do Rêgo Filho, deixou a nítida impressão de que o BC deu ao TCU a chance de sair de uma confusão em que nunca deveria ter entrado.

Uma saída mais ou menos honrosa: ficou combinada uma inspeção supervisionada que em nada muda a decisão técnica da liquidação do Banco Master, mas serve para o órgão auxiliar do Poder Legislativo reduzir os danos provocados pelo esquisito afã do ministro relator, Jhonatan de Jesus, em questionar o BC.

Haddad elogia BC e diz que caso Master pode ser 'maior fraude bancária do país'

Por Bruno Lessa / O Globo

Ministro elogiou atuação do Banco Central e disse que estar 'absolutamente seguro' do trabalho de Galípolo

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira que a pasta tem dado "todo o respaldo institucional" ao Banco Central no processo de liquidação do Banco Master. Segundo ele, o caso pode ser a "maior fraude do país".

– O caso inspira muito cuidado, nós podemos estar diante da maior fraude bancária da história do país. Temos que tomar todas as cautelas devidas com as formalidades, garantindo evidentemente todo o espaço para a defesa se explicar, mas ao mesmo tempo sendo bastante firmes em relação àquilo que tem que ser defendido, que é o interesse público – afirmou.

O titular da equipe econômica disse que tem falado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e elogiou o trabalho da autoridade monetária.

François Maspéro. Por Ivan Alves Filho

Aquela era uma livraria mítica, incrustada no coração do célebre Quartier-Latin de Paris, palco de tantas lutas memoráveis ao longo da História da França e da própria Humanidade. Estou me referindo à Joie de Lire, de François Maspéro

Filho e irmão de resistente antinazista, militante do Partido Comunista Francês (PCF), Maspéro praticamente dominou a cena editorial progressista da França do pós-guerra ao seu falecimento. Mais tarde, romperia com o PCF, passando a professar simpatias pelo movimento trotskista, relativamente forte na França.