segunda-feira, 13 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cláusula de barreira reforça depuração partidária

Por O Globo

Patamar mínimo de 2,5% dos votos assegurará recursos para menos partidos — os mais representativos

Na janela encerrada no início do mês, algo como 120 deputados trocaram de partido. O movimento reflete não apenas interesses eleitorais, mas também a consolidação mais coerente do espectro partidário brasileiro. A previsão é que a eleição de outubro tenha como resultado mais um enxugamento no número de legendas com acesso a fundo partidário e horário eleitoral gratuito. O patamar mínimo de votos para deputado federal que os partidos deverão atingir para manter tais recursos — conhecido como cláusula de barreira ou desempenho — será de 2,5%, com pelo menos 1% em nove unidades da Federação. Inicialmente, em 2018, a exigência era de 1,5% dos votos e chegará ao teto de 3% na eleição de 2030. Conjugada ao fim das coligações nos pleitos proporcionais ao Legislativo, ela tem contribuído para depuração do sistema partidário.

Derrota de Orbán é um alerta sobre apoio de Trump na eleição brasileira, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Resultado das eleições na Hungria sugere que o presidente americano continua tóxico em muitos países e que seu apoio pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro

A derrota do premiê Viktor Orbán nas eleições de hoje na Hungria sugere que Donald Trump provavelmente continua tóxico em muitos países e que o seu apoio eleitoral pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro. Ele precisará analisar muito bem se convém ou não trazer o apoio explícito do presidente americano para a campanha eleitoral brasileira.

A derrota significa o fim de 16 anos de governo de Orbán, que é acusado tanto pela oposição interna como pelos parceiros da União Europeia de atentar contra o Estado de direito na Hungria. Seu governo adotou uma série de medidas que minaram a independência do poder Judiciário. Ele também “capturou” a mídia, o que resultou no controle direto ou indireto da maior parte da comunicação no país por aliados do governo. Por isso, a UE congelou o repasse de fundos europeus ao governo húngaro.

Hungria e limites da interferência de Trump, por Assis Moreira

Valor Econômico

A derrota de Viktor Orbán no domingo vira revés também para Donald Trump e Vladimir Putin

A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais.

O resultado foi uma vitória sólida do oposicionista Péter Magyar, com maioria parlamentar confortável para ajudá-lo a reconstruir instituições democráticas desmontadas ao longo de 16 anos de poder “iliberal” sob Viktor Orbán.

Na Hungria, a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve, portanto, influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orbán.

Se isso trará grande alívio a outros governos que não estão exatamente alinhados com a administração trumpista é outra história. Trump parece pouco preocupado com limites para mobilizar seu poder com o objetivo de influenciar disputas no exterior.

Política econômica baseada no voto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas contra inadimplência abrem temporada de estímulos governamentais em ano eleitoral

Em abril a Quaest foi a campo e questionou a eleitores de todo o Brasil sobre suas percepções sobre o estado da economia brasileira. 62% responderam que ela havia piorado no último ano, sendo que 59% sentiam que sua capacidade de pagar as contas tinha diminuído nos três meses anteriores. A inflação se mostrava como o grande vilão: 98% identificavam que os produtos estavam mais caros, e para 24% a culpa pelo aumento de preços dos combustíveis era do presidente: Jair Bolsonaro.

O que explica a valorização recente do real? Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca e os juros continuam nas alturas

O real tem se fortalecido em relação ao dólar neste ano, como se vê no câmbio na casa de R$ 5. O cenário externo, embora conturbado, tem favorecido a moeda brasileira. Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) do país e os juros por aqui continuam nas alturas, estimulando operações para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas. Para completar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem perdido força nas pesquisas, o que boa parte do mercado vê como um sinal de que pode haver uma mudança na política econômica a partir de 2027, com mais ênfase no ajuste das contas públicas.

Um equilíbrio delicado entre os Poderes, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Risco à democracia não está só em presidentes fortes, mas em poderes que atuam sem limites

Durante muito tempo, o principal problema das democracias latino-americanas parecia claro: presidentes fracos, incapazes de governar, reféns de sistemas partidários fragmentados e de Legislativos indisciplinados. A consequência recorrente eram crises, paralisia decisória e, em casos extremos, rupturas institucionais.

A resposta a esse diagnóstico foi fortalecer o Executivo. Ao longo das últimas décadas, diversos países ampliaram os poderes presidenciais, conferindo aos chefes de governo mais instrumentos para aprovar políticas, coordenar coalizões e superar bloqueios. A aposta era simples: presidentes mais fortes significariam governos mais eficazes – e, portanto, democracias mais estáveis.

Não pode, companheiro Alexandre, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O presidente da República não tem nada que manter conversas reservadas com um ministro do Supremo

O presidente Lula deu dois conselhos ao companheiro Alexandre de Moraes, como ele mesmo se referiu ao ministro do STF. O primeiro foi direto: Moraes não pode participar de julgamentos envolvendo o caso Master. O segundo foi indireto. Disse Lula, quando sugeria mudanças no STF:

— Se o cara quiser ser milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte.

Ora, a família Moraes ficou milionária em pouco espaço de tempo. O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, recebeu nada menos que R$ 80 milhões do Banco Master em apenas dois anos de um contrato até agora pouco esclarecido. Lula não apresentou nenhum fato novo. Mas a palavra do presidente da República tem peso, sobretudo em público. Ele havia mantido conversa particular com o companheiro Moraes quando deu aqueles conselhos.

Geração atual não se identifica com referências políticas consagradas, por Preto Zezé

O Globo

Jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência

Os números chamam a atenção, mas o erro começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos, o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.

Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.

Irã, dez lições de um desastre estratégico, por Demétrio Magnoli

O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

Narcisos malignos, por Dorrit Harazim

O Globo

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.

Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche

Por Renáta Uitz e Thiago Amparo* / Folha de S. Paulo

Vitória do Tisza de Péter Magyar rompe ciclo de concentração de poder do premiê, mas herda máquina ainda ativa

Com maioria ampla, novo governo deve enfrentar dilema entre reformar sistema cooptado e punir adversários

Na noite deste domingo (12), a era Viktor Orbán chegou ao fim. Após 16 anos no poder, o premiê reconheceu a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições da Hungria. Não se trata de um feito menor: ao longo de quatro mandatos parlamentares, o sistema eleitoral foi inteiramente remodelado para favorecê-lo.

Depois da vitória esmagadora de 2010, que deu ao Fidesz uma maioria de dois terços no Parlamento, Orbán anunciou a construção de uma democracia iliberal, com o desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar o poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012.

O regime de Orbán sempre foi pragmático na maximização do poder e jamais escondeu suas inspirações. Seu projeto constitucional se inspirou em exemplos russos e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias, ao mesmo tempo em que mantinha o premiê como aliado próximo da Rússia.

Investigadores principais do V-Dem criticam relatório da instituição sobre a democracia, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A ideia de uma autocratização global generalizada não se sustenta empiricamente

Um dos críticos é o próprio arquiteto intelectual do projeto V-Dem

"Democracy Report 2026" do V-Dem tem gerado grande controvérsia —não apenas externa, mas também interna. Quatro dos cinco investigadores principais —inclusive o idealizador do projeto, Michael Coppedge— afirmam "não endossar parte das análises sobre a extensão do recente declínio global da democracia", consideradas "exageradas, pouco nuançadas" e marcadas por "linguagem inflada".

Universidade com a cara do povo brasileiro - parte 2, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Cotas nas instituições federais mudam radicalmente perfil dos estudantes

Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso de pessoas pretas, pardas e indígenas

Volto ao tema da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos caracteriza enquanto sociedade.

Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.

A mãe de Sua Senhoria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo

Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas

Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado. Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.