quinta-feira, 16 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Excessos puseram a perder a CPI do Crime Organizado

Por O Globo

Embora relator tenha apresentado argumentos para indiciar ministros do Supremo, nenhum era suficiente

Depois da rejeição do relatório da CPI do Crime Organizado que pedia o indiciamento por crime de responsabilidade de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República, o momento exige comedimento das autoridades. Houve excessos de Legislativo e Judiciário, e nada seria pior do que manter um clima de ataques, ameaças e xingamentos, que, além de desalentador, é contraproducente.

No Legislativo, a CPI ficou muito aquém do esperado. Pouco avançou na exposição dos mecanismos usados pelo crime organizado. Não revelou nenhuma novidade surpreendente sobre as ramificações de PCC, CV, milícias e outras organizações criminosas. Num momento em que a segurança desponta como maior preocupação dos brasileiros, o Senado perdeu uma oportunidade de responder aos anseios das ruas.

Revelações sobre ex-presidente do BRB explicam insistência para negócio tão danoso, mas há muito a esclarecer, por Míriam Leitão

O Globo

prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, conhecido como PH Costa, e do advogado Daniel Monteiro, homem de confiança do banqueiro Daniel Vorcaro, na quarta fase da operação Compliance Zero, ajuda a esclarecer o que ocorreu dentro do Banco de Brasília (BRB). A investigação da Polícia Federal identificou que PH Costa recebeu propina do Master e que lavou esse dinheiro com a compra de imóveis de luxo, entre eles um apartamento no edifício Vizcaya Itaim, próximo à Faria Lima, ainda em construção, com unidades à venda entre R$ 30,1 milhões e R$ 46,2 milhões, como mostrou a colunista Malu Gaspar. As investigações ainda estão em andamento, mas já se descobriu o suficiente como o papel do advogado nesse trabalho de lavar o dinheiro em compra de imóveis.

A apatia política, por Merval Pereira

O Globo

O confronto tribal entre lulismo e bolsonarismo, um duelo de rejeições que paralisa o país, está restrito a manobras eleitoreiras personalistas

A mais recente pesquisa Quaest revela, além dos números, uma apatia eleitoral que favorece o candidato da extrema direita, senador Flávio Bolsonaro. Jogando parado, ele vai crescendo na simpatia do eleitorado a ponto de estar, pela primeira vez, numericamente à frente do presidente Lula, que patina em torno dos 40% no segundo turno. Na eleição de 2022, não houve apresentação de programas, somente promessas vãs durante o horário eleitoral. Hoje repete-se a situação, com os dois principais candidatos se digladiando sem que haja uma discussão aprofundada sobre os problemas brasileiros.

Menos carne de paca e mais olho no centro, por Julia Duailibi

O Globo

Campanha de Lula deveria apertar o botão do ‘para’ e mudar a estratégia se quiser vencer

Pesquisa Quaest mostra avanço consistente de Flávio Bolsonaro (PL) entre os eleitores independentes, e essa é a pior notícia que o Planalto poderia ter no levantamento divulgado ontem. Uma vez que os independentes decidirão a eleição, a campanha de Lula deveria apertar o botão do “para” e mudar a estratégia, se quiser vencer.

A diferença entre os dois candidatos, que era de 16 pontos percentuais a favor de Lula no começo do ano, se inverteu e agora é de 7 pontos percentuais pró-Flávio. Ele lidera o segmento com 33% das intenções de voto ante 26% de Lula. Em janeiro, Flávio tinha 21% no grupo, ante 37%. A rejeição do presidente também é maior no segmento: 61% dizem que não votariam nele, e 54% não votariam em Flávio. Outra notícia ruim é o aumento do percentual de independentes dizendo que Lula não deve continuar na Presidência: em janeiro, eram 64%; agora são 71% — a margem de erro no grupo é de 3 pontos percentuais.

Lula, Flávio, as classes médias e a maldição de Marilena Chauí, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Pesquisa Quaest indica percepção negativa sobre o custo de vida e o poder de compra, especialmente entre os segmentos de renda intermediária

Desde o golpe de 1964, a esquerda brasileira tem dificuldade de compreender o comportamento das classes médias na política. À época, a deriva à direita desses segmentos da população deu base social ao golpe militar, inviabilizando qualquer resistência do governo João Goulart. Também foi o apoio das classes médias, devido ao chamado “milagre econômico”, que garantiu o grande respaldo obtido pelo governo fascista do general Emilio Médici na sociedade.

A volta do pêndulo se deu apenas em 1974, em consequência do primeiro choque do petróleo, do fracasso econômico do general Ernesto Geisel e da alta da inflação, que atingiu indistintamente a grande massa de assalariados, inclusive os de classe média. O resultado foi uma surra do MDB no partido do governo, a Arena, em novembro daquele ano. Historicamente, a noção de “classes médias”, no plural, é central para compreender a política brasileira.

Brasília, entre a trégua e a pizza, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Entre a rejeição do relatório da CPI e o favoritismo de Messias, os Três Poderes fazem acordos que não ficarão incólumes às eleições

Em breve se saberá se o que se viu esta semana em Brasília foi o arranjo de uma trégua ou a preparação de uma pizza. Um e outra têm consequências distintas para o poder a ser disputado em outubro e, como causa, ou, pelo menos, uma delas, a busca (desastrada) por sua excelência, o eleitor.

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) desentendeu-se com o governador do seu Estado. Não conseguiu vaga para a recondução de seu mandato na chapa de Fábio Mitidieri (PSD) à reeleição. O isolamento favoreceu uma estratégia sôfrega de pesar a mão no relatório da CPI do crime organizado. Todos fazem comissões de inquérito de palanque eleitoral, mas, até para isso, precisam de aliados.

O Brasil diante do risco de ficar mais para trás, por Assis Moreira

Valor Econômico

Há necessidade de um choque de reformas diante de um cenário internacional cada vez mais desafiador

Em 2011, o PIB per capita do Brasil era equivalente a apenas 31,18% da média daquele dos 19 países mais ricos. Dez anos depois, caiu para 26,44%, com o nível de desenvolvimento socioeconômico do país ficando mais distante de convergência com grandes economias.

Após a pandemia de covid-19, o Brasil registrou forte crescimento da economia, mas a diferença de PIB per capita em relação aos países da OCDE continua significativa. Em 2024, o PIB por empregado no país era 73,33% menor do que a da média nos principais países desenvolvidos.

Crônica de uma guerra estúpida, por José Vicente Pimental*

Correio Braziliense

No seu triunfalismo midiático, Donald Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia

Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras. Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro. Movido por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas do Estreito.  

A constelação obscura se partiu, por Eugênio Bucci*

O Estado de S. Paulo

Orbán foi o que podemos chamar de significante inaugural na composição da rede de líderes nacionalistas, antidemocráticos e reacionários que empesteia o planeta

A derrota eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria, no domingo passado, é um acontecimento de proporções globais. A barulhenta repercussão na imprensa internacional atesta o que digo aqui, mas uma das razões da magnitude desse fato ainda não foi exposta. Vale um artigo.

Muito se disse que Orbán era o centro europeu da estratégia da ultradireita na Europa. Verdade. Ele procurava seus aliados entre os que sabotam consistentemente o Estado Democrático de Direito. Como um agente duplo (um carro flex, uma lente multifocal ou um chip ambivalente), pactuou com Donald Trump e com Vladimir Putin, simultaneamente. Tirou vantagens e as devolveu. Cuidou de atrapalhar, de embolar e de descosturar o apoio europeu à Ucrânia, em manobras que a Casa Branca e o Kremlin, por interesses distintos, agradeceram.

‘No pasarón’, por William Waack

 

O Estado de S. Paulo

A crise entre os Poderes, com o Supremo e o Executivo unidos, está escalando

A operação de salvamento do STF da atual crise de credibilidade e legitimidade parece baseada em ordens que se tornaram célebres na história militar. Por não funcionarem. “É proibido recuar”, diz a ordem, geralmente dada quando não se sabe mais o que fazer.

No caso do STF, é preciso saber se há contingentes suficientes para cumprir essa ordem. Não há mais uma direção central dizendo por onde caminhar. E as diferentes posturas para sair da crise estão aprofundando um racha inédito. Pelo menos uma ala dentro da Corte acha que fincar o pé no lugar é uma postura fatal.

Quem tem medo de André Mendonça? Por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Ministros do STF acreditam que relator das investigações sobre o Master poupará colegas

A pergunta que paira sobre Brasília é: qual o tamanho da delação de Daniel Vorcaro? Ao mesmo tempo, outra dúvida ronda o Supremo Tribunal Federal (STF): André Mendonça vai partir com tudo para cima dos colegas nas investigações sobre o Banco Master, ou vai poupá-los?

A resposta à primeira dúvida ainda é desconhecida. Vorcaro segue negociando a colaboração premiada com a PF e a PGR. Gente com acesso ao caso acredita que a delação ficará pronta a partir de maio, margeando o processo eleitoral.

E o dólar vai deslizando, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Nesta semana, a cotação do dólar resvalou para abaixo dos R$ 5, patamar que não se via havia mais de dois anos. Ontem, fechou a R$ 4,9922. Em doze meses, a queda do dólar em relação ao real alcança 15,16%.

Como a economia brasileira continua carunchada pelo rombo nas contas públicas e a dívida vai galopando para acima dos 80% do PIB, cabe entender de onde vem essa força do real e examinar suas consequências.

Tem a fraqueza do dólar, que pode pesar mais do que a força do real. As despesas do governo Trump só vêm aumentando e o déficit por lá preocupa. Não dá para ignorar o movimento de redução das aplicações em títulos da dívida dos Estados Unidos pelos países que detêm volumes altos de reservas. O enfraquecimento do dólar em relação ao euro ao longo deste ano alcança 4,3%.

Tarcísio não é um moderado, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Polícias de SP mataram em média duas pessoas por dia neste ano

Abusos policiais não têm nada a ver com combate ao crime

As polícias paulistas nunca foram tão violentas quanto hoje sob Tarcísio de Freitas, ao menos desde o início da série histórica, há 30 anos. Entre outubro a dezembro de 2025, policiais em SP mataram 276 pessoas, o trimestre mais sangrento desde 1996, quando se iniciou a contagem. Em 2026, policiais paulistas mataram uma média de duas pessoas por dia, 130 ao todo entre janeiro e fevereiro, um aumento de 41% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Blusinhas', mentira do Pix e INSS assombram Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente pede ideias para mexer em imposto de importação sobre compras até US$ 50

Estão em estudo também medidas de crédito para caminhoneiros, taxistas e inadimplentes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende fazer algo a respeito da "taxa das blusinhas", o imposto federal de 20% sobre importações no valor de US$ 50, regulamentado em junho de 2024. A possível providência faria parte do jorro entre apressado e improvisado de medidas eleitorais. O governo está aflito com a inesperada baixa extra do prestígio presidencial —inesperada ao menos para o governismo.

Pesquisas de opinião indicam que o tributo ficou atravessado na garganta do povo até hoje. Há revolta mesmo contra a fiscalização do Pix, medida técnica e meritória que, na propaganda mentirosa e esperta da direita, foi pintada em janeiro de 2025 como um primeiro passo para a tributação dessas transferências de dinheiro, que levaram o povo miúdo para o sistema financeiro.

Está inaugurada a temporada das bondades eleitorais, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Como se não houvesse amanhã, governo de plantão e Congresso usam período para acelerar benesses

Há quatro anos, no dia 14 de abril, manchete da Folha estampava: 'Bolsonaro decide dar aumento de 5% a servidores e militares'

Está inaugurada a temporada das bondades eleitorais. O governo de plantão e o Congresso usam esse período para acelerar a adoção de benesses como se não houvesse amanhã.

Essa não é uma ação particular do governo Lula. Uma pesquisa simples das manchetes dos jornais deste mesmo período do ano, em 2022, mostra medidas adotadas pelo então presidente Jair Bolsonaro para angariar apoio à sua reeleição.

A insanidade tomou a Casa Branca, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Nação mais poderosa do mundo é conduzida por um desvairado

Ao contrário das autocracias, democracias têm recursos para conter aspirantes a ditadores

Não poderia ter acontecido, mas aconteceu. A nação mais poderosa do planeta passou a ser conduzida por um desvairado. A lista dos desatinos de Donald Trump é estarrecedora. No plano interno, desorganizou a administração pública; desencadeou o terror contra os imigrantes; ameaçou as melhores universidades; pôs em xeque a pesquisa científica; chantageou a mídia e espalhou a incerteza sobre o que está por vir.

Já no plano externo, virou de ponta-cabeça o comércio mundial; tratou aliados como inimigos; ameaçou anexar nações soberanas; invadiu a frio uma, a Venezuela, e sequestrou seu ditador; iniciou a guerra que incendeia o Oriente Médio; xingou o papa.

Trump, o Jesus de hospício, por Rui Castro

Folha de S. Paulo

Já não basta a Trump ser o homem mais poderoso deste mundo; quer ser o do outro também

Para a psiquiatria nos EUA, seu caso já é de camisa de força e doses triplas de sossega-leão

Quais são os mais populares heróis de hospício? Perdão, quais são as figuras históricas que pessoas mentalmente comprometidas mais são dadas a interpretar nas casas de repouso? Pelos compêndios, os campeões são Napoleão, Sherlock Holmes, Elvis Presley e Jack, o Estripador. Para as mulheres, Cleópatra, a rainha Elizabeth e Marilyn Monroe. Mas há uma figura que supera todas as outras, e que a ciência já nem considera: Jesus Cristo.

Os Cadernos do Cárcere de Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, por Marco Mondaini*

A terra é redonda

As cópias anotadas dos Quaderni del Carcere de Gramsci pertencentes a Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, descobertas na Unicamp, revelam ênfases distintas: o primeiro nos processos históricos europeus, o segundo na literatura e na práxis política

A descoberta

Tudo começou numa terça-feira, 17 de março, do ano em curso. Acabara de chegar à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o início de um pós-doutorado junto ao seu Departamento de Sociologia, sob a supervisão do professor Marcelo Ridenti, que gentilmente me convidou a acompanhar uma visita guiada – com a sua turma de graduação da disciplina Pensamento Social do Brasil – à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho.

Adquirida pela Unicamp em 1983, logo após o falecimento do autor de Raízes do Brasil, em 24 de abril de 1982, a coleção é composta por aproximadamente 10 mil volumes, dentro de um espaço que procura reconstituir o escritório de Sérgio Buarque, com a sua escrivaninha, cadeira de repouso e máquina de escrever.

Vantagens da oposição nas opiniões aferidas nas pesquisas, por Vagner Gomes*

A ninguém escapa a observação d’este facto curioso que toda oposição, por mais inexplicável, ou impura, que seja a sua origem, com o andar do tempo, vai gradativamente ganhando a simpatia pública. A meu ver, não é difícil encontrar a explicação de tal fenômeno. Pensam em geral que o público é oposicionista por índole. Mas não, o que o público é por índole, desde que não entre em questão o imediato interesse dos indivíduos que o compõem – é amigo da virtude, e, para mim, é regra que a oposição é virtuosa. Esta regra terá exceções, mas não deixará de ser uma regra.

Assis Brasil, Democracia representativa, 2022, p. 113¹

Não faltaram os avisos de que o atual incumbente presidencial não seguiu os caminhos políticos que o elevou ao terceiro mandato. A Frente Ampla foi assumida como uma tática eleitoral em 2022 deixando a cultura política da Aliança Democrática (vitória no Colégio Eleitoral em 1985) a intermitentes referências. A governança esteve “anos luz” de distância da política de Frente Democrática, portanto ela não está esgotada diante da política sectária de sobrevivência de uma máquina partidária que empurrou um senhor conservador filho de Dona Lindu a proferir opiniões de uma pluralidade de “bolhas”.