terça-feira, 30 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF piora regra que já era ruim para ‘penduricalhos’

Por O Globo

Congresso tem obrigação de corrigir distorções criadas pela Corte, em especial o novo quinquênio

A última decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os “penduricalhos” deveria tirar o Congresso da letargia. Era esperado que a Corte moralizasse os abusos. O que se viu foi frustração. Em março, o Supremo criou por unanimidade um novo teto para a remuneração da elite do serviço público. Definiu que as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores poderiam exceder em até 70% o valor estipulado na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF). Eliminou os “penduricalhos” mais escandalosos, mas permitiu que até metade do excesso de 70% possa ser concedida na forma de aumentos salariais automáticos a cada cinco anos — o quinquênio, extinto pelo Congresso há 20 anos. Não tem justificativa nem cabimento.

Em meio à Copa do Mundo, Lula e Flávio absorvem desgastes com aliados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Militantes-raiz fazem a blindagem tanto do presidente quanto do candidato de oposição nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva absorveu o desgaste provocado pelo envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no caso Master, enquanto seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RR), administrou a crise com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que havia gravado um vídeo se dizendo desrespeitada e humilhada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro. Talvez porque tenham se posicionado corretamente para estancar a crise, talvez porque o foco de atenção dos eleitores tenha se deslocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

É o que mostra a pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nessa segunda-feira: ambos atravessaram as últimas semanas sob intenso desgaste político, mas nenhum deles sofreu abalo eleitoral significativo. Ao contrário, os números indicam que ambos permanecem sustentados por bases eleitorais altamente consolidadas, tornando a disputa cada vez mais dependente da conquista do eleitorado moderado e da transferência dos votos dos candidatos hoje situados na chamada terceira via.

Lógica do 2º prejudica lulismo na disputa pelo Senado, por César Felício

Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Michelle traz à tona fenda que põe em xeque o bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca

O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante para o bolsonarismo.

Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade, são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).

O reino dividido, por Thomas Traumann

O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Clarice Herzog, a heroína da memória, por Míriam Leitão

O Globo

Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos

Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona Zora, chegar para o enterro do filho único.

Em causa própria, por Merval Pereira

O Globo

Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

O caso dos penduricalhos do Judiciário é exemplar de como não é possível ter credibilidade diante da opinião pública se mudamos de posição a cada pressão recebida, especialmente quando essa pressão vem da própria corporação. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino tem se destacado por decisões que tocam em feridas abertas em nossa vida institucional, como as emendas parlamentares ou os penduricalhos. Parecia à opinião pública um ministro independente de panelinhas, mas, à medida que o tempo passa, mais e mais ele vai se inserindo no grupo capitaneado pelo decano Gilmar Mendes.

A decisão de “flexibilizar” sua decisão inicial que restringia duramente os penduricalhos do Judiciário vem com uma pitada de corporativismo. Quatro dos ministros do Supremo votaram em conjunto, inclusive o próprio Dino, contra sua decisão anterior. Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

Reflexos da Copa no jogo eleitoral, por Fernando Gabeira

O Globo

Estamos cercados por um clima de guerra, pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.

Professor bem preparado para quê? Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

‘As plataformas retiram dos professores a essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas’

Dados sobre o ensino no País animam e preocupam. São uma espécie de resumo das contradições de um país que cresce sem romper sua imensa desigualdade social. Muitos índices de educação dos jovens melhoraram na última década, mas mais de 7 milhões de jovens não concluíram o ensino médio e estão fora das escolas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de alunos cresce, mas milhões deles concluem o ciclo básico com conhecimentos inferiores aos considerados necessários para agir com autonomia, espírito crítico e iniciativa num mundo em rápidas transformações tecnológicas. Superar essa deficiência exige professores adequadamente preparados. É desolador, no entanto, constatar que são escassas as políticas públicas com esse objetivo e, pior, observar que certas ações do poder público enfraquecem o papel do professor, o que pode comprometer o aprendizado e o futuro do aluno.

A Copa derrotou a polarização, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O desânimo foi substituído por festa e otimismo, com o amarelo dominando estádios lá e cidades cá

Sim, a seleção do Brasil venceu até aqui não só os adversários, mas também a exaustiva polarização política, devolvendo a camisa e as cores verde e amarela para todos os brasileiros. Chegamos às oitavas de final com os estádios americanos e as cidades do nosso país dominados pelo amarelo vibrante, que é de nós todos e ninguém tasca.

A Copa de 2026 pegou o Brasil e os brasileiros desanimados com Ancelotti, a seleção, a saúde do Neymar, as ausências de Endrick, tudo isso em meio a uma montanha de denúncias de corrupção e muita gente temerosa de usar a nossa camisa para não ser confundida com um lado da polarização.

O puro-sanguismo bolsonarista e Michelle, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É preciso lembrar que a direita brasileira está no pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato do bolsonarismo, o cavalo puro sangue designado a encarnar o pai, é produto sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter – reafirmar – a hegemonia sobre essa propriedade.

Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai, conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro

Flávio e Michelle se degladiam hoje pela liderança em 2030, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Senador venceu batalha dos vídeos, mas não condena ataques contra mulheres

Ex-primeira-dama está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido

O Brasil continuará a ter os olhos voltados para o Mundial. Mas no país evangélico a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro continua. O senador saiu por cima do incidente dos vídeos, mas os dois parecem dispostos a sacrificar 2026 pela liderança do PL em 2030.

Para quem não acompanhou essa partida de xadrez eleitoral: na quarta-feira (23), quando o país se acomodava no sofá para assistir à partida entre Brasil e Escócia, a ex-primeira-dama publicou dois vídeos criticando o enteado e dizendo ser ele quem abdicou do apoio dela.

A resposta da pré-campanha de Flávio foi notável do ponto de vista da comunicação e da coordenação. Primeiro, publicou um vídeo defendendo que o momento era de apoiar a seleção. Ganhou tempo. Na quinta-feira (24), sua resposta foi curta e precisa.

Barreira mnemônica, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio para as democracias

Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a tarefa fica bem mais difícil

Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia. Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir seus impactos.

Figura do Diabo aprimorou o processo criativo de Guimarães Rosa, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo e depois escrevo, revelou o escritor

'Grande Sertão: Veredas' se valeu de conversas com vaqueiros e da leitura de Goethe

O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo: