domingo, 5 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta da dívida no governo Lula é uma aberração

Por O Globo

Previsão é que ela atinja 84% do PIB até o fim do ano, 12 pontos além do nível registrado no início do mandato

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assessores palacianos descrevem os críticos do crescimento galopante da dívida pública como alarmistas histéricos. Afinal, argumentam eles, não é apenas no Brasil que o endividamento tem aumentado. Usando análises e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), dizem que a alta em todo o terceiro mandato de Lula ficará abaixo da média dos países emergentes e de renda média. Na quinta-feira, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que liderou o Tesouro nos últimos três anos, descreveu o debate como “superficial”. A equipe econômica esquece, porém, a situação sui generis do Brasil. Entre as grandes economias emergentes, o país tem a segunda maior dívida como proporção do PIB, atrás apenas da China. Mesmo que outros países tivessem margem para dever mais, o Brasil já estava no limite antes de o atual governo começar. E só piorou depois.

O mundo Gilead do Bolsonarismo, por Míriam Leitão

O Globo

A fala contra a mulher não é falácia de um fanfarrão para viralizar. Faz parte de um discurso da ultradireita que cresce mundialmente

Não é apenas uma bizarrice de um fanfarrão grosseiro. É um movimento perigoso pela eliminação do direito do voto da mulher que tem crescido na extrema direita. Há projetos que restringem as garantias civis das mulheres. Eles estão falando sério, por mais que pareça escalafobético. Algumas propostas avançam. Sim, a extrema direita gostaria de impor a nós esta ruína civilizatória.

O que Paulo Figueiredo disse não deve ser entendido como uma grosseria individual e fortuita. Não é apenas uma “treta” condenada a desaparecer quando algo mais absurdo viralizar. Na verdade, falou por uma corrente de pensamento que acredita na inferioridade da mulher.

Uma nova barreira entre Flávio Bolsonaro e o voto feminino, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao dizer que 'mulher vota mal pra c...', neto de ditador escancarou o que a turma pensa

No dia em que Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher, os homens é que dominaram o microfone. O primeiro a discursar foi Jair Bolsonaro. Depois falaram mais quatro engravatados: Valdemar Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta.

Em participação por vídeo, o capitão exaltou o crescimento do partido, mas ignorou os temas femininos. Valdemar leu uma longa nominata, e Côrtes cometeu uma gafe ao apresentar a mulher de um deputado gaúcho como sua filha.

Sem medo de soar machista, Jorginho se queixou do “sacrifício” e do “sofrimento” de ter que encontrar nomes para preencher a cota de 30% de candidaturas femininas. “Nós precisamos aumentar essa chorumela de que sempre falta mulher para disputarem” (sic), afirmou.

Dublê de pastor e senador, Malta aproveitou o evento para provocar a comunidade trans. “Mulher é mais forte porque nasceu com uma peça a mais. Mulher tem útero”, bradou, antes de dizer que a distinção não poderia ser superada “nem com cirurgia nem com ideologia”.

Freud explica, por Merval Pereira

O Globo

Casos de corrupção no Brasil repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master.

Sempre me causou espanto os casos de criminosos que guardam provas contra si que acabam sendo descobertas pela Polícia, algumas antigas que resolvem questões atuais. Refiro-me especialmente aos casos de corrupção no Brasil, que repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master. Mesmo sem a abrangência dos casos de repercussão nacional, os acontecidos recentemente no Rio de Janeiro são provas disso. Foi encontrada na mesinha de cabeceira de um bicheiro a lista de políticos que ele subornava, com as quantias devidas.

Casa Branca vira máquina de fazer dinheiro, por Dorrit Harazim

O Globo

Capítulo das finanças público-privadas da era Trump compõe um dos retratos mais vergonhosos dos 250 anos de independência da nação americana

Tem uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho entre Detroit, no estado americano de Michigan, e Windsor, na província canadense de Ontário, tem uma ponte. Ou melhor, tem duas.

Uma delas está estalando de nova, aguardando inauguração. É a maior ponte estaiada da América do Norte, projetada para durar mais de cem anos. Tem 2,5km de comprimento, seis faixas para tráfego transfronteiriço, uma infraestrutura aduaneira ultramoderna e um caminho multiúso de 3,5m de largura, seguro e aprazível, para pedestres e ciclistas. Integralmente financiada pelo governo do Canadá (US$ 5 bilhões), terá pedágio com receita dividida entre o país vizinho e Michigan.

Benjamin Franklin perdeu a vez, por Elio Gaspari

O Globo

Declaração da Independência dos Estados Unidos da América completou 250 anos no sábado

Ontem, há 250 anos, o Ocidente começou a percorrer uma de suas maiores mudanças. Reunidos na pequena cidade de Filadélfia (menos de 40 mil habitantes, como o Rio, enquanto Beijing tinha 1 milhão), representantes das 13 colônias inglesas da América do Norte assinaram a Declaração da Independência de um país que viria a se chamar Estados Unidos da América. Naqueles dias, não sabiam quantos eram, como ganhavam a vida, nem se poderiam ser autossuficientes. Eram mais ricos, mais altos que os europeus (de 5 a 8 centímetros) e mais férteis.

Hoje esse é um texto sacralizado, mas só começou a ser festejado depois de 1812.

Mais de 20 anos depois, em 1789, um volume com uma coletânea de documentos dos “americanos ingleses” foi encontrado com o alferes Joaquim José da Silva Xavier e encorpou as provas da militância sediciosa que levaria Tiradentes ao patíbulo.

Uma história do jazz, a decadência da política e a blindagem eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reeleição

No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.

As contas e a ‘reputação ilibada’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na Câmara, Jhonatan de Jesus desviava emendas e, no TCU, defende o Master. Alguma surpresa?

O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que já embute a resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente, do Tribunal de Contas da União (TCU)?

Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente a favor dos interesses de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central. O que, aliás, pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.

Trump e a apropriação de um marco, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O aniversário da independência dos Estados Unidos costumava ser um momento de refletir sobre o destino comum dos americanos, acima das disputas políticas e diferenças culturais, que sempre existiram. Mas este 4 de Julho prova que os americanos não são mais capazes de fazer qualquer coisa de alcance nacional acima dessas divisões.

As celebrações foram inteiramente truncadas pelo ímpeto do presidente Donald Trump de vinculá-las à sua figura pessoal e pela frustração e resistência dos americanos em face desse propósito.

Quando a organização do Freedom 250 anunciou em maio a primeira leva de nove artistas para a série de shows da Great American State Fair, no National Mall, cinco deles desistiram em menos de 48 horas, e outros cancelaram em seguida. A justificativa: a percepção de que não seria uma celebração do país, mas de Trump.

• Promessa difícil de cumprir, por Ricardo Della Coletta

Folha de S. Paulo

O problema de enviar um documento ao governo dos EUA com promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas

Libertar o Brasil das 'amarras do Mercosul' é mais difícil do que o senador sugere no texto enviado ao governo Trump

Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro perceberá que o problema de enviar um documento ao governo dos EUA com uma série de promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas.

Não foram poucas as promessas (ou paths to remediation) que Flávio listou no texto endereçado ao USTR —o Escritório do Representante de Comércio dos EUA— no qual argumenta que o tarifaço beneficia Lula e sugere o adiamento de qualquer medida contra o Brasil para depois das eleições.

Entre elas, uma desperta sensação de déjà vu: libertar o Brasil das "amarras do Mercosul".

Por que não dizer que o escândalo do Master é de direita? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A grande mídia tem medo de ser chamada de esquerdista

Não é mais questão de saber que direitista está envolvido, mas de saber qual não está

Como teria sido uma boa cobertura de mídia sobre o escândalo Master?

A resposta óbvia é: teria mostrado a absoluta predominância de direitistas entre os envolvidos. Por qualquer critério que se queira adotar: o número de envolvidos, o total de dinheiro desviado para o Master por cada lado, o total de dinheiro recebido do Master por cada lado, a importância dos envolvidos dentro de seu próprio campo, o quanto cada lado de fato fez para salvar o Master.

E teria deixado claro: esses são os dados até agora. Se outros dados aparecerem, revisaremos nosso diagnóstico.

Não foi isso que aconteceu.

Como dar sentido ao mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz dicas para interpretar melhor as estatísticas com que somos bombardeados

Autor é didático e critica pontos fracos da ciência, como baixa reprodutibilidade de experimentos

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.

O populismo virou endemia, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Direita demagógica sofreu desgaste e trocou virulência por persistência

Excesso de vetos a poderes eleitos e desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros

O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.

De terrível novidade converteu-se num conviva habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.

Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.

As favas mal contadas, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior

Morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".

O colunismo social que ilustra o Brasil podre, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime financeiro, corruptos, facções ou celebridades se misturam na fofoca das redes

O país parece não se revoltar com a infiltração do crime 'comum' por toda parte

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.