domingo, 9 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos não podem continuar a ignorar crise fiscal

Por O Globo

Em atitude irresponsável e acintosa, Lula e Flávio agem como avestruzes fingindo que nada de grave acontece

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido um desastre para os cofres públicos. Em junho, a dívida pública chegou a 81,9% do PIB, maior patamar desde a pandemia. Ao longo dos quatro anos de governo, deverá crescer 10 pontos percentuais. Quanto mais aumenta, maior a insegurança sobre a capacidade do Tesouro de pagá-la e maiores as taxas exigidas para que tome no mercado novos empréstimos e consiga honrar seus compromissos. Sem mudança de rumo, a dívida continuará a aumentar em ritmo insustentável e poderá em breve levar o país à situação trágica que mistura estagnação econômica e inflação alta. Diante disso, seria de esperar que a iminência do abismo fiscal fosse um dos principais temas da campanha eleitoral. Mas não. Até agora, os dois líderes nas pesquisas — Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — agem como avestruzes, fingindo que nada de muito grave acontece. É uma atitude irresponsável perante o risco e acintosa diante do eleitor.

A reconquista do futuro, por Sergio Fausto *

Revista Piauí, nº 239 – agosto, 2026

A necessidade de líderes com “uma certa ideia do Brasil”

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.

Emendas parlamentares transformaram o Congresso em casa de negócios, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Muitas vezes não se consegue reconstituir o caminho do dinheiro público, identificar o responsável por sua destinação ou comprovar o benefício gerado

O crescimento vertiginoso das emendas parlamentares impositivas produziu uma mudança estrutural nas relações entre o Executivo e o Legislativo e, sobretudo, nas próprias disputas eleitorais. Concebidas originalmente para permitir que deputados e senadores atendessem demandas legítimas de estados e municípios, com essas emendas o Congresso abocanhou parcelas crescentes do orçamento de investimentos.

As emendas passaram a movimentar dezenas de bilhões de reais sem a correspondente comprovação da correta execução financeira, da conclusão das obras e dos resultados efetivamente entregues à população. Esse descompasso fortalece os parlamentares com mandato, blinda o Congresso de renovação e converte o Orçamento da União em instrumento de reprodução do poder político.

Ataque e contra-ataque, por Merval Pereira

O Globo

Os dois candidatos mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno.

Dentro de uma semana exata começa oficialmente a campanha eleitoral brasileira, o que não significa que os candidatos estejam parados. Já houve movimentos que indicam tendências, como a de não participar de debates e entrevistas por parte dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de opinião, o presidente Lula e o senador Flavio Bolsonaro. Os mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições, exatamente esses não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno. Os dois têm dificuldades próprias, a começar pelos filhos.

Eleição nova e a velha sombra, por Míriam Leitão

O Globo

O Brasil perde novamente a oportunidade de discutir seu futuro por causa de candidatos que ameaçam com retrocesso e sombra autoritária

Na eleição de 2022, o principal ponto era enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se houve ou não tentativa de golpe.

Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.

No país da emenda pix, basta um clique para desviar dinheiro público, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio Dino apontou "estado de inconstitucionalidade" ao ordenar novas investigações

O apelido surgiu em 2021. A transferência especial virou emenda pix, um atalho criado por parlamentares para despejar dinheiro em seus redutos eleitorais. O instrumento abriu uma via rápida do cofre da União para estados e municípios. Os recursos passaram a ser transferidos num clique, sem exigência de projeto, convênio ou licitação.

Em julho, uma operação da Polícia Federal expôs o funcionamento da engrenagem. Os agentes cumpriram mandados em quatro estados. Apreenderam R$ 320 mil em espécie, além de anotações sobre desvios e favorecimentos.

De Ed Morgan@edu para Marco Rubio, por Elio Gaspari

O Globo

Crises alimentadas pelo secretário de Estado americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem resolvidas

Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:

Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri de lá, a batida daqui.

Sou um diplomata da velha escola, Harvard, colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui estou sepultado.

Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.

O ‘comunista’ de Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Pelo receituário do presidente dos EUA, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

Eleição entre pressão externa e urgência interna, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores

Donald Trump é o desafio diplomático mais duro e mais importante para o governo brasileiro neste momento. Tendo fracassado, até agora, na ambição de ser imperador do mundo, o presidente dos Estados Unidos tenta pelo menos comandar as Américas, desde o território dos ursos polares até o dos pinguins, no extremo meridional. Conquistado o apoio da Casa Rosada, falta submeter o Palácio do Planalto, sede da Presidência do maior país sulamericano. O governo colombiano migrou para a direita, acompanhando os vizinhos de fala castelhana, e quase toda a região combina com o azul de Javier Milei.

Se bastasse dizer não ao governante americano, seria muito mais confortável a situação do presidente brasileiro e de sua equipe. Mas o jogo é mais complicado. O Brasil exportou para os Estados Unidos, até julho, produtos no valor de US$ 20,95 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Importou um pouco mais e acumulou um pequeno déficit, US$ 2,27 bilhões, dado incompatível com o discurso protecionista do presidente Trump.

Sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.

Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.

Os poderosos nunca aprendem, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Risco de André Mendonça é dar com os burros n’água, como Sérgio Moro e Alexandre de Moraes

Não se espere que o ministro do STF André Mendonça se envolva em contratos de R$ 130 milhões com quem quer que seja, mas o risco dele é seguir os passos de Alexandre de Moraes na concentração de poderes, decisões autoritárias e litígios com órgãos e agentes que deveriam ser, antes de tudo, parceiros.

Moraes repetiu o tombo histórico de Sérgio Moro e agora é Mendonça quem tem de evitar sofrer o tombo de Moro e do próprio Moraes, que foram do céu ao inferno. O poder sobe à cabeça, mas é efêmero. Os poderosos nunca aprendem.

Assim como Moraes chegou a ser relator de 21 dos 37 inquéritos do STF, no início de 2025, incluindo os de maior impacto e que atingiam Jair Bolsonaro e seu governo, Mendonça é hoje responsável pelos explosivos Banco Master e INSS, resvalando para Lulinha, filho do presidente Lula.

Lula agiu como se o Estado fosse ele, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O governo brasileiro rebaixou o status das relações diplomáticas com dois de seus principais parceiros, Estados Unidos e Argentina. As hostilidades partiram deles. O Brasil poderia ter manifestado sua reprovação de forma a estancar as crises. Mas preferiu agravá-la, por um cálculo eleitoral, com consequências prejudiciais para o País.

O Departamento de Estado anunciou, no dia 1.º de junho, a designação do deputado republicano Daniel Perez para o posto de embaixador em Brasília. Fez isso sem antes consultar o governo brasileiro, como prevê a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

Tesouraço de Flávio fica entre a vassourinha de Jânio e a motosserra de Milei, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Em público, Bolsonaro filho promete só demagogias e tesourinha em gastos e impostos

Promessas de campanha ou são estelionato eleitoral ou ameaçam crise como a de 2015

Na semana passada, Flávio Bolsonaro (PL) pôs na lapela um broche em forma de tesoura. É um símbolo do "tesouraço", que pode vir a ser um mote da campanha dele, promessa de corte de gasto público, de imposto e de burocracias e intervenções do governo.

A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.

Mentiras de Nikolas sobre Fauci são boa oportunidade para lembrar de Bolsonaro na pandemia, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras

Foram dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo", esse também termina com "era tudo mentira".

Livro traça uma radiografia da tradição anti-igualitária nos EUA, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais

Encarnação mais recente é a dos bilionários do Vale do Silício

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essas belas palavras estão na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas entre o que se escreve e o que se pratica pode haver um abismo. O princípio fortemente igualitário que animou a revolução americana não se aplicava a negros, por exemplo. A escravidão só foi oficialmente banida em 1865.

As caras impolíticas do poder, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Grotesco generalizado em Trump, Milei, Espriella, Bukele e seus acólitos naturaliza-se

Abre-se assim o portão a candidaturas antissistema; só que isso é uma astúcia do próprio sistema para se perpetuar

Count Binface ("Conde Cara de Lata de Lixo") é o nome adotado pelo comediante Jon Harvey, candidato ao Parlamento britânico, com ascensão tão meteórica na corrida eleitoral que ameaça a vaga distrital disputada por Nigel Farage, político de destaque da direita. O nome é literal: Harvey catalisa a atenção pública com uma espécie de capacete em forma de lata de lixo, que lhe cobre inteiramente o rosto. Estapafúrdias são também suas propostas: proibir que se coma pipoca nos cinemas, tabelar sorvetes e outras.

Machismo enrustido contraria boas intenções dos candidatos, Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É no detalhe, na palavra impensada, que a discriminação se revela em molde de pílula dourada

Ainda que por atenção à maioria, políticos precisam aprender a falar direito com o eleitorado feminino

O machismo é um bicho incontrolável que se agarra às mentes e, mesmo quando adormecido por vontades conscientes, faz das suas ao acordar num repente para avisar que tem vida própria.

Um problema para os candidatos a presidente num cenário de prevalência inequívoca do eleitorado feminino. Eles até se esforçam, fazem gestos de reverência, tentam se mostrar vigilantes, mas não escapam da sanha do bicho.

Caracu na Jules Rimet, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A taça da Copa do Mundo era uma taça de verdade, para se tomar nela o champanha da vitória

Quando o Brasil a ganhou pela primeira vez, ela viajou pelo país e levou todo tipo de bebida

Na sexta-feira (7), falei de uma doce querela da Copa do Mundo da Suécia, em 1958: quem teria gritado para Bellini levantar a taça que o Brasil acabara de conquistar? E por que levantá-la? Porque Bellini estava num palanque e, quando a levou à altura do peito, os fotógrafos brasileiros, espremidos lá embaixo entre seus enormes colegas europeus, não a estavam vendo. Ao ouvir o grito, Bellini então a ergueu acima da cabeça e consagrou o gesto. Dois deles disputavam a autoria do grito: Luiz Carlos Barreto, de O Cruzeiro, e Jader Neves, da Manchete. Já apostei em Jader, mas é possível que todos tenham gritado ao mesmo tempo.

O verdadeiro ponto fraco dos democratas, por Fareed Zakaria

Washington Post /O Estado de S. Paulo

Esquerda tem a paixão, mas centro detém os votos de que o partido precisa para vencer as eleições

Fragilidades estão nas questões sociais e culturais como criminalidade e a agenda ‘woke’

Os democratas estão diante de um dilema, e as primárias para o Senado no Estado de Michigan ilustraram isso perfeitamente. Abdul El-Sayed, o carismático progressista, derrotou a deputada Haley Stevens, a moderada apoiada pela cúpula do partido. A energia estava, sem dúvida, do lado de El-Sayed. Mas uma análise do Washington Post revela que seu apoio se concentrou nos condados com maior nível de escolaridade e nas cidades universitárias do Estado; Stevens teve melhor desempenho em muitas áreas rurais e de baixa renda. O dilema: a esquerda tem a paixão, mas o centro ainda detém os votos de que os democratas precisam para vencer nas eleições gerais.

Americanos, dívidas e eleição, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, eo próximo governo terá que enfrentar o problema das contas nacionais para que o país volte a conviver com taxas de juros civilizadas

As pressões norte-americanas contra o governo brasileiro, nas vésperas da eleição presidencial, não chegam a constituir surpresa. Trump e sua turma não gostam de Lula e seus auxiliares. As ações assustam pela falta de sutileza e pelo primarismo demonstrado pelas autoridades de Washington. A briga por intermédio de meios diplomáticos confunde embaixadores porque os argumentos são inventados e não resistem a exame mais preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez ainda não foi aceito por Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há prazo para admitir embaixador estrangeiro.

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos. Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada, sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua economia funcionando.

O martírio cubano no centenário de Fidel Castro, por Roberto Amaral*

Ainda saboreávamos o Ano-Novo — era o réveillon de 1958-1959 — quando nos chegou, em Fortaleza, a notícia de que caíra, em Cuba, a ditadura de Fulgêncio Batista, de quem pouca ou nenhuma notícia tínhamos. O fato era este, tão só, mas sugeria algo de inusitado: não se tratava de mais uma quartelada dentre tantas que faziam e fazem a história do poder da classe dominante latino-americana, interferindo na governança para que tudo permanecesse como dantes no castelo de Abrantes: uma periódica recomposição oligárquica.

Desta feita, surpreendentemente, nos era dado conhecer uma insurgência de base popular que, descendo de Sierra Maestra, encontrava a consagração em Havana. Entre os líderes não se contavam nem sargentos, nem coronéis, nem generais. Este era seu caráter inusitado, principalmente no Caribe e na América Central dos anos 1950-60, uma virtual fazenda da United Fruit Company.