Flávio Bolsonaro, no conteúdo, se mostrou cru e pouco crível em entrevista na TV Globo, Por Vera Magalhães

O Globo

Na forma, no entanto, candidato do PL à Presidência da República soou palatável e menos inseguro que em momentos menos roteirizados

Flávio Bolsonaro adotou um script de bom moço para se apresentar na TV Globo. Soando completamente ensaiado num minucioso media training, começou se solidarizando com a entrevistadora Renata Vasconcellos pelo que chamou de “grosseria” do presidente Lula na véspera.

Retratou-se sobre as dúvidas que levantou sobre as urnas eletrônicas, repreendeu o irmão Eduardo por ter comemorado o primeiro tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e se esquivou de explicar o destino dos milhões que pediu, cobrou e obteve de Daniel Vorcaro, banqueiro que perpetrou a fraude do Master, sobretudo a parcela paga nos EUA.

No lugar de explicar a relação com Vorcaro, tentou inverter a situação e tecer ilações sobre uma reunião em que Lula, acompanhado do hoje presidente do BC Gabriel Galípolo, recebeu Vorcaro fora da agenda. Segundo ele, nesse encontro que chamou de clandestino Lula teria prometido que, quando Galípolo assumisse o BC, as investigações sobre o Master cessariam —o que não aconteceu; pelo contrário, foi na gestão atual que o banco foi liquidado.

Ambiente digital enfim desperta para a proteção a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Está na lei que as empresas de tecnologia precisam conceber produtos e serviços que sejam seguros para crianças e adolescentes

É verdade que o Brasil, por omissão dolosa do Congresso Nacional, não tem regulação para plataformas digitais. É verdade que o Supremo Tribunal Federal (STF), provocado, julgou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), por não oferecer proteção suficiente nem às pessoas nem à democracia. E impôs às big techs o dever de evitar um punhado de práticas criminosas, incluindo terrorismo, discriminação e discurso de ódio, crimes de gênero contra mulheres, atos antidemocráticos. Mas, no que diz respeito a crianças e adolescentes, o ambiente digital já não é nem território livre, nem refém do Judiciário que legisla.

Quando a corrupção faz a diferença, por Thaís Oyama

O Globo

Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde

É mais uma constatação desoladora do que uma coincidência que a primeira pergunta feita ao presidente Lula na sabatina da TV Globo tenha sido sobre corrupção: o mesmo assunto que abriu a entrevista do petista, na mesma emissora, em 2022. Lá, William Bonner perguntou ao então candidato como convenceria o eleitor de que escândalos como o petrolão, ainda fresco, não se repetiriam. Em sua resposta, Lula gabou-se de ter dado liberdade às instituições para investigar o caso, garantiu que quem tivesse cometido erros seria punido e invocou a injustiça de que acredita ter sido alvo na Lava-Jato para defender o benefício da dúvida aos investigados.

Entrevista | Economia vai decidir eleição, e não o caso Lulinha, diz fundador de instituto de pesquisa

Por Mariana Schreiber - BBC News Brasil

As investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, não devem ser decisivas na disputa pela Presidência entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), acredita Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia.

Na sua visão, será a economia que influenciará o voto de cerca de 5 milhões de pessoas que definirão a eleição presidencial. Esse é o grupo que ainda não decidiu seu voto e pode optar tanto por Lula como por Flávio Bolsonaro.

Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno da eleição, contra 34% de Flávio Bolsonaro (PL). Em um segundo turno contra o senador, Lula teria 45% das intenções, contra 43%.

"Quando olhamos os 3% a 4% dos eleitores que achamos que vão decidir a eleição, eles já consideram basicamente todos os lados corruptos e não é isso que vai ser o fator decisivo. Então eu acho que [a investigação sobre suposta corrupção] é mais um tema de 'bolhas' do que um tema relevante para a eleição", disse, em entrevista à BBC News Brasil.

Lulinha é investigado em três inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) neste ano, que apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal. Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira (27/08), Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha e prometeu que ele "não será protegido" por ser seu filho.

Moura nota que esse grupo de indecisos é formado principalmente por mulheres, das áreas metropolitanas do Sudeste, com renda de dois a cinco salários mínimos, mas que estão endividadas. Tem também, em sua maioria, perfil conservador e frequentam igrejas.

"As pessoas têm atividade econômica, têm duas ou três fontes de renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no final do mês. Tem um componente do custo da dívida, tem um componente de uma educação financeira bastante básica ou inexistente, e também tem agora o componente de bets [apostas esportivas]. Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a questão das bets. É um tema de muita dor", ressalta.

"E [essas eleitoras] são muito apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um efeito prático: a decisão de voto é muito lá na frente [próximo ao dia da votação]", continua.

As pesquisas de intenção de voto apontam, no momento, para um segundo turno entre Lula e Flávio. Para Moura, no entanto, alguns fatores aumentam as chances de que o pleito seja decidido já na votação de 4 de outubro.

Na sua visão, a falta de uma terceira via forte pode levar o eleitor que não gostaria de votar em um dos dois primeiros candidatos a "antecipar o segundo turno" e optar logo entre Lula e Flávio no primeiro dia de votação.

Ele diz que o candidato do PL "ainda tem mais fôlego para crescer" e deve ser beneficiado no primeiro turno pelo "antipetismo de chegada", que ocorre quando o eleitor desiste de votar em alguém de sua preferência e faz voto útil no candidato melhor posicionado para ganhar do PT.

Moura destaca a resiliência das intenções de voto de Flávio após duas crises: a revelação de que o senador pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro dezenas de milhões de reais para financiar um filme em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a briga pública — agora superada — com a primeira dama Michelle Bolsonaro (PL).

"Ele passou por duas crises graves na campanha e os números dele são os números mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido".

Confira a seguir os destaques da entrevista

Eleições e ajuste fiscal, por Marcus Pestana

Muitas são as tarefas: melhorar a infraestrutura, diminuir a carga tributária, derrubar as taxas de juros, combater a burocracia, estimular o avanço tecnológico e a inovação, dar um salto de qualidade no aprendizado dos jovens e crianças, qualificar o capital humano, acelerar a integração às cadeias produtivas e comerciais globais, garantir segurança jurídica e estabilidade legal e regulatória

Mas, à frente de todas as metas, há um nó górdio a ser desatado: o desequilíbrio fiscal. Dificilmente os candidatos à presidência detalharão seus planos para lidar com um déficit primário (o que o governo gasta mais do que arrecada, fora juros) que será, em 2026, de 0,4% ou 0,5% do PIB, ou seja, um buraco no orçamento do governo de algo em torno de 60 bilhões de reais. O futuro presidente da República tem inexoravelmente um encontro marcado com o ajuste fiscal no início de 2027. O atual rumo é insustentável.

Economia e democracia, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O credo do novo liberalismo, como o do velho, reza que é tempo de abandonar a pretensão de influir no ânimo dos capitalistas 

Os debates eleitorais sugerem uma tensão permanente nas relações entre a economia e a democracia. Os candidatos inclinados à direita, a despeito de suas convicções autoritárias, acham possível reduzir essa tensão por meio do encolhimento do Estado e da redução de suas funções, despolitizando a economia. Estamos, assim, diante de um paradoxo que postula a convivência entre liberalismo econômico e autocracia política.

Hora de levantar trincheiras, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

A campanha de Lula gasta muito tempo pedindo desculpas ao setor financeiro

É desproporcional o movimento do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para “negociar” com o mercado financeiro os termos de seu programa de governo. Lula está longe de ser um desconhecido e não tem a obrigação de se apresentar a cada pleito e pedir o aval para um novo mandato. Nesse momento ele disputa um quarto – e já terminando o terceiro, vai devolver um país muito melhor do que o que encontrou no início do governo, como fez no primeiro e no segundo mandatos. As suas três gestões foram marcadas por estabilidade e previsibilidade econômica. O País cresceu e a entidade “mercado” lucrou muito com isso. Um Banco Central independente do governo e muito afinado com o capital financeiro mantém, e manteve antes, o País curvado a taxas de juro estratosféricas que aumentaram a riqueza de milionários e fizeram novos deles ao longo do tempo.

O filho protegido, por André Barrocal

CartaCapital

Citado em um esquema nos Correios, Flávio Bolsonaro contou com a leniência de Aras e Nunes Marques

Fábio Luís da Silva continua uma pedra no sapato da campanha à reeleição do pai. Além de dizer que o filho terá de pagar se tiver culpa por relações próximas demais com uma lobista, Lula salienta que o principal rival na eleição, Flávio Bolsonaro, foi protegido pelo governo do pai contra investigações. O escudo mais famoso apareceu no caso das “rachadinhas”, motivo de Jair Bolsonaro ter demitido o chefe da Polícia Federal em 2020. Há mais um caso no qual as autoridades deixaram Flávio em paz durante o mandato do capitão. Um inquérito da PF sobre ­falcatruas­ nos Correios esbarrou em citações a Flávio, em suspeitas de que ele havia colaborado com a turma do esquema e de que teria recebido – e gostado – de uma proposta de suborno de 1 milhão de reais. Mas nem o delegado que conduziu o inquérito no estado mais bolsonarista do Brasil, nem o procurador-geral da República indicado por Bolsonaro, nem um juiz nomeado pelo capitão para o Supremo Tribunal Federal acharam importante investigar o “zero um”. Uma juíza federal de Florianópolis nadou sozinha contra a maré… Em vão.

O velho padrão Globo de entrevistar Lula, por Eliara Santana*

CartaCapital

‘JN’ transformou a sabatina em um interrogatório marcado por constrangimento e ausências deliberadas

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.

O espetáculo dos vazamentos, por Pedro Serrano

CartaCapital

Eles são sempre seletivos e visam interferir, não é de hoje, no processo eleitoral

Os vazamentos de dados sigilosos de investigações criminais banalizaram-se. Apenas para ficarmos nos eventos mais recentes, os casos Master e o relativo a Fábio Luís Lula da Silva são objeto de intenso vazamento de informações que deveriam ser sigilosas, bem como de cuidadoso tratamento.

O vazamento é, curiosamente, sempre seletivo. Constrói-se todo um raciocínio não com base em investigação que se tenha lido, em documentos que se tenha visto. Baseia-se, ao invés, em dado específico especialmente selecionado com determinado propósito, razão pela qual sempre levam a conclusões equivocadas. Passamos a discutir fatos com base em notícias oriundas de vazamentos seletivos. A discussão pública muitas vezes é paralela e distinta daquela que tramita nos autos e instâncias próprios.

Escola de escândalos, por Murillo de Aragão

Revista Veja

País depende de revelações e delações para escolher o presidente

A campanha de 2026 entra na fase decisiva sem favorito e com uma peculiaridade: em eleições normais, o indeciso decide pela economia ou pelo medo. O empate técnico entre Lula e Flávio apontado pela Quaest não revela apenas equilíbrio; revela paralisia. Ninguém transformou o descontentamento com a economia em adesão, e o mercado enxerga riscos fiscais semelhantes para qualquer vencedor. Juros altos, contas públicas em desordem e despesas obrigatórias que resistem a qualquer ajuste entraram no debate sem mudar o placar. Continuamos a depender de revelações e delações para escolher o presidente, o que diz mais sobre o estado do sistema político do que sobre candidatos.

Comida a prazo, por José Casado

Revista Veja  

No país dos juros obscenos, eleitores compram sanduíche e marmita no crediário

Todo mês 650000 brasileiros compram marmita ou sanduíche no crediário. Essa foi a média do iFood no primeiro semestre. É o triplo do que a empresa registrou no final do ano passado, quando começou a oferecer comida a prazo. Os clientes escolhem pagar na parcela”, em seis prestações com juros de 8,36%. Num exemplo, uma compra de 100 reais, com taxa de 20 reais pela entrega, tem custo final de 130 reais.

É evidência nova de problema antigo, a dependência crescente do crédito até para o essencial à sobrevivência. Indica uma corrosão persistente do poder de compra das pessoas — quase todos eleitores com renda mensal de até dois salários mínimos, equivalentes a 3242 reais. Mostra, também, os limites do consumo numa economia aprisionada na baixa renda.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O partido da mídia

Por CartaCapital

A real oposição entra na campanha

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Uma nova política para um novo mundo do trabalho, por Ivan Alves Filho*

Tenho buscado refletir sobre as mutações em curso no aparato produtivo. Com efeito, a automação, a robotização e a inteligência artificial apontam para uma profunda mudança no exercício do trabalho humano. O que está acontecendo, em parte, é uma reinvenção do próprio trabalho, com a formação de um proletariado digital, reunindo os trabalhadores do algoritmo. Este é um ponto central da realidade atual.