sábado, 29 de agosto de 2026

Entrevista | Economia vai decidir eleição, e não o caso Lulinha, diz fundador de instituto de pesquisa

Por Mariana Schreiber - BBC News Brasil

As investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, não devem ser decisivas na disputa pela Presidência entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), acredita Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia.

Na sua visão, será a economia que influenciará o voto de cerca de 5 milhões de pessoas que definirão a eleição presidencial. Esse é o grupo que ainda não decidiu seu voto e pode optar tanto por Lula como por Flávio Bolsonaro.

Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno da eleição, contra 34% de Flávio Bolsonaro (PL). Em um segundo turno contra o senador, Lula teria 45% das intenções, contra 43%.

"Quando olhamos os 3% a 4% dos eleitores que achamos que vão decidir a eleição, eles já consideram basicamente todos os lados corruptos e não é isso que vai ser o fator decisivo. Então eu acho que [a investigação sobre suposta corrupção] é mais um tema de 'bolhas' do que um tema relevante para a eleição", disse, em entrevista à BBC News Brasil.

Lulinha é investigado em três inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) neste ano, que apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal. Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira (27/08), Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha e prometeu que ele "não será protegido" por ser seu filho.

Moura nota que esse grupo de indecisos é formado principalmente por mulheres, das áreas metropolitanas do Sudeste, com renda de dois a cinco salários mínimos, mas que estão endividadas. Tem também, em sua maioria, perfil conservador e frequentam igrejas.

"As pessoas têm atividade econômica, têm duas ou três fontes de renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no final do mês. Tem um componente do custo da dívida, tem um componente de uma educação financeira bastante básica ou inexistente, e também tem agora o componente de bets [apostas esportivas]. Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a questão das bets. É um tema de muita dor", ressalta.

"E [essas eleitoras] são muito apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um efeito prático: a decisão de voto é muito lá na frente [próximo ao dia da votação]", continua.

As pesquisas de intenção de voto apontam, no momento, para um segundo turno entre Lula e Flávio. Para Moura, no entanto, alguns fatores aumentam as chances de que o pleito seja decidido já na votação de 4 de outubro.

Na sua visão, a falta de uma terceira via forte pode levar o eleitor que não gostaria de votar em um dos dois primeiros candidatos a "antecipar o segundo turno" e optar logo entre Lula e Flávio no primeiro dia de votação.

Ele diz que o candidato do PL "ainda tem mais fôlego para crescer" e deve ser beneficiado no primeiro turno pelo "antipetismo de chegada", que ocorre quando o eleitor desiste de votar em alguém de sua preferência e faz voto útil no candidato melhor posicionado para ganhar do PT.

Moura destaca a resiliência das intenções de voto de Flávio após duas crises: a revelação de que o senador pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro dezenas de milhões de reais para financiar um filme em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a briga pública — agora superada — com a primeira dama Michelle Bolsonaro (PL).

"Ele passou por duas crises graves na campanha e os números dele são os números mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido".

Confira a seguir os destaques da entrevista

Eleições e ajuste fiscal, por Marcus Pestana

Muitas são as tarefas: melhorar a infraestrutura, diminuir a carga tributária, derrubar as taxas de juros, combater a burocracia, estimular o avanço tecnológico e a inovação, dar um salto de qualidade no aprendizado dos jovens e crianças, qualificar o capital humano, acelerar a integração às cadeias produtivas e comerciais globais, garantir segurança jurídica e estabilidade legal e regulatória

Mas, à frente de todas as metas, há um nó górdio a ser desatado: o desequilíbrio fiscal. Dificilmente os candidatos à presidência detalharão seus planos para lidar com um déficit primário (o que o governo gasta mais do que arrecada, fora juros) que será, em 2026, de 0,4% ou 0,5% do PIB, ou seja, um buraco no orçamento do governo de algo em torno de 60 bilhões de reais. O futuro presidente da República tem inexoravelmente um encontro marcado com o ajuste fiscal no início de 2027. O atual rumo é insustentável.

Economia e democracia, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O credo do novo liberalismo, como o do velho, reza que é tempo de abandonar a pretensão de influir no ânimo dos capitalistas 

Os debates eleitorais sugerem uma tensão permanente nas relações entre a economia e a democracia. Os candidatos inclinados à direita, a despeito de suas convicções autoritárias, acham possível reduzir essa tensão por meio do encolhimento do Estado e da redução de suas funções, despolitizando a economia. Estamos, assim, diante de um paradoxo que postula a convivência entre liberalismo econômico e autocracia política.

Hora de levantar trincheiras, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

A campanha de Lula gasta muito tempo pedindo desculpas ao setor financeiro

É desproporcional o movimento do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para “negociar” com o mercado financeiro os termos de seu programa de governo. Lula está longe de ser um desconhecido e não tem a obrigação de se apresentar a cada pleito e pedir o aval para um novo mandato. Nesse momento ele disputa um quarto – e já terminando o terceiro, vai devolver um país muito melhor do que o que encontrou no início do governo, como fez no primeiro e no segundo mandatos. As suas três gestões foram marcadas por estabilidade e previsibilidade econômica. O País cresceu e a entidade “mercado” lucrou muito com isso. Um Banco Central independente do governo e muito afinado com o capital financeiro mantém, e manteve antes, o País curvado a taxas de juro estratosféricas que aumentaram a riqueza de milionários e fizeram novos deles ao longo do tempo.

O filho protegido, por André Barrocal

CartaCapital

Citado em um esquema nos Correios, Flávio Bolsonaro contou com a leniência de Aras e Nunes Marques

Fábio Luís da Silva continua uma pedra no sapato da campanha à reeleição do pai. Além de dizer que o filho terá de pagar se tiver culpa por relações próximas demais com uma lobista, Lula salienta que o principal rival na eleição, Flávio Bolsonaro, foi protegido pelo governo do pai contra investigações. O escudo mais famoso apareceu no caso das “rachadinhas”, motivo de Jair Bolsonaro ter demitido o chefe da Polícia Federal em 2020. Há mais um caso no qual as autoridades deixaram Flávio em paz durante o mandato do capitão. Um inquérito da PF sobre ­falcatruas­ nos Correios esbarrou em citações a Flávio, em suspeitas de que ele havia colaborado com a turma do esquema e de que teria recebido – e gostado – de uma proposta de suborno de 1 milhão de reais. Mas nem o delegado que conduziu o inquérito no estado mais bolsonarista do Brasil, nem o procurador-geral da República indicado por Bolsonaro, nem um juiz nomeado pelo capitão para o Supremo Tribunal Federal acharam importante investigar o “zero um”. Uma juíza federal de Florianópolis nadou sozinha contra a maré… Em vão.

O velho padrão Globo de entrevistar Lula, por Eliara Santana*

CartaCapital

‘JN’ transformou a sabatina em um interrogatório marcado por constrangimento e ausências deliberadas

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.

O espetáculo dos vazamentos, por Pedro Serrano

CartaCapital

Eles são sempre seletivos e visam interferir, não é de hoje, no processo eleitoral

Os vazamentos de dados sigilosos de investigações criminais banalizaram-se. Apenas para ficarmos nos eventos mais recentes, os casos Master e o relativo a Fábio Luís Lula da Silva são objeto de intenso vazamento de informações que deveriam ser sigilosas, bem como de cuidadoso tratamento.

O vazamento é, curiosamente, sempre seletivo. Constrói-se todo um raciocínio não com base em investigação que se tenha lido, em documentos que se tenha visto. Baseia-se, ao invés, em dado específico especialmente selecionado com determinado propósito, razão pela qual sempre levam a conclusões equivocadas. Passamos a discutir fatos com base em notícias oriundas de vazamentos seletivos. A discussão pública muitas vezes é paralela e distinta daquela que tramita nos autos e instâncias próprios.

Escola de escândalos, por Murillo de Aragão

Revista Veja

País depende de revelações e delações para escolher o presidente

A campanha de 2026 entra na fase decisiva sem favorito e com uma peculiaridade: em eleições normais, o indeciso decide pela economia ou pelo medo. O empate técnico entre Lula e Flávio apontado pela Quaest não revela apenas equilíbrio; revela paralisia. Ninguém transformou o descontentamento com a economia em adesão, e o mercado enxerga riscos fiscais semelhantes para qualquer vencedor. Juros altos, contas públicas em desordem e despesas obrigatórias que resistem a qualquer ajuste entraram no debate sem mudar o placar. Continuamos a depender de revelações e delações para escolher o presidente, o que diz mais sobre o estado do sistema político do que sobre candidatos.

Comida a prazo, por José Casado

Revista Veja  

No país dos juros obscenos, eleitores compram sanduíche e marmita no crediário

Todo mês 650000 brasileiros compram marmita ou sanduíche no crediário. Essa foi a média do iFood no primeiro semestre. É o triplo do que a empresa registrou no final do ano passado, quando começou a oferecer comida a prazo. Os clientes escolhem pagar na parcela”, em seis prestações com juros de 8,36%. Num exemplo, uma compra de 100 reais, com taxa de 20 reais pela entrega, tem custo final de 130 reais.

É evidência nova de problema antigo, a dependência crescente do crédito até para o essencial à sobrevivência. Indica uma corrosão persistente do poder de compra das pessoas — quase todos eleitores com renda mensal de até dois salários mínimos, equivalentes a 3242 reais. Mostra, também, os limites do consumo numa economia aprisionada na baixa renda.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O partido da mídia

Por CartaCapital

A real oposição entra na campanha

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Uma nova política para um novo mundo do trabalho, por Ivan Alves Filho*

Tenho buscado refletir sobre as mutações em curso no aparato produtivo. Com efeito, a automação, a robotização e a inteligência artificial apontam para uma profunda mudança no exercício do trabalho humano. O que está acontecendo, em parte, é uma reinvenção do próprio trabalho, com a formação de um proletariado digital, reunindo os trabalhadores do algoritmo. Este é um ponto central da realidade atual. 

Poesia | Vinicius de Moraes - Poética (II)

 

Música | Zeca Pagodinho - Exaustino