sábado, 5 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo vandalizado

Por CartaCapital

O ministro André Mendonça produz o seu 8 de Janeiro particular

Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

É preciso reconstruir, e não implodir a democracia, por Flávia Oliveira

O Globo

Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo

Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.

Moraes não nasceu ontem, por Thaís Oyama

O Globo

O poder do ministro cresceu num ambiente em que cada heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade

Exposto em conversas indefensáveis com o hoje presidiário Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes sacou do coldre o inquérito das fake news e apontou-o para a cabeça do seu colega de Corte, André Mendonça, mergulhando o Supremo numa crise nunca vista. Ministros do STF se disseram perplexos. Democratas se abanaram. O presidente Lula apressou-se em afetar indignação.

Ninguém duvida de que a crise é abissal. Mas tanta surpresa não se justifica. Alexandre de Moraes não acordou um dia transformado em Alexandre de Moraes. Tampouco virou sozinho o que é.

Em momentos de crise, a soberba é má conselheira, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

É fundamental fortalecer o colegiado do STF em detrimento de seus membros

E os mandatos na corte não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas.

A autoridade do tribunal sempre foi contestada por setores autoritários da vida brasileira, que desrespeitaram suas decisões, violaram suas prerrogativas, aposentaram ministros e, mais recentemente, vandalizaram sua sede. O que torna a crise atual mais grave que as anteriores é que às ameaças externas se somam os ataques internos, que colocam em risco a sobrevivência não apenas da instituição mas da própria Constituição.

Não será fácil superar a presente crise pela qual passa o Supremo, se é que ela será um dia superada. O termo crise, em sua origem, designa não apenas o risco de perecimento de um organismo ou instituição mas um momento crucial, em que decisões precisam ser tomadas com vistas à correção de rumos e reestabelecimento da normalidade. A soberba apenas nos aproximará do precipício.

Quando todo mundo está certo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

André Mendonça está certo em cobrar investigação sobre Alexandre de Moraes

E Moraes aponta problemas reais em ações de Mendonça à frente do inquérito

André Mendonça está certo e Alexandre de Moraes está certo —e é por isso que o STF vive a mais grave crise de sua história.

O relator do caso Master tem razão ao sustentar que o relacionamento de Moraes com Daniel Vorcaro precisa ser investigado. Não dá para cravar que Moraes tenha cometido crimes —só a investigação poderia determiná-lo—, mas, no plano ético, a situação do ministro é insustentável. O conflito de interesses está provado. A família de Moraes auferiu dezenas de milhões de reais com um contrato com o banco Master totalmente fora dos padrões de mercado e que não poderia ter motivações republicanas. Era dever do ministro perceber isso.

O lado de Vorcaro na disputa presidencial, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Da cadeia, ex-banqueiro continua dando as cartas; ele quer a nulidade do processo do caso Master

Estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco investigação sobre o filme 'Dark Horse'

Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.

Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.

Quero tudo já, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo

Vivemos na época da pressa, da urgência, quando tudo deve ser prestado de imediato, sob pena de ser descartado, em demora incompatível com a instantaneidade proporcionada pelas novas conquistas da tecnologia.

Este processo avoluma-se desde o último quartel do século passado. Em matéria publicada em 31 de maio de 1976, no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, recortada e guardada por dona Julieta Bento Hofmeister, avó materna de minha mulher, transcreve-se a última entrevista de Heidegger, então falecido na semana anterior.

Heidegger ali afirmava: “A filosofia chegou a seu fim. Seu papel foi ocupado agora pelas ciências. O lugar da filosofia foi ocupado pela cibernética”. E perquiria: “A pergunta decisiva é saber que sistema político, se é que existe algum, está à altura da época da técnica. Não tenho resposta a esta pergunta. Não estou convencido de que seja a democracia”.

Ato Institucional Xandônico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

“Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Isso é Vorcaro, em 15 de novembro de 2025, a dois dias de ser preso, reagindo à mensagem de Alexandre de Moraes, o ministro do STF que, ante a impossibilidade de defender o “conseguimos fazer algo?”, chamou Xandão para contra-atacar.

Difundindo falsas equivalências, quer que os pares decidam – não sobre se as suas relações vorcáricas devem ser investigadas – entre ele e André Mendonça. Um terá de morrer. Quer que os pares escolham, enquanto lhes mostra que tem o inquérito das fake news à mão, ferramenta que pode tanto lhes servir, vide Dino, quanto monitorá-los.

Como as democracias morrem, por Marcos Paulo Lima

Correio Braziliense

Democracias podem perder qualidade enquanto seus rituais permanecem intactos. O que se deteriora é menos visível: a disposição coletiva para aceitar que ninguém possui o monopólio da verdade, do patriotismo ou da própria democracia.

Democracias nem sempre morrem com tanques nas ruas, Congressos fechados e generais anunciando o fim das liberdades. Às vezes, adoecem lentamente. Continuam realizando eleições, preservam tribunais e mantêm parlamentos. Tudo parece estar no lugar. Até que algo essencial se perde.

Essa é uma das advertências em Como as democracias morrem, dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Publicado em 2018, o livro revisitado na minha biblioteca não serve como régua para diagnosticar automaticamente o Brasil, mas oferece uma lente incômoda para interpretar a crise nacional.

Os autores destacam duas regras não escritas fundamentais à sobrevivência democrática: tolerância mútua e reserva institucional. A primeira significa reconhecer a legitimidade do adversário. Democracia não exige concordância. Existe justamente para administrar divergências. O problema começa quando o adversário deixa de ser concorrente e passa a ser tratado como inimigo. Esse é um dos sintomas da doença brasileira.

O STF e a crise das (in)formalidades, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Por mais que seja um tribunal com papel único, o de interpretar e julgar a constituição, um documento eminentemente político, o STF continua a ser um tribunal e, portanto, limitado pelas normas jurídicas

Quando pensarmos em realizar a Justiça, o modo de fazer as coisas importa tanto quanto o resultado. Por isso temos o processo judicial: ele organiza o caminho que seguiremos até se decidir se alguém é culpado ou inocente, e qual a pena justa em caso de responsabilidade. É para assegurar tal equilíbrio que o Judiciário existe em uma democracia saudável; é por isso que os juízes precisam ser decorosos e imparciais, e é em razão desse ideal que advogados e demais atores da justiça são tão ocupados em discutir formalidades.

A República, em apuros, pede socorro, por Marcus Pestana

Vivemos uma longa noite de 21 anos sob o autoritarismo. Minha geração resgatou o fio da meada deixado pelos jovens de 68, na segunda metade dos anos 1970. “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz!”. Não era legal, a ditaduras não queria, reconstruímos na marra, na coragem, na luta. Pulmões cheios de ar, energia e esperança. Corações de estudantes, cheios de sonhos juvenis e ousados objetivos para o país.

Tudo em torno de duas palavras mágicas: democracia e República. Do grego, demokratia, significando governo do povo. República, do latim, res publica, em outras palavras, coisa pública, bem comum. O sonho da geração da redemocratização era inicialmente muito simples: um governo do povo baseado no bem comum e no respeito à coisa pública.

Brasília: nada de novo no front, por Murillo de Aragão

Veja

Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia

O que há em comum entre as guerras na Ucrânia e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.

Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.

A crise avança, por José Casado

Veja

Moraes e Toffoli ficam expostos em 400 páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília

Numa noite de verão houve uma reunião reservada no Supremo Tribunal Federal. Nove juízes se trancaram numa sala com José Antonio Dias Toffoli, até então responsável pelo processo sobre fraudes financeiras bilionárias no Banco Master.

Havia sido revelado que, três anos antes, um agente de negócios do banco comprara um hotel da família Dias Toffoli em Marília, a 430 quilômetros de São Paulo. Criou-se um impasse quando o chefe da Polícia Federal, aparentemente com o aval do presidente da República, apresentou ao presidente do STF um pedido de remoção do juiz relator do caso Master.

Augusto Cury e os órfãos, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Candidato do Avante salta e toma espaço que Zema e Caiado não foram competentes para ocupar

Nos últimos dias, as eleições presidenciais ganharam um grau maior de incerteza, introduzido pelo candidato Augusto Cury. Antes disso, as pesquisas indicavam – e os analistas juravam – que não havia luz fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. A incerteza se restringia a um porcentual de 5% a 6% de eleitores pendulares, capazes de aproximar ou de distanciar um pouco as curvas de intenção de voto entre os dois polos. Uma incerteza maior só viria no segundo turno.

O salto de Cury nas redes sociais e nas intenções de voto, ocupando o terceiro lugar, carreou essa incerteza para dentro do primeiro turno. Os analistas dizem que esse crescimento é espuma e que logo vai murchar. Mas o grau de incerteza pode aumentar ainda por conta de novas revelações sobre Flávio Bolsonaro e sobre o imbróglio Lulinha. Há que se indagar também acerca dos efeitos eleitorais que a granada lançada pelo ministro André Mendonça contra Alexandre de Moraes poderá produzir. A prudência, assim, recomenda que é preciso esperar para ver melhor as movimentações do eleitorado, que é o senhor das eleições.

O STF em ruínas, por Cláudio Couto

CartaCapital

Uma reforma das regras de funcionamento da Corte se impõe. Ela deve ser agenda importante da próxima legislatura, a despeito dos desdobramentos do atual escândalo que atinge o tribunal

O Supremo Tribunal Federal, não é de hoje, merece críticas severas ao comportamento de magistrados individualmente e da Corte como um todo. Antes mesmo da ascensão da ultradireita, com seus ataques à democracia em geral e ao STF em particular, estudiosos e analistas do funcionamento de nosso sistema judicial apontavam falhas graves, cuja remediação se impunha tanto para preservar a legitimidade das instituições do Estado Democrático de Direito, como para prover justiça efetivamente.

Em meio à crise no STF, Lula critica uso político de cargos e vazamentos seletivos, por Vinícius Nunes

CartaCapital

Presidente afirma que autoridades não podem usar funções públicas em benefício próprio e diz que vazamentos por interesses políticos e econômicos ameaçam a credibilidade da Justiça

O presidente Lula (PT) criticou nesta sexta-feira 4 o uso de cargos públicos em benefício próprio e os vazamentos seletivos motivados por interesses políticos e econômicos. As declarações ocorreram no Palácio do Planalto, durante a cerimônia de sanção de projetos que criam fundos especiais para a Justiça Federal e para o Superior Tribunal de Justiça, e em meio ao agravamento da crise no Supremo Tribunal Federal envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça e os desdobramentos das investigações sobre o Banco Master.

Fachin defende encerrar o Inquérito das Fake News, após Moraes solicitar investigação contra Mendonça, por Maiara Marinho

CartaCapital

O presidente do STF também voltou a pedir a adoção de um código de ética e a modernização do sistema de Justiça

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, defendeu nesta sexta-feira 4, em cerimônia no Palácio do Planalto, o fim do Inquérito das Fake News, processo sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Moraes utilizou o inquérito para solicitar à Polícia Federal um relatório de inteligência sobre pedidos de apuração contra ministros da Corte. Na sequência, requisitou a abertura de uma investigação contra André Mendonça por usurpação de funções nos casos do Banco Master e do INSS.

Terra arrasada, por André Barrocal

CartaCapital

Mendonça instala uma crise no STF de olho na demolição da República

O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.