terça-feira, 29 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dino faz uso político da Justiça

Por O Globo

Autorização para fake news sobre Nossa Senhora e decisão de Gilmar sobre Bolsa Família atropelam TSE

Tem sido preocupante a politização das decisões eleitorais da Justiça. Na semana passada, espalhou-se a notícia falsa de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Era uma especulação descabida, que Flávio desmentiu de imediato. Ele entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, no mesmo dia, o ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, determinou a remoção de conteúdos das redes sociais. O ator e humorista Antonio Tabet recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o caminho institucional correto teria sido acionar o plenário do TSE. Já no domingo, o ministro Flávio Dino anulou decisão de Mendonça e, por motivação nitidamente política, liberou as publicações com a mentira, favorecendo a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Polêmicas entre Lula e Flávio têm limites nos votos consolidados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor.

Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro.

Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate técnico.

O destino do país vai às urnas, por Roberto Amaral*

Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.

Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.

É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.

As dúvidas da reta final, por Míriam Leitão

O Globo

A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se movendo

Dentro de cinco dias estaremos diante da urna eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal, traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.

A sondagem foi melhor para Lula do que para Flávio Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022. Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.

Dias finais, por Merval Pereira

O Globo

O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas políticas.

Os últimos dias de campanha trazem novas discussões, mais debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país. Discute-se se o voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece improvável — ou se Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do Brasil. Perde-se tempo numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada, quanto mais disputada. O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos nesse tipo de embate, que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em casos pontuais e não institucionais.

A grande aposta de Lula, por Fernando Gabeira

O Globo

Apesar dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu

Ao proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, Lula fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.

É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.

O lobo, por Pedro Doria

O Globo

O regime parece ter perdido a capacidade de se regenerar. De se aperfeiçoar

Entre novembro e dezembro de 2022, o pai do senador Flávio Bolsonaro (PL) dedicou boa parte de seu tempo a convencer os comandantes do Exército e da Aeronáutica a dar um golpe militar em seu nome. Não é uma hipótese. É um fato histórico documentado. Foi o que disseram em depoimento à Polícia Federal e ao Supremo o general Marco Antônio Freire Gomes, que estava no topo da hierarquia do Exército, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, seu par na Força Aérea. Baptista Junior é autor do livro “Eu disse não”, que conta justamente os detalhes daqueles dias, publicado neste mês pela Autêntica. E, no entanto, quando a pesquisa Meio/Ideia perguntou aos brasileiros em março sobre o tema, 39% disseram acreditar que o golpe fora tentado por Jair Bolsonaro; 54% falaram que não acreditam. Foi a última vez em que uma pesquisa nacional tratou do tema. Nesta semana, à medida que entramos na reta final do primeiro turno destas eleições, as pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no que, essencialmente, é um empate com Flávio. Pode dar qualquer coisa.

O cálculo de risco que esvaziou o debate, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presença ou ausência do debate é um perde-perde, mas Lula avaliou que, na segunda opção, perderia mais

“Vou fazer uma pergunta e eles vão passar meia hora batendo em mim. Vou fazer mais outra pergunta e vai ser mais meia hora só apanhando”. Ao final, os adversários teriam uma coleção de cortes contra si e ele, a imagem de acuado. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou a seus principais assessores, no fim de semana, sua resistência em ir ao debate de quinta na TV Globo. Prefere ir apenas no 2º turno, mas ainda não deu resposta.

A campanha de Renan Santos (Missão) passou a alimentar a expectativa de que, na ausência de Lula, seria chamado. Neste caso, a dúvida é se o senador Flávio Bolsonaro (PL) manterá a decisão de ir, já anunciada. Pode vir a se tornar o principal alvo, a começar por Renan, o mais agressivo da disputa, mas perderia a oportunidade de acusar Lula de fujão.

IA e o futuro do trabalho no Brasil, por João Saboia*

Valor Econômico

Algumas ocupações serão simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações serão criadas

Há um temor generalizado no mundo sobre as transformações que a inteligência artificial (IA) poderá trazer ao mercado de trabalho nos próximos anos. O Brasil não foge a essa visão pessimista. Que tipo de empregos serão eliminados? Em que quantidade? Como e quantos serão os novos empregos gerados? E naqueles que sobreviverão, que mudanças serão realizadas nas atividades desenvolvidas? Em resumo, há mais dúvidas que certezas na medida em que a IA vai se disseminando no interior da economia.

Embora reconhecendo que a IA possa trazer grandes transformações e sérios problemas no mercado de trabalho, vamos desenvolver no artigo de hoje uma visão relativamente otimista sobre esse tema dentro do contexto de nosso país.

A Constituição do Super-Homem, por Renato Janine Ribeiro

Folha de S. Paulo

Carta determinou que presidente da República articule os Poderes

Impeachment de Dilma e emendas, contudo, esvaziaram o alcance de suas ações públicas

A Constituição Federal de 1988 —seguramente, a melhor da história brasileira, a mais democrática, que tirou os direitos humanos da entrada de serviço para colocá-los na entrada social— trouxe uma grande dificuldade para o presidente da República.

Se no anterior período, ditatorial, ele tinha inúmeros poderes, agora precisa ser um Super-Homem: cabe-lhe articular os Poderes, o Legislativo e o Judiciário, que tinham sido castrados na ditadura militar, bem como os estados, que corretamente retomaram sua autonomia, e ainda os municípios, que foram a chave da construção de nossa sociedade e obtiveram em 1988 uma autonomia constitucional que antes não tinham.

Eleições ao Senado: desprezadas, fundamentais e imprevisíveis, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

A expectativa é de uma apuração cheia de suspense e com reviravoltas na reta final

Casa legislativa deverá sediar os grandes embates e as grandes crises do próximo governo

A maioria dos eleitores ainda não sabe citar espontaneamente o nome de um candidato ao Senado. E olha que neste ano, com a renovação de 2/3 da casa legislativa, serão dois números a digitar.

É o resultado de um processo eleitoral engessado que privilegia, em primeiro lugar, a corrida pela Presidência e, em seguida, os governos estaduais. A expectativa de uma apuração cheia de suspense e de surpresas no pleito ao Senado é enorme, a depender das escolhas de última hora. Ou de escolha nenhuma, com o voto sendo anulado.

Lula e o PT não ouviram o bom conselho da autocrítica, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Campanha da reeleição chega à reta final míope aos erros e sem conseguir atingir o ponto de virada

Populismo pode surtir efeito, mas não apaga a fadiga com a longevidade de um presidente no poder

Pleito batendo à porta, a campanha da reeleição ainda está no modo "onde foi que erramos?", sem conseguir chegar ao ponto de virada. Houve um equívoco de origem que Luiz Inácio da Silva e o PT não cometeram sozinhos.

A quase totalidade do mundo político e adjacências compartilhava a visão de que Flávio Bolsonaro (PL) seria presa fácil, escolhido pelo pai para manter o nome da família na roda. Era essa a impressão que davam os telhados de vidro e a falta de lastro do moço.

A santa, a Justiça e as mentiras, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Campanhas não hesitam em abraçar fake news que as favoreçam

Embate entre Mendonça e Dino amplia descrédito do Judiciário

"Ele pode ser um f.d.p., mas é o nosso f.d.p.", teria dito Franklin Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza. Algo parecido vale para a desinformação eleitoral.

O bolsonarismo, que se esmerou em espalhar notícias falsas sobre o kit gay na campanha de 2018 e sobre o fechamento de igrejas por Lula em 2022, correu para o TSE para pedir a derrubada de postagens, turbinadas pelo lulismo, que falam de uma suposta intenção de Flávio Bolsonaro de cassar o estatuto de Nossa Senhora Aparecida de santa padroeira do Brasil.

Nossa Senhora, salve o Brasil! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo.

Só falta ministros irem para o STF de vermelho ou enrolados nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel

A contagem regressiva do primeiro turno já começou, num cenário estável e com o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro na Quaest, mas só se fala sobre o STF, onde a polarização eleitoral domina tudo e todos e corrói ainda mais a imagem da Corte. É como se só os seus dez votos fossem eleger o novo presidente.

Nas ruas, não se veem bandeiras, cartazes ou carros paramentados, sejam pró-Lula, sejam a favor de Flávio, numa das eleições mais frias e desanimadas de que se tem notícia. Mas, no Supremo, a equipe da campanha de Lula só falta se vestir de vermelho, com estrela no peito, e a de Flávio, a qualquer hora, aparece enrolada nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel.

A escola xandônica, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça vestiu-se de Xandão e, pois, censurou. A porteira estava aberta; a estrada, pavimentada. Será sempre por boa causa – contra a “reprodução sucessiva” de mentira. Na origem, havia uma mentira. E logo haveria a proibição genérica de referências à Nossa Senhora Aparecida. O gênio que não voltará mais à lâmpada é esse.

Mendonça censurou com base em jurisprudência do TSE; aquela, aplaudida, aclamada mesmo, por meio da qual – para além de se derrubar publicações – cassaram-se contas em redes sociais. Bloqueou-se uma rede social no Brasil – em defesa da democracia.