segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas em alta expõem populismo do Desenrola

Por O Globo

Endividamento alcançou maior nível do atual mandato: metade do que as famílias ganham está comprometido

Foram efêmeros os efeitos do Desenrola Brasil, programa do governo Lula para renegociação de dívidas de tons nitidamente populistas. O endividamento das famílias aumentou e chegou a 49,8 % da renda anual em novembro, maior nível no atual mandato, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central (o recorde histórico é 49,9%, em julho de 2022). Na prática, pode-se dizer que as dívidas, como financiamentos de carros, motos e outros bens, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartão de crédito, correspondem à metade de tudo o que as famílias ganham em um ano. A inadimplência também subiu no ano passado. Chegou a 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses. Trata-se de patamar alto para os padrões históricos.

Noventa anos de salário mínimo no Brasil. Por João Saboia

Valor Econômico

Após década de estagnação, produtividade deveria crescer para garantir continuidade de aumentos

O salário mínimo está completando 90 anos no Brasil. Não é pouca coisa. Seu histórico é longo, possui altos e baixos, momentos mais favoráveis, outros nem tanto, mas conseguiu sobreviver e continua na ordem do dia. Alguns acreditam que ele pode crescer, outros apontam para os riscos de seu crescimento. Ou seja, não há consenso. Embora com opiniões distintas, todos reconhecem sua importância para o país.

O artigo 121 da Constituição brasileira de 1934 mencionava, pela primeira vez, o salário mínimo, mas foi preciso esperar pela Lei 185 de janeiro de 1936 para que fosse afirmado, em seu primeiro parágrafo, que todo trabalhador tinha direito a um salário mínimo. Dois anos depois, em abril de 1938, a lei 185 foi regulamentada através do Decreto-Lei 399. Segundo ele, todo trabalhador adulto, sem distinção de sexo, passaria a ter direito a uma remuneração mínima, por dia normal de serviço, capaz de satisfazer às suas necessidades de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.

Milagres, fraudes e riquezas que viram pó. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Seguir o dinheiro é o caminho para identificar as conexões políticas e a extensão das práticas fraudulentas no mercado

No final dos anos 1960 e início da década de 1970, o mercado acionário brasileiro viveu um dos seus períodos de maior valorização. Em pleno milagre econômico da ditadura militar, o índice da bolsa do Rio de Janeiro, então a maior do país, passou de 110,1 pontos, em fevereiro de 1967, para 5.236,3 pontos em junho de 1971.

Os dados vêm do livro “Crises Financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, de Roberto Teixeira da Costa, observador privilegiado da história do sistema financeiro brasileiro. Naquela época, ele era gestor do Crescinco, maior fundo de investimentos da América Latina. Costa mostra como a intensa escalada de preço das ações, de um lado, e a qualidade dos dados financeiros das empresas e os mecanismos de controle do mercado frágeis, de outro, indicavam que o colapso era previsível.

Agenda para o Brasil real. Por Preto Zezé

O Globo

O país tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento

O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra dependência de ciclos políticos curtos.

Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.

Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser permanente.

BC mira o alvo; Fazenda alarga a trave. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Na atual circunstância, o governo precisa fazer superávit para colocar as contas públicas na direção do equilíbrio

A inflação oficial fechou o ano passado em 4,26%, dentro da margem de tolerância, que ia até 4,5%. Mas o Banco Central não está satisfeito. Já informou que manterá elevada a taxa básica de juros nos próximos meses, para buscar a meta central, de 3% ao ano.

As contas públicas, do governo federal, fecharam o ano com um déficit elevado, de R$ 61,7 bilhões. Pelas regras do arcabouço fiscal, a meta era zero, quer dizer, com receitas do tamanho das despesas. Pois o Ministério da Fazenda alardeou ter cumprido o déficit zero.

A diferença: o BC não faz truques; a Fazenda tira vários coelhos da cartola para zerar um buraco de R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. Detalhe nada desprezível: o rombo do ano passado é pior que o registrado em 2024, de R$ 42,9 bilhões.

Sob a lei do mais forte. Por Demétrio Magnoli

O Globo

Trump e Putin desenham esferas de influência submetidas ao poder militar das duas grandes potências

‘Vivemos num mundo, o mundo real, que é governado pela força, pelo poder. São essas as leis de ferro do mundo, desde o início dos tempos.’ As sentenças foram proferidas por Stephen Miller, alto assessor de Trump e notório advogado da anexação da Groenlândia.

— A lei do mais forte é, claramente, mais forte que a Justiça ordinária — declarou o russo Dmitri Medvedev, no rastro da extração de Maduro pela ação militar dos Estados Unidos.

Medvedev, arauto radical do neonacionalismo grã-russo, não emitia uma crítica. Sua mensagem concluía-se pela constatação celebratória de que, desde a intervenção na Venezuela, a Casa Branca “carece de fundamentos, mesmo formais, para repreender nosso país”.

Onde cantam as cigarras do verão 2026. Por Joaquim Ferreira dos Santos

O Globo

Hoje, 2 de fevereiro, é dia de festa no mar, mas no coração da mata alguma coisa acontece

Antes da música da Marina, sabia-se que vinha chegando o verão não porque as moças estavam todas de bundinha de fora, como anuncia a letra de Renato Rocketh, mas porque das árvores ao redor de cada bairro do Rio vinha o canto veemente da natureza tropical. “Zinem as cigarras”, registrou o poeta Manoel Bandeira nos versos de “Elegia de verão”, em 1952.

Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?

O canto das cigarras, num tempo em que o serviço de meteorologia não tinha tantos computadores, era um indicador urbano confiável de que “amanhã vai dar praia”. O zinir delas no fim da tarde cortava o espaço, fundia-se à “Ave Maria” do Júlio Louzada, às 18 horas na Rádio Tupi, e enchia os corações de uma melancolia preguiçosa, bonita que só vendo.

De coadjuvante ao protagonismo. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Com decisão de lançar governadores ao Planalto, PSD sinaliza mudança arriscada de trajetória

Quando o Partido Social Democrático (PSD) foi criado, em 2011, sua principal liderança, Gilberto Kassab, definiu-o de forma negativa: “o PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro”. A frase não era um truque retórico. Ela revelava uma estratégia clara: abdicar do protagonismo presidencial para maximizar poder político no Legislativo e na política subnacional.

Desde então, o PSD seguiu essa trajetória. Ao evitar amarras ideológicas e candidaturas presidenciais, o partido se consolidou como ator pivotal no Congresso, capaz de integrar coalizões de governos ideologicamente distintos. Foi assim que passou a ocupar espaços tanto no governo Lula, quanto no governo Tarcísio, em São Paulo.

Congresso reabre nesta segunda-feira sob clima eleitoral

Por Danandra Rocha e Wal Lima / Correio Braziliense

Início do ano legislativo expõe agendas divergentes entre oposição, focada em anistia e vetos, e base governista, que aposta em pautas sociais e econômicas. Para analistas, embate escancara fragilidades estruturais da direita

Com a abertura do ano legislativo em um ambiente marcado pela antecipação do debate eleitoral de 2026, Câmara e Senado retomam hoje os trabalhos, sob forte polarização política e disputa por narrativas. De um lado, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta imprimir ritmo a uma agenda social e trabalhista, com foco em temas como a revisão da escala 6x1 e a ampliação da isenção do Imposto de Renda. De outro, a oposição inicia o período sem apresentar um conjunto claro de propostas sociais, concentrando sua atuação em pautas de caráter político e institucional, como a anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e a derrubada de vetos presidenciais.

Lima Barreto e a corrupção sistêmica. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção sistêmica?

Resposta está nos microfundamentos; explicações culturalistas não dão conta do fenômeno

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).

Desigualdades em nome da fé. Por Waldemar Magaldi Filho

Folha de S. Paulo

A incorporação da lógica do mercado pela religião reconfigura o sentido da fé no século 21

Prosperidade passa a ser sinal de bênção divina, enquanto pobreza, de fracasso espiritual

[RESUMO] O texto analisa a ascensão da teologia da prosperidade como expressão de um deslocamento mais amplo da fé em direção à lógica do mercado. Ao transformar riqueza material em sinal de bênção e pobreza em falha espiritual, essa teologia submete o sagrado à gramática do desempenho, do cálculo e da recompensa. O antigo conceito bíblico de Mamon reaparece como símbolo desse processo, no qual o dinheiro deixa de ser meio e passa a ocupar o centro da experiência religiosa. O resultado é uma espiritualidade funcional, que oferece consolo individual, mas esvazia o mistério, enfraquece a crítica social e legitima desigualdades em nome da fé.

Em muitos templos pelo país, fiéis são convidados a subir ao púlpito para relatar conquistas materiais: a casa financiada, o carro novo, a empresa que prosperou "pela fé". Carteiras de trabalho, chaves de carro e contratos são ungidos em cultos transmitidos ao vivo. Pastores falam em "sementes", "investimentos" e "retornos". O vocabulário não é casual. Ele traduz uma teologia em que prosperidade material se tornou sinal de bênção divina, e a pobreza, indício de falha espiritual.

Esse deslocamento não surgiu do nada. Ele tem nome antigo. Mamon é um conceito quase arquetípico que atravessa a teologia ocidental desde que um carpinteiro da Galileia fez uma advertência radical: "Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mateus 6:24).

No aramaico, māmōnā significava riqueza ou propriedade. No discurso de Jesus, porém, o termo se personifica: deixa de ser coisa e se torna poder rival, uma soberania que exige lealdade exclusiva. Mamon não é o dinheiro no bolso, mas o dinheiro entronizado no coração.

Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad

Folha de S. Paulo

Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda

Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica

[RESUMO] Autor sustenta que o capitalismo não foi superado, mas transformado pela centralidade dos ativos intangíveis, como softwares e patentes, e pela mercantilização do conhecimento. Nesse contexto, a inovação produzida continuamente nas empresas, por equipes criativas dedicadas, se torna fonte regular de superlucros. Trecho inédito de "Capitalismo Superindustrial" (Zahar) discute a nova dinâmica entre lucro e renda que levou o capitalismo a outro patamar.

No debate contemporâneo, importantes autores comungam a ideia de que vivemos uma realidade pós-capitalista. A maioria deles joga luz sobre um mesmo fenômeno: a perda de relevância do capital fixo em instalações, máquinas e equipamentos frente aos ativos intangíveis como patentes, marcas, direitos autorais, arranjos organizacionais entre outros.

Em meados de 1990, o investimento intangível ultrapassou o investimento tangível nos Estados Unidos, seguidos por outros países, e ele hoje é tanto maior, como proporção do PIB, quanto mais desenvolvido o país, mais integrado globalmente seu mercado e maior a extensão do coinvestimento do setor público.

Como todo investimento, o investimento em intangíveis cria um ativo que custa dinheiro e gera um retorno de longo prazo que pode, pelo menos em parte, ser desfrutado pelo investidor, o que permite calcular seu valor. Apesar de suas peculiaridades, esse cálculo, com alguns cuidados, pode ser integrado à contabilidade das empresas e à contabilidade nacional.