segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescimento dos ‘penduricalhos’ revela descontrole

Por O Globo

Verbas no Judiciário subiram 43% além da inflação em um ano. Questão exige ação urgente do Congresso

A cada minuto, um acréscimo de R$ 5.700. A cada hora, R$ 342 mil. Foi nesse ritmo que a conta das verbas indenizatórias do Poder Judiciário, popularmente conhecidas como “penduricalhos”, aumentou no ano passado. Considerando apenas os vencimentos dos juízes que receberam acima do teto estipulado pela Constituição — R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) —, o gasto subiu de R$ 7,2 bilhões para R$ 10,3 bilhões entre 2024 e 2025, como revelou reportagem do GLOBO com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Isso corresponde a um aumento real de 43%, já descontada a inflação.

No ano passado, um estudo do Movimento Pessoas à Frente e República.org tentou levantar quanto o país gasta com pagamentos acima do teto em todos os Poderes. Um levantamento apenas parcial revelou gastos de R$ 20 bilhões em 12 meses, 21 vezes o gasto na Argentina, segundo país que mais gasta acima do limite entre os avaliados.

Receitas para se ganhar supersalários, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Plenário do Supremo decide nesta quarta-feira sobre a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu os penduricalhos nos Três Poderes

Bacharéis em direito, com pelo menos três anos de experiência, eles foram aprovados num concurso difícil que envolveu provas objetiva, discursiva, de sentença cível e criminal, exame oral e avaliação de títulos. Além disso, cada aprovado demonstrou conhecimento suficiente para vencer uma concorrência de 18,65 candidatos por vaga. O salário era atraente: o edital anunciava um subsídio bruto de R$ 32.250,05 por mês.

A trajetória do câmbio e o efeito sobre a inflação, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

No curto prazo, dólar pode chegar perto de R$ 5, mas proximidade das eleições e volatilidade externa podem levar a moeda a subir, especialmente no segundo semestre

O fortalecimento do real em relação ao dólar continua neste ano, num cenário em que a moeda americana perde força no mercado global e o Brasil é um dos emergentes favorecidos pelo movimento de diversificação de parte das carteiras dos investidores internacionais. O juro alto por aqui também tem contribuído para a valorização do câmbio. Na sexta-feira, o dólar fechou em R$ 5,1758, a cotação mais baixa desde maio de 2024. No ano, a queda é de 5,7%; em 12 meses, de 9,26%.

Eleições ecoam no carnaval, por Irapuã Santana

O Globo

Acadêmicos de Niterói andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política

O desfile da Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2026 se transformou num dos capítulos mais complexos do Direito Eleitoral brasileiro. Ao escolher o presidente Lula como enredo, a agremiação andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política, gerando uma batalha jurídica que poderá redefinir os limites da liberdade de expressão artística.

A principal acusação que pesa sobre o desfile é de propaganda eleitoral antecipada. Em ano de eleições presidenciais, a legislação proíbe qualquer pedido de voto ou exaltação de candidatos antes de 16 de agosto. Para a oposição, o desfile funcionou como “showmício” financiado indiretamente, em que a biografia do presidente foi apresentada de forma hagiográfica e messiânica. O samba-enredo, as cores e a simbologia (como a onipresente estrela vermelha) foram apontados em representações ao TSE como tentativa de incutir no eleitor a ideia de continuidade administrativa, muito antes do permitido.

Intolerância que não paga imposto, por Miguel de Almeida

O Globo

A renúncia fiscal dada às igrejas representa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e segurança

Virou o ano, e os velhos vícios brasileiros continuam em alta. Patrimonialismo, corrupção, imoralidade jurídica, penduricalhos a perder de vista — a lista é extensa. A maravilhosa novidade é que setores evangélicos agora criticam o uso de dinheiro público. O mote partiu do desfile hagiográfico da Acadêmicos de Niterói em torno da vida de Lula.

A hipocrisia é evidente: quem acusa é useiro de isenções fiscais — as igrejas recebem subsídios, não pagam qualquer imposto. Mais: pastores não pagam IR sobre seus vencimentos religiosos. Michelle Bolsonaro também reclamou e esqueceu que seu salário é pago pelo Partido Liberal com verbas públicas do fundo eleitoral. Ô vida fácil.

Os dilemas do financiamento público, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Desenho institucional do financiamento público afeta a competição, a organização partidária e os vínculos com a sociedade

Ele pode aumentar a inclusão, mas apenas quando combinado com fiscalização independente e regras de transparência

Passado o Carnaval, a eleição de 2026 já domina o debate público. Lula buscará a reeleição, Flávio Bolsonaro se consolida como principal nome da oposição e, nos estados, multiplicam-se as incertezas sobre candidaturas aos governos e ao Senado. Mas, enquanto os nomes ainda estão em aberto, as regras e o dinheiro da disputa já estão definidos e influenciam decisões sobre o lançamento de candidaturas em todos os partidos e níveis da competição.

O Poder mais perigoso, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O STF avança sobre o orçamento e, o que é muito mais grave, sobre os meios de coerção

A erosão da confiança no árbitro final das regras do jogo afeta o equilíbrio entre os poderes e fragiliza a própria ideia de governo limitado pela lei

É quase um clichê para analistas recorrerem à afirmação atribuída a Alexander Hamilton, no Federalista 78, que o Poder Judiciário é o poder menos perigoso porque não detém o poder da espada nem acesso aos cofres públicos. Ocorre que no momento, em nosso país, o Poder Judiciário é sem sombra de dúvida o poder mais perigoso da República. As cortes superiores corroem o orçamento e, o que é muito mais grave, o STF avança sobre os meios de coerção —a espada. Essa situação é inédita do ponto de vista comparativo.

Xingar uma pessoa negra de macaco desumaniza e nega direitos humanos, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo científico apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade

Isso explica o fato de o talentoso jogador de futebol Vini Júnior ter sofrido 20 ataques racistas em sua atuação pelo Real Madrid nos últimos oito anos

Macaco. A designação comum aos primatas, excetuando os seres humanos, é uma das manifestações mais explícitas e agressivas de racismo. Chamar, ou melhor, xingar uma pessoa negra usando essa expressão é uma forma de desumanização, animalização, inferiorização e negação de direitos humanos.

A origem da associação criminosa (racismo é crime, vale lembrar) de pessoas negras a símios (macacos, gorilas, chimpanzés…) segue a lógica da teoria (furada) do racismo científico, que apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade.

Levados à força e se debatendo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Cada vez mais se adota o recolhimento involuntário de dependentes; mas será que funciona?

Uma terapia que comece na rua, caso a caso e sem tempo para terminar, pode dar mais resultados

Leio no Globo que 30% das capitais brasileiras estão adotando o recolhimento involuntário de dependentes químicos em situação de rua. A justificativa é que se trata de pessoas que põem em risco a própria vida ou a de terceiros. Não se trata de uma medida voluntarista dessas cidades. O Conselho Federal de Medicina já permite que parentes, responsáveis ou servidores públicos de saúde solicitem essa internação, sendo que a restrição da liberdade deve ser "pelo menor tempo possível".

Nunes contra o carnaval, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A Prefeitura da capital paulista, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa

Carnaval também é política. O desfile-comício sobre Lula da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que resultou no rebaixamento da escola, é o exemplo mais óbvio e recente. Além da bajulação ao presidente, os carros alegóricos e as fantasias foram elaborados para ridicularizar uma parcela da sociedade brasileira – e da classe política. O contrário também já ocorreu. Em 2019, o então presidente, Jair Bolsonaro, fez críticas aos blocos de rua, tomando a atitude isolada de alguns foliões como uma prova da degradação moral do carnaval. Seu filho Flávio, como pré-candidato à Presidência, tenta vender uma imagem mais moderada que a do pai e, na semana passada, tratou de enaltecer o carnaval, inclusive os cortejos de rua, como “uma das festas mais populares do planeta” e “um exemplo de como o Brasil pode ser criativo e fazer muito, mesmo com pouco”.

O futuro da Amazônia, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A ausência de um ordenamento fundiário efetivo obstaculiza investimentos e termina sendo um poderoso instrumento de não preservação ambiental

A Amazônia tornou-se uma questão geopolítica, de profundas repercussões militares, diplomáticas, econômicas e ambientais. Com a prevalência das relações internacionais da “lei do mais forte”, não há mais fronteiras asseguradas. O que era reconhecido ontem, pode deixar de sê-lo amanhã. As maiores potências agem estritamente segundo os seus interesses. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a operação americana na Venezuela expõem essa nova realidade. O Brasil deve assegurar a defesa do seu território, dando-se os meios para isso.

A Europa e a aliança China-Rússia-EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O apoio americano a Orbán, cortejado ainda por Moscou e Pequim, expõe uma convergência anti-UE

A recente viagem de Marco Rubio a Budapeste, após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, revela mais sobre política global do que parece à primeira vista. Com a Hungria em plena campanha para as eleições de abril, o secretário de Estado decidiu reforçar o apoio de Washington a Viktor Orbán, um líder que se orgulha de ter construído um “Estado iliberal” e, há anos, corrói a democracia húngara.