quarta-feira, 1 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

República do Supremo que pode tudo

Por Folha de S. Paulo

Regime em que ministros atingem qualquer tema sem provocação nem distanciamento precisa de correção

Contrapeso do colegiado esbarrou no corporativismo quando dois de seus membros passaram a ter condutas questionadas no caso Master

Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, tudo. Para os demais cidadãos, a lei —tal como amplamente interpretada por um ministro do Supremo. Cristaliza-se no Brasil um regime anômalo de prevalência de dez indivíduos sobre o restante da sociedade.

Como se vê pelas decisões de Alexandre de Moraes, a latitude de um juiz da corte quando os seus próprios interesses estão em jogo é máxima. Fulmina-se a regra que exige do magistrado afastamento de casos em que ele conste como vítima potencial.

Lula tenta apagar fogo com caneca, por Vera Magalhães

O Globo

Tentar melhorar popularidade do presidente com anúncios pontuais ignora o fato de que razões para rejeição ao petista são mais cristalizadas

O balanço feito por Lula na reunião ministerial “saideira” de boa parte do time titular dos ministérios evidenciou a preocupação com o ponteiro da popularidade, que, depois de mais de um ano na mudança na diretriz da comunicação do governo, voltou a indicar o tanque vazio.

Acontece que nem o problema de fundo do petista e de sua gestão reside na comunicação, nem as medidas pontuais anunciadas ou em gestação no Planalto parecem eficazes para mudar a pior notícia trazida pelas recentes pesquisas ao presidente: a maioria dos eleitores considera pior reelegê-lo do que trazer de volta ao comando do país alguém da família Bolsonaro. A determinação de Lula de passar a traçar comparações entre seu governo e o de Jair Bolsonaro visa a atacar justamente essa percepção, que, se persistir, põe em xeque a viabilidade de um quarto mandato.

O rei do gado, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Caiado promete indulto a Bolsonaro, mas quer disputar rebanho que já tem dono

Gilberto Kassab apresentou seu novo candidato ao Planalto. É Ronaldo Caiado, o patriarca da direita ruralista. O escolhido já tem experiência em eleições presidenciais. Terminou a de 1989 em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Ao se lançar na disputa, Caiado anunciou que seu primeiro ato no poder seria um indulto a Jair Bolsonaro. No mesmo discurso, prometeu “desativar a polarização”.

Difícil entender como uma coisa levaria à outra. A história mostra que dar impunidade a golpistas não pacifica o país. Ao contrário: aprofunda divisões e serve de incentivo para novas tentativas de ruptura.

Caiado entrou na disputa, por Elio Gaspari

O Globo

Ao oferecer a anistia para os condenados pela trama golpista de 2022-2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual governador de Goiás disse que “você só alimenta um projeto político da polarização quando você se beneficia dele”.

Com 88% de aprovação em seu estado e fala mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam seis meses para a eleição, e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal, ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.

Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.

A onda que o Supremo consegue antever, por Fernando Exman

Valor Econômico

Alguns integrantes do STF se arriscam a dizer que o que se avista no horizonte pode ser um tsunami

Do alto do anexo do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, onde estão instalados os gabinetes dos ministros do STF, é fácil perceber para onde vão os ventos da política e se eles estão formando alguma onda.

Na natureza, a mecânica é conhecida. Quando o vento sopra, exerce um atrito na superfície do mar que transfere energia para as partículas de água. Pequenas ondulações se formam, as quais crescem e viram ondas maiores de acordo com a força e a constância do vento, até que o mar fica raso. A parte de baixo da água desacelera, e a de cima continua rápida. Como resultado, a onda fica instável e “quebra”, fazendo a alegria dos surfistas e gerando pavor entre os que não sabem nadar.

Alckmin deu upgrade ao Mdic na hora certa, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Atuação como ministro é alvo de elogios de representantes do empresariado

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) viveu nos últimos três anos e três meses um período de destaque inédito, enquanto esteve comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.

Primeiro, pela natureza da pasta. Ela está fora do núcleo duro da estrutura do governo federal - tanto que já foi extinta e rebaixada a secretaria duas vezes desde a redemocratização, em 1990 e em 2018. Por essa condição, só tem sucesso em suas agendas quando o ministro é influente no Palácio do Planalto. Foi o caso.

Segundo, por causa do tarifaço de Donald Trump. O interesse da população foi tamanho que Alckmin esteve no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo, para explicar o que estava acontecendo. A reação diante da crise rendeu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva o melhor momento de popularidade no atual mandato.

Na luta pela sobrevivência, vice jogou parado, por César Felício

Valor Econômico

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

No dia 5 de fevereiro, em entrevista ao portal UOL, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs à luz do dia uma articulação que se processava nos bastidores praticamente desde o início do seu governo. Colocou em dúvida a permanência do vice-presidente Geraldo Alckmin na chapa, afirmando que ele e o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “tinham um papel a cumprir em São Paulo”. Hoje, na reunião ministerial que formalizou a saída de parte da equipe para concorrer às eleições, Lula confirmou a manutenção de Alckmin na chapa. Foi a volta do que não foi. O que mudou?

Lula confirma Alckmin na vice. Leite não decide o rumo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governador gaúcho, que foi preterido por Gilberto Kassab, está recebendo convites para disputar a Presidência por outros partidos, como o PSDB-Cidadania e o Solidariedade

O tabuleiro das eleições presidenciais está quase armado. Ontem, em reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o vice-presidente Geraldo Alckimin (PSB), que deixa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, será mesmo seu companheiro de chapa. Até agora, 14 ministros estão deixando o cargo para disputar as eleições — mais quatro poderão seguir o mesmo caminho.

Com isso, a cena eleitoral da disputa pelo Palácio do Planalto está quase definida. A incógnita é a decisão do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), que foi preterido por Gilberto Kassab, presidente da legenda, e está recebendo convites para disputar a eleição por outros partidos, como o Cidadania e o Solidariedade. O mais provável, por ora, é que conclua o mandato e tente fazer o sucessor.

Minas Gerais, o pêndulo da campanha de 2026, por Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo

O ponto central é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários ‘Brasis’ convivendo lado a lado

Minas Gerais, terra das grandes “raposas” da sapiência política (José Maria Alckmin, Gustavo Capanema, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, entre outros), voltará a ser, em 4 de outubro de 2026, o maior “termômetro” da eleição presidencial. Não é superstição: é estatística, geografia humana e política comparada. O Estado reúne cerca de 16,5 milhões de eleitoras e eleitores – o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo – e, por tamanho e capilaridade, impõe uma realidade simples: quem quer vencer no Brasil precisa competir de verdade em Minas.

Alckmin fica, apesar do PT, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A decisão do presidente Lula de manter a dobradinha com o vice Geraldo Alckmin (PSB) na chapa da reeleição foi um sinal importante para o eleitorado mais conservador em uma disputa polarizada como a que ocorrerá em outubro. Afinal, Alckmin vinha sendo “bombardeado” por uma ala do PT, sob a alegação de que era preciso ampliar a aliança para a centro-direita. Mas, quem diria, acabou defendido pela velha-guarda petista que antes o esnobava.

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, por exemplo, chegou a afirmar que tirar o ex-governador da chapa significava pôr em risco a reeleição de Lula. O próprio presidente, porém, ficou em dúvida e Alckmin foi sendo “empurrado” de lá para cá na montagem dos palanques.

O mundo é um corpo? Por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados portaaviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.

Entre perdas e danos, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Os ativos financeiros de Brasil e Colômbia perderam menos que os de outros países com a guerra

Após um mês inteiro de conflito no Oriente Médio, o Brasil e a Colômbia estão entre os países emergentes que apresentaram o melhor desempenho de seus ativos financeiros – perdas menores das Bolsas de Valores e das moedas – em meio à turbulência geopolítica mundial, que levou à disparada nos preços do petróleo e à valorização do dólar, para onde correram os investidores globais em busca de refúgio.

Caiado terá de bater muito em Bolsonaro filho para não ser assistente de palco do show da direita, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato do PSD tem de disputar voto da direita braba e não tem base política digital

Político goiano também não terá apoio de seu partido na maior parte dos estados

Na falta de notícias políticas que não sejam caso de polícia, o lançamento de Ronaldo Caiado a presidente pelo PSD teve alguma atenção do público, pelo menos de quem se ocupa um pouco de política. Foi bem pouco mesmo, dizem aqueles que medem interesses populares nas redes.

Mas qual papel Caiado pode ter em 2026? O governador de Goiás tem uns 4% nas pesquisas. Pode ser candidato a descer a 1% ou a fazer figuração maior —isso quando o povo prestar atenção à eleição, bem depois da metade do ano. Sua campanha terá de lidar com situações incontornáveis: 1) O grosso dos votos que pode virar estão na direita e na extrema direita; 2) Não terá apoio da maioria folgada de seu partido; 3) Para aliviar tais limitações, Caiado teria de se tornar uma estrela da política digital, empurrado por militância experiente e conectada com humores e odores desse ambiente —não deve acontecer, né.

Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral, por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Em discurso na maior conferência conservadora dos EUA, senador pediu 'pressão diplomática' para eleições livres e justas no Brasil

Assim como Jair Bolsonaro em 2018, pré-candidato à Presidência disse que vencerá se os votos forem contados corretamente

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).

O complô selenita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que 34% dos brasileiros não acreditam que homem pisou na Lua

Embora mais instruídos, americanos também creem em seu quinhão de bobagens

Deu no Datafolha que 34% dos brasileiros não acreditam que o homem já pisou na Lua. Não é algo que devesse ser colocado em dúvida. O esforço científico para levar astronautas ao satélite natural da Terra e trazê-los de volta está fartamente documentado.

O primeiro passeio de Neil Armstrong em território selenita foi transmitido ao vivo pela TV em 1969 e testemunhado por milhões de terráqueos. Para ser cético em relação à conquista da Lua é preciso ter fé cega em conspirações secretas.

Para o PSD, o inimigo agora é Flávio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ronaldo Caiado deixou muito claro que a ideia inicial é avançar no eleitorado da família Bolsonaro

Eduardo Leite daria um colorido de centro à candidatura, mas não conseguiria ocupar a vaga da direita no 2º turno

Na escolha de Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite, o PSD deixou claro seu plano, ao menos na linha inicial: avançar no eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL) para tentar uma vaga no segundo turno.

Ou seja, investir em 2026 e não na construção de possibilidade para 2030. Assim seria se a opção tivesse sido pelo governador gaúcho, hipótese preferida pela ala de centro com plumagem tucana que orbita em torno do projeto alternativo, hoje tendo como referência Gilberto Kassab, mas sem garantia de efeito duradouro.

O Congresso fatura com a indignação moral, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Legislativo federal passou a operar sob a lógica das redes

A encenação de superioridade moral se impõe sobre a deliberação racional e pragmática

A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.

Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.

Uma Emergência chamada Brasil, por Vagner Gomes

A Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de critérios de métodos metodológicos de análise e de interpretação de processos  sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais, àquela matéria de interesse médico constituída pela Etiologia e Ecologia Sociais de doenças, pelos componentes sociais ou socioculturais de terapêutica e, ainda, pelas relações  entre médicos e enfermos, entre enfermos e suas famílias, entre médicos e famílias e ambientes socioculturais de enfermos, entre médicos – higienistas, sanitaristas, psiquiatras – e comunidades e aquelas suas instituições e aqueles seus complexos mais relacionados com os problemas de deterioração da saúde, de conservação e de defesa da saúde, de promoção da saúde. Saúde compreendida no seu sentido mais amplo, isto é, além do físico, e alcançando o bem-estar psicossocial das pessoas sociais, membros de um grupo, em particular, e de uma comunidade e, mais do que isto, de um sistema sociocultural em geral.

Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.