quarta-feira, 22 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Do bônus ao ônus demográfico

Por Folha de S. Paulo

Segundo estimativa do IBGE, população de dependentes cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa

Tendência impõe reformar a Previdência Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade; debate, porém, está atrasado no Brasil

Realizado com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava. Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente captada, infelizmente, pelas políticas públicas.

Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.

Lula, Flávio e todos pintados para a guerra, por Vera Magalhães

O Globo

Empate nas pesquisas antecipa fase de ataques na campanha e arrasta instituições para a arena junto com Lula e Flávio Bolsonaro

Está oficialmente aberta a artilharia pesada na campanha presidencial, antecipação ditada pelo rigoroso empate entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. O PT já vinha discutindo que precisaria iniciar antes aquilo que aliados de Lula classificam como exposição de quem seria o filho escolhido por Jair Bolsonaro para lhe suceder na urna eletrônica. A avaliação do quartel-general da campanha lulista é que a população não tem a menor ideia de quem seja Flávio, que se beneficia do sobrenome, de um lado, e da tentativa de se mostrar “moderado”, de outro, sem que seus reais atributos entrem na equação.

Flávio é, dos filhos de Jair, o que angariou maior patrimônio, com evolução notável sobretudo na carteira de imóveis. O mais vistoso é uma mansão no Lago Sul, em Brasília, cuja compra deverá ser explorada pela campanha petista pelas condições peculiares em que aconteceu. O valor estimado da casa, R$ 6 milhões, é três vezes superior ao de todo o patrimônio que Flávio declarou ter na eleição para o Senado em 2018: R$ 1,7 milhão.

Lula perdeu a aposta, por Elio Gaspari

O Globo

O nível de endividamento das famílias cresceu, e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula. Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse endividamento são as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a porteira ao mercado de apostas foi o governo.

O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco. Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024, a ekipekonômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas era de fancaria.

O sequestro da paisagem, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Vinte anos depois, maior cidade do país arma retrocesso no combate à poluição visual

Aprovada em 2006, a Lei Cidade Limpa impôs um freio à poluição visual na maior cidade do país. A norma devolveu aos cidadãos a paisagem sequestrada pela publicidade. Em vez de celebrar seus 20 anos, as autoridades de São Paulo querem desfigurá-la.

Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas divulgou um vídeo em que gigantescos painéis de LED cobrem os prédios da Avenida São João. “Por enquanto, as imagens aqui são de inteligência artificial. Mas daqui a uns dias, elas vão ser realidade”, anunciou. O prefeito Ricardo Nunes também mostra entusiasmo com a ideia.

Na guerra do Irã, Trump entrou no labirinto persa sem um fio de Ariadne, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A lógica da sua escalada militar esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã não enfrenta seus oponentes em campo aberto, mas por meio de milícias, outros atores regionais e ações indiretas, como o fechamento de Ormuz

O mito Teseu e o Minotauro, uma criatura metade homem metade touro, é uma das histórias mais conhecidas da mitologia grega. Para vingar a morte de um filho, o rei Minos de Creta exigia que Atenas enviasse a cada nove anos sete rapazes e sete donzelas para serem devorados pelo Minotauro, um monstro aprisionado no Labirinto de Creta. Teseu, filho do rei de Atenas, voluntariou-se para ir a Creta com o objetivo de matar o Minotauro e acabar com o sacrifício.

Ariadne, filha do rei Minos, apaixonou-se por Teseu e, para ajudá-lo, secretamente, deu-lhe um novelo de lã, o famoso “fio de Ariadne”, com o qual Teseu entrou no labirinto. Após amarrar a ponta do fio na entrada, foi desenrolando-o enquanto avançava. No centro do labirinto, matou o Minotauro e, seguindo o fio de volta, conseguiu sair do labirinto. Teseu fugiu de Creta com Ariadne, mas, ao retornar a Atenas, esqueceu-se de trocar as velas do navio de pretas para brancas, um código que sinalizaria seu sucesso, o que levou seu pai, Egeu, a se suicidar por acreditar que o filho estava morto.

Pauta-bomba, mas poderia ser pauta do bem, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Câmara poderia se alinhar ao crescente debate mundial sobre uma renda básica para enfrentar o desemprego provocado pelo uso de IA

A Câmara dos Deputados se prepara para votar mais uma pauta-bomba e desperdiçar uma chance de qualificar o debate nacional. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Sistema Único de Assistência Social (Suas) repete pecados contra o Orçamento da União, quando poderia se alinhar ao crescente debate mundial sobre uma renda básica para enfrentar o desemprego provocado pelo uso da inteligência artificial (IA).

Difícil achar quem se coloque contra destinar mais dinheiro para a assistência social, num país desigual como o Brasil. A PEC em questão direciona 1% da receita corrente líquida da União à área, o que daria R$ 4,8 bilhões em 2027, segundo cálculos obtidos pela repórter Giordanna Neves, deste jornal. É dinheiro do tamanho do orçamento do Ministério do Meio Ambiente e um pouco maior do que o do Ministério dos Portos e Aeroportos. Parece boa notícia.

STF entra de vez no debate da campanha presidencial, por Fernando Exman*

Valor Econômico

Pressão sobre o Supremo aumenta

Interpreta corretamente quem identifica na pré-campanha de Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais filiado ao partido Novo, uma singularidade na comparação com os outros postulantes da direita à Presidência. Zema é aquele que tem adotado a postura mais contundente em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma tentativa de diferenciar-se dos concorrentes, que inevitavelmente virarão aliados já no primeiro turno ou no segundo, chega a beirar a agressividade ao pedir a prisão de ministros. Quem conversa com o mineiro diz que ele está animadíssimo com a estratégia de encarnar um novo “caçador de marajás”. Já lançou até a bandeira do “Brasil sem intocáveis”.

Novo “caçador de marajás” é uma referência ao personagem incorporado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello na eleição de 1989, quando o então governador de Alagoas ganhou notoriedade e projeção nacional ao encampar uma campanha contra salários suntuosos de funcionários públicos.

O retrovisor de Derrite, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Repetiam-se os casos de ações desastradas de PMs, enquanto se fechavam os olhos para a corrupção

Depois de um ano e meio de espera, no dia 16, os médicos Júlio César Navarro e Silvia Mónica Cárdenas conseguiram que o Estado os ouvisse com atenção. Em 2024, um PM assassinou o filho deles, o estudante de medicina Marco Aurélio, de 22 anos. O rapaz deu um tapa no retrovisor de uma viatura. Desarmado, foi executado com um tiro.

O casal foi recebido por Oswaldo Nico Gonçalves, atual secretário da Segurança. Sílvia se comoveu. Por que os pais de uma vítima de excesso homicida demoraram tanto para serem ouvidos na Secretaria? Integrantes do Ministério Público falam a quem quiser ouvir que a gestão de Guilherme Derrite deve explicações e não apenas à família do jovem Marco Aurélio. O entorno de Tarcísio de Freitas acredita que foi um erro nomear alguém com pretensões políticas para chefiar a Pasta.

O pânico moral e a defesa da democracia, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Não há liberdade nem democracia onde não há espaço para questionar a ordem jurídica, incluindo as normas constitucionais

É conhecido na literatura criminológica o conceito de pânico moral : uma reação coletiva exagerada diante de um grupo de pessoas, comportamentos ou eventos, percebidos como ameaça aos valores e interesses sociais, levando ao recrudescimento da lei penal e da jurisprudência. Não é que o perigo inexista, mas ele é visto de forma distorcida, suscitando uma resposta desequilibrada e, a rigor, desarticulada entre seus fins e meios. Exemplo cristalino é a guerra às drogas.

Frente às ameaças contra as instituições democráticas, impetradas entre 2019 e 2023, entendo que parte da sociedade e do Estado, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF), sucumbiu à dinâmica do pânico moral. Houve uma reação desproporcional e, ao mesmo tempo, compreensível. Eram ataques inéditos contra a ordem democrática. Não se sabia como reagir.

Os donos do Brasil, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Não é preciso muito preparo ou ler um livro como a crucial reflexão de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, publicado há 58 anos, para saber que o Brasil tem dono e descobrir que cada pedaço dele também tem mandão! Saber quem é o maior e melhor artista, empresa, jornal, ideologia, livro e até comida e bebida é imperativo no Brasil. Tudo pode ser graduado, mas, entre nós, o “número um” de alguma esfera da vida sinaliza superioridade em tudo.

O melhor deve ser dono, patrão e medalhão, como magnificamente teorizou Machado de Assis, em 1881. É costume estender o mandonismo e considerar que coisa alguma pode existir sem dono ou patrão, numa suposição coerente com o viés autoritário. Um modelo de poder, aliás, coerente com uma sociedade de fundo cultural escravocrata e até hoje escravista na sua alergia ao trabalho e amor à riqueza e ao luxo por ela proporcionados.

A eleição e o Brasil 'queridinho' dos donos do dinheiro grosso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desde o início do ano, real foi a moeda que mais se valorizou entre as mais relevantes

Influxo de dólares ajudou a conter a inflação de 2025 e deve ajudar de novo em 2026

O Brasil seria agora o "queridinho" dos donos do dinheiro grosso do mundo, lê-se por aí, entre outras expressões constrangedoras de cafonas e exageradas. A medida principal desse amor é a valorização do real em relação ao dólar, desde o início do ano a maior entre 35 moedas mais relevantes. O tutu está entrando, pela finança e pelo comércio externo.

Convém prestar atenção a variações grandes da taxa de câmbio, que têm efeito político, pois batem em preços e juros. Bom lembrar também que muita vez essas variações têm pouco a ver com decisões tomadas aqui dentro. Desde o início de 2025, o real se valorizou basicamente porque os donos do dinheiro do mundo decidiram reorganizar suas aplicações.

A influência do caso Master nas eleições, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pelas projeções do meio jurídico, as delações serão de conhecimento público no auge da campanha

A dúvida é se, e em que medida, o que for revelado terá o poder de influir nas escolhas do eleitorado

Se estiverem certas as projeções correntes no meio jurídico, as delações premiadas de Daniel Vorcaro e companhia, se aceitas pela Polícia FederalMinistério Público Supremo Tribunal Federal, vão chegar ao conhecimento público no auge da campanha eleitoral.

Considerando que não cabe aos delatores escolher quem entregam ou quem protegem, se quiserem contar com os benefícios previstos em lei, eles não poderão ser seletivos. Vão precisar entregar todos os que pretenderam ou conseguiram cooptar para manter seu esquema fraudulento em pé.

Bancos digitais, especulação e desemprego, Antônio Fausto Nascimento*

Até o regime militar de 1964, o Estado brasileiro sempre exerceu grande influência sobre a formação do sistema financeiro, mas entravava a concentração do capital com a lei de usura - que limitava os juros anuais a 12% - e o processo de fusão do capital bancário e industrial ainda muito incipiente. Uma reforma bancária criou o Banco Central, o Conselho Monetário Nacional e promoveu amplo ordenamento regulador de todo o sistema financeiro nacional, com dezenas de decretos e resoluções, entre 1965 e 1970. Outra inovação básica foi a introdução da cláusula de correção monetária na maioria dos contratos. A fusão de bancos foi estimulada, com expressiva redução do número de estabelecimentos privados, que ascenderam à condição de grandes grupos empresariais e conglomerados.

Ao fim da chamada década e meia, perdidos, nos anos oitenta e noventa do século passado, boa parte dos bancos públicos e privados encontrava-se à beira da insolvência, decorrente de operações ruinosas e do acentuado abrandamento da inflação pelo Plano Real, em 1994. O Banco Central faz o lançamento do Proer, Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional. Foi decretada a intervenção em vários estabelecimentos, a maioria estaduais, separando-se os bons dos maus ativos. Os primeiros, vendidos aos bancos mais fortes, nacionais e estrangeiros. A parte ruim, liquidada pelo BC para ressarcir os depositantes. Embora com uso de dinheiro público, foi eficiente medida de saneamento do sistema bancário brasileiro, mundialmente elogiada.

Fadiga de materiais: quando o desgaste enseja o fim de um ciclo, por Roberto Amaral

Na mecânica estrutural, a chamada “fadiga de materiais” designa o processo mediante o qual um corpo, submetido a solicitações cíclicas, não colapsa de imediato, mas desenvolve, progressivamente, microfraturas até que, subitamente, se rompe. O decisivo não é o excesso momentâneo de carga, mas a repetição prolongada de esforços menores, inclusive de determinados valores-limite suportáveis. Daí rupturas radicais. A este processo alia-se a degradação das propriedades mecânicas do material.

Certos períodos da vida política da humanidade são marcados por longos momentos de desgaste, às vezes imperceptíveis, que se resolvem mediante alternativas que, conhecendo a ruptura, se operam como um simples desenvolvimento das forças sociais.

Redução das horas de trabalho e abusos no Judiciário atropelam deputados e senadores, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Com a taxa de desemprego aproximando-se de 10% (1,1 milhão de pessoas à busca de trabalho) - Piauí 9,3%, Pernambuco e Bahia, 8,7%, Alagoas, Rio Grande do Norte e Amazonas, 8, 4% e assim por diante (IBGE) - o Congresso Nacional deglute, com dificuldade nos próximos quinze dias, quase entalado, dois temas delicadíssimos: a redução do jornada de trabalho, de 44 para 40 horas semanais ( o PSOL defende 36 horas), sem redução de salário; e a insegurança jurídica no Brasil, criada a partir de seguidas decisões controversas dos ministros no Supremo Tribunal Federal.