segunda-feira, 4 de maio de 2026

Opinião do dia – Alexis de Tocqueville*

“Cada um propunha seu plano: este apresentava-o nos jornais, aquele nos cartazes que logo cobriram os muros, o outro, pela palavra, aos quatro ventos. Um pretendia eliminar a desigualdade das fortunas, outro a das luzes, um terceiro aspirava a nivelar a mais antigas das desigualdades, a existente entre o homem e a mulher; receitavam-se medicamentos específicos contra a pobreza e contra o mal do trabalho, que atormenta a humanidade desde que ela existe.”

*Alexis de Tocqueville (1805-1859), “Lembranças de 1848”, p. 117, Companhia das Letras, 2011.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discursos farsescos de Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Petista posa de antissistema, e filho de Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários

É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas

Com índices de aprovação frágeis, más notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou o populismo em seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.

"Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discursou.

Parece cômica a retórica antissistema vinda de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da palavra não é por acaso.

Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.

Congresso não dá mais maioria a ninguém, diz Abranches

Camila Zarur / Valor Econômico

Cientista político vê Legislativo como ‘amorfo’ e excessivamente independente dos outros Poderes e do eleitor

O Brasil vive uma crise no sistema político e a rejeição de Jorge Messias pelo Senado a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) é resultado de um Executivo minoritário num Congresso “amorfo”, fisiológico e com independência turbinada pelo alto volume de recursos. É o que avalia o cientista político Sérgio Abranches, criador do conceito de presidencialismo de coalizão.

Na última semana, em apenas 24 horas, o governo Lula (PT) enfrentou duas grandes derrotas no Parlamento. Primeiro, na quarta-feira (29), o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União teve a indicação ao Supremo rejeitada pelo Senado; algo que não ocorria desde 1894. Depois, na quinta (30), o Congresso derrubou o veto presidencial ao projeto de lei da dosimetria, que deve beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula pode buscar ‘saída popular’, mas Legislativo é obstáculo, Por Camilo Zarur e Joelmir Tavares

Valor Econômico

Especialistas avaliam que ideia seria presidente indicar uma mulher jurista ao STF, mas Lula enfrentará um Parlamento adverso

Após a rejeição do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, pelo Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem algumas alternativas para preencher a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante da crise escancarada por ter um aliado rejeitado, uma possibilidade do mandatário seria buscar uma “saída pela via popular”, uma vez que ferramentas tradicionais para negociar com os partidos se enfraqueceram.

Esse caminho, contudo, enfrenta como obstáculo um Congresso adverso ao petista. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), principal articulador da derrota de Lula na semana passada, já indicou a interlocutores que não pautará novas indicações do presidente ao Supremo. É uma prerrogativa do chefe do Legislativo, conforme explica o professor de direito constitucional da PUC-SP e do IDP Georges Abboud, pois a lei não impõe nenhum prazo para marcar a votação de nomeações presidenciais.

Lula já virou pato manco ou deixará para 2027? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Maior responsável pela rejeição a Messias, presidente corre o risco de esvaziamento no fim do mandato ou se mostrar inviável mesmo com reeleição

Reza a lenda (leia-se “o ChatGPT explica”) que a expressão “pato manco” (lame duck, em inglês) surgiu na bolsa de Londres para designar investidores assolados por dívidas que estavam capengando financeiramente, como patos feridos que não conseguiam andar direito. Transposta para a política, a imagem passou a descrever mandatários que, apesar de ainda ocuparem o cargo, perderam o poder e influência.

No momento em que Lula se tornou o primeiro presidente a ter uma indicação negada para o Supremo Tribunal Federal desde 1894, muitas análises passaram a especular as causas e os culpados pelo vexame histórico.

BC sobe o tom, mas evita dizer a dose de juro, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Projeção de inflação do BC dá recado importante ao sinalizar que não parece haver espaço para os juros caírem a 13% ao ano até o fim de 2026, como previa o mercado

O grande desafio do Banco Central na política monetária será conter a deterioração das expectativas de inflação de longo prazo. Ainda não está claro, para participantes do mercado financeiro, como o Comitê de Política Monetária (Copom) pretende fazer isso.

O comunicado da reunião da semana passada - que baixou a taxa Selic de 14,75% para 14,5% ao ano - ficou no meio do caminho. Reconheceu que o cenário piorou, deixando a inflação projetada mais longe da meta. Mas, para alguns, faltou o Copom dizer claramente qual vai ser a reação da política monetária.

Muito provavelmente, porém, a comunicação do BC não está completa. Há pontas soltas no comunicado. Alguns especialistas do mercado financeiro acham que elas podem ser mais bem esclarecidas com a divulgação, amanhã, da ata do Copom.

Os 30 anos da urna eletrônica e o respeito à escolha do eleitor

Por Iago Mac Cord e Fabio Grecchi / Correio Braziliense

TSE celebra três décadas do sistema eletrônico de votação, que em 2022 foi colocado em xeque por Bolsonaro com uma campanha de mentiras. Ex-presidente do STF aprova redução de pena dos réus do 8 de Janeiro

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) celebra, hoje, os 30 anos da urna eletrônica, mas em um cenário pré-eleitoral em que a polarização política ainda prevalece. Se, nos meses que precederam a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores atacaram não apenas a lisura do pleito, mas lançaram — por meio de todo tipo de mentiras — desconfianças sobre um equipamento cuja excelência de funcionamento é reconhecida em vários países, para o pleito de outubro, pelo menos por ora, está pacificado que o formato de votação adotado há três décadas continua a ser seguro e representativo da vontade do eleitor.

Ganância judicial, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A tentativa de Lula de colocar no STF mais um compadre acabou se provando um grave erro

Muitas teorias foram apresentadas para explicar a rejeição, pelo Senado, de Jorge Messias, advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). São histórias de traições, conluios improváveis entre figuras da República e articulações mal feitas por parte do Palácio do Planalto. Tudo isso é commodity na política nacional e não surpreende muito. Até mesmo a versão de que um ministro do Supremo, com o modo de sobrevivência ativado por conta de relações nebulosas com um banqueiro encrencado, mexeu seus pauzinhos para barrar o indicado torna-se bastante plausível diante de outras demonstrações recentes de poder dos togados.

A esquerda ‘woke’ e o terror, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

Não deixa de ser um paradoxo o fato de a luta antiocidental ser levada a cabo por uma coligação com uma ideologia ocidental, visando a subverter o capitalismo democrático e os seus valores

Um traço distintivo da teocracia iraniana reside não apenas em sua tentativa de restabelecimento de costumes pré-modernos que se considerariam ultrapassados, impostos contra os portadores de hábitos discordantes, mas em sua tentativa, digamos, modernizadora, de uma aliança com a esquerda, arvorando-se em defensora de uma bandeira anti-imperialista. Tal aliança já ocorreu quando da derrubada do xá do Irã até que os aiatolás decidiram eliminar essa mesma esquerda que os tinha apoiado. A esquerda, em particular laica e marxista, foi literalmente assassinada aos milhares, numa repressão cuja crueldade deixou claro que seriam os clérigos xiitas os líderes desse processo revolucionário.

Dez vezes sem juros: o custo invisível do empréstimo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O problema do endividamento excessivo é uma consequência do aumento da oferta de crédito no país

Muitos pais já ouviram dos filhos, quando diziam que aquele brinquedo, aquele tênis era muito caro:

— Mas aceita cartão.

No tempo em que se usava dinheiro vivo, ouvi de uma senhora rica que não gostava de cheque, nem de cartão. Dizia:

—A gente compra, compra e parece que não gastou nada.

Pois é, a gente sabe que não é assim, mas o cartão de crédito dá aquela sensação de que depois se arranja o dinheiro. Ou se joga a dívida mais para a frente.

Tem mais: a maravilhosa invenção do pagamento em dez vezes sem juros, no cartão. Ou mais. Outro dia, comprei um celular pagando em 24 vezes. Parece que tudo fica acessível. Sabemos que não é sem juros, nem de graça, mas com frequência a tentação fala mais alto.

As big techs e o ECA Digital, por Irapuã Santana

O Globo

Responsabilidade das empresas é técnica e sistêmica, enquanto a dos pais é ética, afetiva e pedagógica

Com o advento do ECA Digital, o ecossistema jurídico brasileiro vive uma mudança de paradigma, entrando num modelo de responsabilidade compartilhada em outro nível. No entanto surge um ponto crucial: a transferência do dever de cuidado às big techs não pode, nem deve, anular a centralidade do poder parental.

Historicamente, as plataformas de tecnologia se protegiam sob a égide de ser meras intermediárias de conteúdo. Com a chegada da nova lei, esse escudo é derrubado, e as big techs assumem o “dever de cuidado”. Isso significa que são juridicamente responsáveis por projetar ambientes que, por padrão, protejam a integridade física e psíquica dos menores.

O golpe do Senado, por Miguel de Almeida

O Globo

Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado, mas eram nacionalistas

Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.

Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?

Messias, dosimetria e autopreservação, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Episódios da semana revelam os custos de um governo minoritário diante de um Congresso ideologicamente distante

Caso Master agrava o quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos

rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo e a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial ao PL da Dosimetria, lei que afrouxa punições e beneficia diretamente os condenados pelo 8 de Janeiro, não são episódios isolados. Expressam os limites de um governo de esquerda minoritário diante de um Congresso com maioria de centro-direita e direita.

E revelam mais: em momentos de crise e autoproteção institucional, a distância ideológica entre presidente e maioria legislativa torna-se ainda mais custosa. O caso Banco Master, com suas conexões políticas e judiciais, agrava esse quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos entre atores que têm pouco interesse em fortalecer o Executivo.

Lula, o affair Messias e o presidencialismo de coalizão, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

A participação ativa de ministros no episódio inaugura uma lógica de facções judiciais

A governabilidade brasileira já não se organiza apenas pela distribuição de ministérios e orçamento, mas também pela disputa sobre o STF

A rejeição da indicação de Messias ao Supremo não pode ser lida apenas como derrota do Executivo, nem apenas como reação do Centrão à escolha unilateral de Lula. Seu aspecto mais relevante é a evidência de uma articulação envolvendo lideranças do Senado e setores do próprio Supremo. O que veio à tona foi uma dinâmica inédita: a Corte não aparece apenas como instância de controle externo sobre Executivo e Legislativo, mas como ator que interfere no processo político de sua própria composição.