quinta-feira, 28 de maio de 2026

Opinião do dia - Nicolau Maquiavel* (ricos e pobres)

“Tratemos agora do outro aspecto da questão, isto é, vejamos o que ocorre quando um cidadão torna-se príncipe de sua pátria, não por meio de crime ou de outra intolerável violência, mas com a ajuda dos seus compatriotas. O principado assim constituído podemo-lo chamar civil, e para alguém chegar a governá-lo não precisa de ter ou exclusivamente virtude [virtù] ou exclusivamente fortuna, mas, antes, uma astúcia afortunada. Pois bem, a ajuda nesse caso é prestada pelo povo ou pelos próceres locais. É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo. Destas tendências opostas surge nas cidades, ou o principado ou a liberdade ou a anarquia.

O principado origina-se da vontade do povo ou da dos grandes, conforme a oportunidade se apresente a uma ou a outra dessas duas categorias de indivíduos: os grandes, certos de não poderem resistir ao povo, começam a dar força a um de seus pares, fazem-no príncipe, para à sombra dele terem ensejo de dar largas aos seus apetites; o povo, por sua vez, vendo que não pode fazer frente aos grandes, procede pela mesma forma em relação a um deles para que esse o proteja com a sua autoridade”

*Nicolau Maquiavel (1469-1527) filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política. O Principe (1515), Capitulo lX, p. 45. Editora Martins Afonso, 2014

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.

Câmara aprova fim da escala 6x1 por 461 votos a 19; texto vai ao Senado

Por Beatriz Roscoe e Ruan Amorim – Valor Econômico

Proposta prevê redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais e duas folgas por semana, sem redução de salário

A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (27) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. Foram 472 votos a 22 no primeiro turno. No segundo turno, o placar favorável ao texto foi de 461 a 19. As duas votações superaram em muito o apoio mínimo de 308 votos necessários para alterações constitucionais.

Principal bandeira eleitoral do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, a proposta será agora analisada no Senado, cujo presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), indicou a pessoas próximas que não deve frear o avanço da matéria, apesar da tensão com o governo. Nesta semana, empresários foram ao parlamentar apresentar propostas de mudança, diante da avaliação de que a medida aumenta os custos da mão de obra e pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica.

O texto foi analisado em sessão marcada por grande disputa política entre governistas e oposição. Parlamentares da base buscaram ressaltar a posição do PL contra a redução da jornada. Por outro lado, deputados do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro optaram pela estratégia de constranger o governo e — de última hora — defender uma redução ainda maior, para uma escala 4x3, em vez do modelo 5x2, apoiado pelo governo.

PEC do fim da escala 6x1 cacifa Motta para tentar reeleição, por César Felício

Valor Econômico

A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 de trabalho ainda atravessará uma zona de incerteza no Senado e sua aprovação no Congresso este ano permanece no terreno da hipótese, mas o seu avanço (472 votos a 22 no primeiro turno) na Câmara produz efeitos políticos concretos.

Um deles é o do fortalecimento político do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ganha impulso para se reeleger à frente da Mesa Diretora, caso consiga um novo mandato pela Paraíba. Motta virou o jogo depois de um primeiro ano terrível como presidente da Casa, do ponto de vista de credibilidade junto a seus pares.

Fim da escala 6x1 dá um nó no bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Populismo de direita se embaralha para atender às suas bases sem perder o voto da maioria

A votação do fim da jornada 6x1 na Câmara dos Deputados deu um nó no PL tão ou mais enroscado que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Master: como manter a viabilidade eleitoral da direita na mão contrária do desejo de sete em cada 10 eleitores. Como cada um puxou de um lado, o nó ficou ainda mais difícil de ser desatado.

A campanha do senador à Presidência tem como coordenador o senador Rogério Marinho (PL-RN), que foi o relator da reforma trabalhista. Aprovada em 2017, a reforma foi a mais abrangente alteração das leis trabalhistas desde a criação da CLT há mais de 80 anos. A redução da jornada para 40 horas semanais com pelo menos dois dias de folga, sem redução de salário, foi no sentido contrário.

O fator Trump, por Merval Pereira

O Globo

Encontro com Trump reforça a imagem de Flavio e o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral

Se o encontro do pré-candidato à Presidência da República do PL, senador Flávio Bolsonaro, com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, não tivesse nenhuma importância, não provocaria tantos comentários e suposições por parte dos petistas. O encontro com certeza reforça a imagem dele — tanto que os petistas inventaram que a foto dos dois na Casa Branca é fruto de inteligência artificial. Não é qualquer um que tem acesso ao presidente americano, e sem dúvida foi uma boa jogada política — nada fundamental, mas o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral.

Moraes é variável nova para Flávio, por Julia Duailibi

O Globo

O encontro de Flávio com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha

Aos trancos e barrancos, Flávio Bolsonaro tem conseguido lidar com a sangria envolvendo o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para, diz ele, financiar o filme sobre o pai. O encontro com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha. A situação de Flávio também é melhor hoje, entre os donos do dinheiro, do que era ontem. Depois de reagir mal ao lançamento da candidatura do senador e às conversas com Vorcaro divulgadas pelo Intercept Brasil, a Faria Lima parece, pouco a pouco, se acomodar, novamente, ao nome dele como opção a Lula.

Um plano para o Rio de Janeiro, por Míriam Leitão

O Globo

Em sua primeira entrevista, o desembargador Ricardo Couto afirma que não sabe quanto tempo ficará no cargo e que passou a tomar decisões porque a população precisava dos serviços do Estado

Quem mora no Rio vive em permanente estado de desilusão. Viu tantos desmandos, tantos ex-governadores presos, tantos absurdos diários, que não espera muito da política, torce apenas para permanecer sendo capaz de se indignar. Por isso, estranha a gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Ele tem tomado decisões que fazem sentido. Este é o espanto. O Rio não está acostumado com exonerações de pessoal excedente, fechamento de secretarias e expropriações de bens de devedores contumazes. Tudo o que é natural, não se espera.

Câmara aprova PEC que acaba com escala 6x1 e reduz jornada semanal para 40 horas

Por Fernanda Brigatti, Raphel Di Cunto e Augusto Tenório – Folha de S. Paulo

Proposta que institui duas folgas obrigatórias semanais ainda precisa ser aprovada em dois turnos pelo Senado

Redução de horas trabalhadas por semana será feita em duas etapas, sendo a primeira para 42 horas

A proposta, que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, teve 472 votos favoráveis e 22 contrários no primeiro turno. Na segunda votação, 461 parlamentares foram favoráveis e 19 votaram contra. A proposta precisava de ao menos 308 votos favoráveis.

O texto aprovado no plenário é o parecer do deputado federal Leo Prates (Republicanos-PB), que foi analisado horas antes na comissão especial criada para debater a mudança. A PEC aprovada na Câmara torna obrigatória a concessão de duas folgas semanais aos trabalhadores, uma delas preferencialmente aos domingos.

Seis propostas de alteração no texto principal foram apresentadas. Uma manobra da base governista inviabilizou os destaques do PL, como são chamadas as tentativas de alteração em plenário, que tentavam acabar com a transição, excluíam o poder público do faseamento na redução da jornada e acabava com o prazo de 12 meses para que os direitos previstos na PEC cheguem a funcionários de empresas com contratos públicos.

Governo vai acabar compensando fim da escala 6x1, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Parlamentares aproveitam redução da jornada para pedir aumento do teto de faturamento de MEIs e pequenas empresas

Equipe econômica pede para presidentes da Câmara e Senado não pautarem projetos de elevação dos limites

O acordo para vincular a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 a uma medida compensatória às empresas do MEI (Microempreendedor Individual) e do Simples é dor de cabeça para o governo, com um custo que pode chegar a R$ 50 bilhões por ano.

Com a proposta em votação em ano eleitoral, os parlamentares aproveitaram para engatar o pedido de aumento do teto de faturamento anual de MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

Elas integram o chamado sistema Simples, um regime tributário e previdenciário simplificado, com carga de impostos mais baixa. Se o limite é ultrapassado, as empresas têm que passar para o outro grupo com alíquotas maiores.

O que deve afetar Lula x Flávio durante o recesso da Copa e das festas juninas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Relações com gente de gangues financeiras e políticas são risco para o jogo bolsonarista

Fiasco de público de medidas eleitorais e piora discreta da economia são risco para Lula 4

A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.

Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais. Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.

O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.

Foto com Trump é teatro tardio para Flávio, Igor Gielow

Folha de S. Paulo

'Dark Horse' ficará no noticiário, imagem não dará voto e jogo de Lula com americano parece intacto

Pré-candidato demonstra amadorismo com obscura viagem, ganhando memes e desconfiança em troca

A trajetória política de Jair Bolsonaro a partir de sua encarnação como candidato antissistema em 2018 sempre buscou emular a de Donald Trump, por mais díspares que sejam a origem e a história pregressa de ambos.

Bolsonaro já chamou o republicano de ídolo, e sua gestão notabilizou-se por uma infrutífera adulação da Casa Branca. As franjas da direita radical global e brasileira mantêm, de todo modo, estreito contato.

Houve uma notável sincronia com atraso de dois anos na vida de ambos os líderes no poder. Trump elegeu-se na vaga populista de 2016; Bolsonaro surpreendeu o Brasil em 2018.

Celebrando o atraso, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A alteração na jornada e escala de trabalho tem consequências profundas e a longo prazo que estão sendo introduzidas pelas considerações políticas mais imediatas e mesquinhas. A de ganhar a qualquer vantagem político-eleitoral. Pode-se falar de um comportamento de “classe” política, pois não há relevantes diferenças entre a postura de “situação” e “oposição”, quaisquer que sejam os rótulos ideológicos.

O Brasil tem como características centrais alta informalidade, baixa produtividade, judicialização extrema das relações capital-trabalho, leis trabalhistas brigando com os avanços da tecnologia, formação de capital humano deficiente que se traduz em mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação. O que se faz agora é tornar esse macroambiente ainda pior.

A guerra entre ministros do Supremo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Cabo de guerra camufla expectativa de estourar a corda do Master em cima de integrantes da Corte

À luz do dia, ninguém concorda com supersalários. Nem defende a falta de regramento mínimo na conduta de autoridades. Nem combate propostas para deixar o Judiciário mais eficiente. Ainda assim, esses temas alimentam a crise interna que habita o Supremo Tribunal Federal (STF) desde o ano passado.

Enquanto alas distintas da Corte seguram essas bandeiras, tentam camuflar a falta de explicações convincentes sobre a participação de ministros nos negócios de Daniel Vorcaro. Desviar o foco desse assunto agora é mais eficaz para garantir a sobrevivência de ministros no próprio cargo do que para reaver a credibilidade do Supremo.

O papa e a técnica, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os executivos e seus patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou notas inéditas de sadismo

A encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), intitulada Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), a primeira de seu pontificado, atraiu as câmeras de TV e as primeiras páginas dos diários do mundo. Editoriais esmerados a elogiaram. Comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes. De fato, esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade. O argumento evolui sem angústia, mas também sem deslumbramento, sem aflição, sem se refugiar na autoajuda, sem raiva, mas sem condescendência. A leitura nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito.

Mercado, política e ‘racionalidade’ ideológica, por José Serra

O Estado de S. Paulo

É legítimo precificar política, mas é ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra

A divulgação, em 13 de maio, dos áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma reação clássica e didática do mercado financeiro brasileiro: dólar a R$ 5,00, com alta de 2,31%, e Bolsa em queda de 1,80%, acompanhados de salto nos juros futuros. Uma plataforma de apostas em previsões que parte da Faria Lima adotou como termômetro do humor político passou a indicar que as chances de Flávio Bolsonaro haviam caído de 44% para cerca de 28%, enquanto Lula assumia o favoritismo com 45%. O episódio expõe, de forma incômoda, o que esse mercado de fato precifica, ficando claro que é muito distante do que alega precificar.

Entrevista* | A sociedade Brasileira é extremamente violenta e elitista

O jornal Catetear

*Marly Vianna, historiadora

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.