quinta-feira, 28 de maio de 2026

Governo vai acabar compensando fim da escala 6x1, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Parlamentares aproveitam redução da jornada para pedir aumento do teto de faturamento de MEIs e pequenas empresas

Equipe econômica pede para presidentes da Câmara e Senado não pautarem projetos de elevação dos limites

O acordo para vincular a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 a uma medida compensatória às empresas do MEI (Microempreendedor Individual) e do Simples é dor de cabeça para o governo, com um custo que pode chegar a R$ 50 bilhões por ano.

Com a proposta em votação em ano eleitoral, os parlamentares aproveitaram para engatar o pedido de aumento do teto de faturamento anual de MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

Elas integram o chamado sistema Simples, um regime tributário e previdenciário simplificado, com carga de impostos mais baixa. Se o limite é ultrapassado, as empresas têm que passar para o outro grupo com alíquotas maiores.

O que deve afetar Lula x Flávio durante o recesso da Copa e das festas juninas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Relações com gente de gangues financeiras e políticas são risco para o jogo bolsonarista

Fiasco de público de medidas eleitorais e piora discreta da economia são risco para Lula 4

A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.

Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais. Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.

O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.

Foto com Trump é teatro tardio para Flávio, Igor Gielow

Folha de S. Paulo

'Dark Horse' ficará no noticiário, imagem não dará voto e jogo de Lula com americano parece intacto

Pré-candidato demonstra amadorismo com obscura viagem, ganhando memes e desconfiança em troca

A trajetória política de Jair Bolsonaro a partir de sua encarnação como candidato antissistema em 2018 sempre buscou emular a de Donald Trump, por mais díspares que sejam a origem e a história pregressa de ambos.

Bolsonaro já chamou o republicano de ídolo, e sua gestão notabilizou-se por uma infrutífera adulação da Casa Branca. As franjas da direita radical global e brasileira mantêm, de todo modo, estreito contato.

Houve uma notável sincronia com atraso de dois anos na vida de ambos os líderes no poder. Trump elegeu-se na vaga populista de 2016; Bolsonaro surpreendeu o Brasil em 2018.

Celebrando o atraso, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A alteração na jornada e escala de trabalho tem consequências profundas e a longo prazo que estão sendo introduzidas pelas considerações políticas mais imediatas e mesquinhas. A de ganhar a qualquer vantagem político-eleitoral. Pode-se falar de um comportamento de “classe” política, pois não há relevantes diferenças entre a postura de “situação” e “oposição”, quaisquer que sejam os rótulos ideológicos.

O Brasil tem como características centrais alta informalidade, baixa produtividade, judicialização extrema das relações capital-trabalho, leis trabalhistas brigando com os avanços da tecnologia, formação de capital humano deficiente que se traduz em mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação. O que se faz agora é tornar esse macroambiente ainda pior.

A guerra entre ministros do Supremo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Cabo de guerra camufla expectativa de estourar a corda do Master em cima de integrantes da Corte

À luz do dia, ninguém concorda com supersalários. Nem defende a falta de regramento mínimo na conduta de autoridades. Nem combate propostas para deixar o Judiciário mais eficiente. Ainda assim, esses temas alimentam a crise interna que habita o Supremo Tribunal Federal (STF) desde o ano passado.

Enquanto alas distintas da Corte seguram essas bandeiras, tentam camuflar a falta de explicações convincentes sobre a participação de ministros nos negócios de Daniel Vorcaro. Desviar o foco desse assunto agora é mais eficaz para garantir a sobrevivência de ministros no próprio cargo do que para reaver a credibilidade do Supremo.

O papa e a técnica, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os executivos e seus patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou notas inéditas de sadismo

A encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), intitulada Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), a primeira de seu pontificado, atraiu as câmeras de TV e as primeiras páginas dos diários do mundo. Editoriais esmerados a elogiaram. Comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes. De fato, esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade. O argumento evolui sem angústia, mas também sem deslumbramento, sem aflição, sem se refugiar na autoajuda, sem raiva, mas sem condescendência. A leitura nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito.

Mercado, política e ‘racionalidade’ ideológica, por José Serra

O Estado de S. Paulo

É legítimo precificar política, mas é ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra

A divulgação, em 13 de maio, dos áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma reação clássica e didática do mercado financeiro brasileiro: dólar a R$ 5,00, com alta de 2,31%, e Bolsa em queda de 1,80%, acompanhados de salto nos juros futuros. Uma plataforma de apostas em previsões que parte da Faria Lima adotou como termômetro do humor político passou a indicar que as chances de Flávio Bolsonaro haviam caído de 44% para cerca de 28%, enquanto Lula assumia o favoritismo com 45%. O episódio expõe, de forma incômoda, o que esse mercado de fato precifica, ficando claro que é muito distante do que alega precificar.

Entrevista* | A sociedade Brasileira é extremamente violenta e elitista

O jornal Catetear

*Marly Vianna, historiadora

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com centenas de milhares de membros nos anos 1930. Como você analisa este fato?

Marly Vianna: Houve, em especial na década de 1920, vários pequenos partidos de extrema direita, que em 1932 se juntaram à Ação Integralista Brasileira (AIB). Mas os partidos fascistas, compostos principalmente de descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil, tiveram pouca influência na política brasileira, até porque não quiseram se misturar com a direita do país. Não aceitaram, por exemplo, participar da AIB. Alguns viviam a esperança da criação de um governo alemão no sul do Brasil e nessa perspectiva mantinham contatos com a Alemanha, mas nenhuma ação relevante aqui, a não ser alguma influência no campo da propaganda ideológica.

Prestes Filho: O Levante Revolucionário Antifascista de 1935, que a historiografia oficial insiste em chamar de Intentona Comunista, foi a primeira ação armada contra o fascismo no mundo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica, este levante teria a importância simbólica no combate ao fascismo no mundo como o envio do Corpo Expedicionário que o Brasil enviou para combater o fascismo na Europa?

Marly Vianna: O levante armado de novembro de 1935, no Rio de Janeiro, levado adiante pela seção militar do Partido Comunista do Brasil - PCB (a direção do partido mostrou-se contra e praticamente não mobilizou ninguém), sob as ordens de Luiz Carlos Prestes, juntamente com militares da Aliança Nacional Libertadora, tinha por objetivo derrubar o governo e instalar um Governo Nacional Popular Revolucionário com Prestes à frente, por pão, terra e liberdade. Dentro dessas suas propostas estava implícita a luta contra o nazi-fascismo e, internamente, a Ação Integralista Brasileira(AIB). Os levantes democráticos desse período não tiveram como consigna exclusiva a luta contra o nazi-fascismo e a guerra, foram mais amplos, como em novembro de 1935 no Brasil, mas todos eles incluíam tal palavra de ordem com destaque. Nesse sentido, houve movimentos semelhantes anteriores a 1935, como o levante nas Astúrias, em outubro de 1934. Dado o crescimento da direita depois de novembro de 1935, com expressivo aumento das fileiras da AIB e da orquestrada campanha virulentamente anticomunista, não creio que novembro de 1935 tenha sido, para a população, um marco da luta antifascista. O Brasil entrou na guerra, depois de muitas idas e vindas do governo, em agosto de 1942, muito em resposta aos torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães, navios de passageiros, como o Baependi, em julho daquele ano. Por um lado, isso provocou forte mobilização popular, exigindo a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo. E também por pressão dos aliados e da barganha de Vargas com os Estados Unidos.

Opinião do dia - Nicolau Maquiavel* (ricos e pobres)

“Tratemos agora do outro aspecto da questão, isto é, vejamos o que ocorre quando um cidadão torna-se príncipe de sua pátria, não por meio de crime ou de outra intolerável violência, mas com a ajuda dos seus compatriotas. O principado assim constituído podemo-lo chamar civil, e para alguém chegar a governá-lo não precisa de ter ou exclusivamente virtude [virtù] ou exclusivamente fortuna, mas, antes, uma astúcia afortunada. Pois bem, a ajuda nesse caso é prestada pelo povo ou pelos próceres locais. É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo. Destas tendências opostas surge nas cidades, ou o principado ou a liberdade ou a anarquia.

O principado origina-se da vontade do povo ou da dos grandes, conforme a oportunidade se apresente a uma ou a outra dessas duas categorias de indivíduos: os grandes, certos de não poderem resistir ao povo, começam a dar força a um de seus pares, fazem-no príncipe, para à sombra dele terem ensejo de dar largas aos seus apetites; o povo, por sua vez, vendo que não pode fazer frente aos grandes, procede pela mesma forma em relação a um deles para que esse o proteja com a sua autoridade”

*Nicolau Maquiavel (1469-1527) filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política. O Principe (1515), Capitulo lX, p. 45. Editora Martins Afonso, 2014

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.