domingo, 7 de junho de 2026

O custo dos agrotrogloditas, por Elio Gaspari

O Globo

Relatório dos EUA cita Moratória da Soja pelo qual grandes exportadoras se comprometem a não comprar commodity plantada em área de desmate

Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.

Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.

O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)

Eram os tempos do Lalau, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha

Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914, a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.

“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.

Algo de novo no ar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com a crise nacional de lideranças, Ricardo Couto surge como novidade justamente no sofrido Rio

Mais um governador do Rio de Janeiro desembarca de pires na mão em Brasília nesta semana, mas este, o desembargador Ricardo Couto, parece bem diferente de sete anteriores que tiveram problemas na Justiça, cinco deles sendo presos. O Brasil busca desesperadamente sangue novo na política e na gestão, vamos ser otimistas?

Não só por Couto ser desembargador, porque o precedente de Wilson Witzel, que caiu no meio do mandato, é uma vergonha para a magistratura e um dos traumas do Estado. Mas Witzel é Witzel, Couto é Couto, buscou os apoios certos e parece determinado a fazer a diferença.

Tarifaço e a oportunidade para o Brasil, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

As pressões tarifárias do governo Trump abrem oportunidade histórica para o Brasil reduzir de forma negociada suas barreiras comerciais, que fazem mais mal aos brasileiros que aos próprios americanos. A demagogia do governo Lula e a influência política dos setores industriais beneficiados pelo protecionismo me dão a triste certeza de que isso não vai acontecer. Os segmentos mais dinâmicos da economia brasileira serão castigados, mais uma vez.

Os argumentos do governo, de que o Brasil aplica efetivamente tarifas médias de 3% sobre os produtos americanos, e de que os EUA usufruem de superávit no comércio bilateral, são falaciosos. As alíquotas brasileiras sobre bens industrializados costumam partir de 20%, chegando a 35% no caso dos automóveis. Os produtos americanos não pagam esses impostos porque eles cumprem a função para a qual foram criados: bloquear as importações.

Faltam cinco meses para as eleições. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

Chegamos a um paradoxo perigoso: os partidos podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam muito mais

Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Espaço para a queda dos juros se reduziu

Por Folha de S. Paulo

Impacto inflacionário da guerra no Oriente Médio e do El Niño se soma ao de medidas eleitoreiras de Lula

Cenário torna complexa a próxima decisão do BC; política monetária mais dura aumentará o estresse financeiro da população e do governo

Novamente, o cenário econômico brasileiro se deteriora de forma visível, o que tende a frustrar a expectativa de que a taxa Selic, do Banco Central, pudesse cair de modo mais consistente ao longo deste 2026.

O que parecia um ciclo de afrouxamento monetário controlado deu lugar, em poucas semanas, a um estreitamento dramático do espaço para alívio.

Os fatores externos ajudam a explicar o aumento do risco inflacionário. Como resultado do conflito no Oriente Médio, o barril de petróleo Brent tem se mantido acima de US$ 90, elevando os custos de diesel, fertilizantes e de insumos industriais em geral.

Ao mesmo tempo, o fenômeno climático El Niño promete impacto na produção e nos preços de alimentos. Projeções de mercado já apontam para encarecimento da alimentação no domicílio em torno de 7%, o dobro do esperado no início do ano.

É o FIB, estúpido! Por Elias Gomes*

É possível melhorar as condições de trabalho no Brasil sem comprometer o crescimento econômico, sem provocar uma queda do PIB e sem colocar em risco a competitividade das empresas. Mais do que isso: é possível construir uma sociedade mais saudável, mais equilibrada e mais feliz.

Afinal, a economia é fundamental, mas não é tudo. O ser humano não existe para servir aos números. O PIB não abraça filhos, não participa de aniversários, não cuida da saúde mental e não devolve o tempo perdido. Precisamos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar.

O debate sobre o fim da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, trouxe à tona uma questão muito mais profunda do que a simples organização da jornada de trabalho. O que está em jogo é a qualidade de vida de milhões de brasileiras e brasileiros que dedicam a maior parte de seus dias ao trabalho e dispõem de apenas um único dia para descansar, cuidar da casa, conviver com a família, resolver problemas pessoais e tentar recuperar as energias para recomeçar tudo novamente.

Flávio Bolsonaro contra o Pix, por Celso Rocha de Barros*

Folha de S. Paulo

Bolsonarismo conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição

Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump

Com a ajuda da Casa Branca, o bolsonarismo tornou-se o único movimento político que conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição.

Para piorar, o "Tariflávio" de Trump incluiu uma ameaça explícita ao Pix: é como se Trump tivesse dado a Lula uma versão anabolizada do vídeo de Nikolas Ferreira do ano passado —e agora a ameaça ao Pix é real.

Para não deixar dúvida de que o bolsonarismo pretende matar o Pix por ordem de Trump, Eduardo Bolsonaro gravou vídeo sugerindo que o Brasil negociasse com os Estados Unidos a adoção do Zelle, um sistema de pagamentos americano que é mais lento, exige que se abra conta em um grande banco americano (que compensa nas tarifas a "gratuidade" do sistema) e tem uso muito mais restrito.

O mundo corre na IA, Brasil atola em juros letais, crime no poder e conversa irrelevante, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Discussão sobre últimos avanços da IA se torna pop e tema político-eleitoral nos EUA

Por aqui, juros altos eternos ameaçam sobrevivência de empresas, que dirá alguma inovação

O mundo corre, o Brasil atola. Por um lado, temos problema tão bárbaro quanto o dos americanos, que lidam com o "duce" da corrupção geral dos costumes, da democracia e do que resta de civilização, Donald Trump. Por aqui, uma versão moleque, corrupta e mais caricata do "duce" quer o poder em 2027.

Até problemas com juros nos afligem no mesmo momento, embora no Brasil se trate da perspectiva de longo atoleiro, com asfixia de empresas, investimento e crescimento baixo por muitos anos. Não dá para pensar nem mesmo em adoção de inovação, que dirá inovar.

O conto do vigário do terror, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Classificar PCC e CV como organizações terroristas é decisão política, não técnica

O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira

Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.

Formação do Parlamento é tarefa da sociedade, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O país tem a chance de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior

Quanto mais poder tem o Legislativo, mais importantes são as escolhas para a Câmara e o Senado

O crescimento do poder do Parlamento não serviu só para inverter o equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo. Servirá nesta eleição para dar chance ao eleitorado de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior.

Para isso é preciso observar alguns pré-requisitos na escolha de deputados e senadores. Renúncia ao pertencimento a bolhas ideológicas é um deles, mas há outros: atenção máxima ao cardápio de candidatos, prioridade semelhante à dada aos postulantes à Presidência e abandono de badulaques tais como carisma e venda de terrenos na Lua.

Um escândalo em Königsberg, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro reconstitui passos de julgamento envolvendo os Muckers, seita religiosa alemã do século 19

Processo envolveu fake news e opôs religiosidade popular a abordagem mais racionalista

Sir Christopher Clark é um dos grandes historiadores em atividade. Seu "Os Sonâmbulos", sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, publicado em 2012, já virou clássico. Foi com avidez, portanto, que li "A Scandal in Königsberg", assim que soube da existência do livro.

As duas obras não poderiam ser mais diferentes. Se a primeira trata de um episódio literalmente global, a segunda investiga um caso obscuro que se passou numa área provinciana da Prússia do século 19. Mas Clark consegue extrair lições universais desse escândalo envolvendo religiosos na cidade natal de Kant.