domingo, 12 de julho de 2026

A Revolução Americana explica por que a democracia sobreviverá com Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É impossível assistir à série da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos

Geralmente, quando vivemos uma situação que não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e das contradições que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, "a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.

O presidenciável e o ministro do STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que a tentativa de golpe desuniu, o Master uniu: Flávio e Alexandre de Moraes

O prazo venceu e o presidenciável Flávio Bolsonaro não deu explicações ao PL sobre a dinheirama que pediu a Daniel Vorcaro. E o ministro Alexandre de Moraes? Jamais justificou o contrato fabuloso do escritório de sua mulher com Vorcaro. De Dias Toffoli, nem se ouve falar mais.

O mundo dá voltas. O que a tentativa de golpe desuniu, o Banco Master uniu. Flávio e Moraes, de lados extremos no julgamento de Jair Bolsonaro, estão numa situação semelhante em relação a Vorcaro e Master. De certa forma, inclusive, um serve de para-raios para o outro.

Como endurecer com Flávio e não Moraes, ou vice versa? Ambos alegam, um publicamente, outro entre amigos, que se trata de negócios ou acertos privados, sem nada a ver com dinheiro público, e nenhum dos dois sofreu operação de busca e apreensão da Polícia Federal.

Estadistas e governantes de turno, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis

“Como alguém se torna o que é” foi o subtítulo do livro de Nietzsche, Ecce Homo (1889 e publicado em 1908). Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis. Afinal, como afirmou Eduardo Giannetti, “na vida das nações, não menos que na dos indivíduos, os primeiros momentos imprimem ao que está nascendo traços de teimosa permanência”.

Os norte-americanos comemoraram, poucos dias atrás, os 250 anos de sua Declaração de Independência. Historiadores não deixaram de notar que a Declaração de 1776 não deve ser confundida com a ratificação da Constituição, que só veio a acontecer 13 anos depois, em 1789. Simon Schama escreveu artigo memorável sobre o tema, publicado em caderno especial do Financial Times (FT), em que explora a relação entre a declaração e a Constituição com foco nas visões dos founding fathers, cujos compromissos, conflitos e contradições ainda hoje são relevantes para entender não só como os EUA se tornaram o que são hoje, como também o que pode vir a ser seu futuro.

Crescer continua sendo o desafio, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Menos afetado pela crise global, o País segue atolado no baixo dinamismo

Trapalhadas de Flávio Bolsonaro e brigas da direita favorecem, por enquanto, a busca de mais uma eleição pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A bagunça internacional pode atrapalhar, mas a Petrobras tem conseguido manter as vendas externas, enquanto outros exportadores tentam compensar, em mercados diversos, as dificuldades criadas nos Estados Unidos pelo presidente Trump. Amizades problemáticas e suspeitas de corrupção, tema persistente no dia a dia da política brasileira, podem afetar a imagem do governo, mas sem danos importantes até agora.

A economia nacional permaneceu razoavelmente positiva no primeiro semestre. Até a primeira semana de julho, a balança comercial acumulou superávit de US$ 44,63 bilhões, 39,2% maior do que o alcançado em 2025 no mesmo período. O resultado foi obtido com exportações de US$ 190,66 bilhões, 11,8% superiores às de um ano antes, e importações de US$ 146,03 bilhões, com aumento anual de 5,4%.

Benedito, por Ignácio Loyola de Brandão*

O Estado de S. Paulo

Benedito Ruy Barbosa morreu na semana passada, aos 95 anos. Cinco a mais do que eu. Jovens, nos encontrávamos no jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Ele nos esportes, eu na geral e em variedades. Ambos magros, sotaque caipira. O meu, araraquarense; o dele, de Vera Cruz, vizinha a Marília.

Na verdade, depois descobri que ele nasceu em Gália. Este nome me remetia às aulas de latim do professor Luciano, que nos obrigava a decorar De Bello Gallico. Quando me contou de sua cidade, eu disse: Garça, Gália, Vera Cruz, Lácio, Marília. Trajeto que eu fazia nas férias indo para sítios de tios cafeicultores de porte médio em Vera Cruz.

Na UH – como dizíamos –, ele ficava muito perto de mim, graças aos meus contatos com o mundo do cinema e do teatro. Assim, cautelosamente, ele foi chegando ao Oficina e ao Arena, que se contrapunham ao “teatrão”, como se dizia, do TBC, e de Cacilda Becker, Nydia Licia, Sérgio Cardoso e outros figurões.

O limite da perfeição, por Leandro Karnal*

O Estado de S. Paulo

Sem amigos sinceros, capazes de nos criticar, apertamos parafusos sem saber quando parar

Guardem a ideia de que, para melhorar, por vezes chegamos ao excesso que coloca tudo a perder

Seu Walter veio instalar um filtro na parede da minha cozinha. A peça cilíndrica encaixa-se diretamente e deve ser girada até que a rosca fique bem vedada. Estava perto do fim da tarefa. Seria bom dar uma última volta para garantir vedação absoluta. É zelo. É prudência. Meia volta a mais e… tudo se estragou. Foi excessivo. A água jorrou. A tentativa de chegar à perfeição estragou tudo. A história foi real e ocorreu na minha cozinha, na Rua Cotoxó, bairro da Pompeia, em São Paulo.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente proteger juízes que atuam contra facções

Por O Globo

De acordo com Fachin, pelo menos cem magistrados temem represálias por combaterem crime organizado

É preocupante a situação dos juízes que atuam contra o crime organizado, exposta pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, ao participar da instalação de novas varas especializadas em organizações criminosas no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Brasil, disse Fachin, tem hoje ao menos cem magistrados exercendo atividades consideradas de risco, sob temor de represálias. Desses, 79 contam com medidas protetivas, como escolta armada ou guarda-costas. As ameaças, segundo ele, se expressam principalmente por meio de ataques cibernéticos, exposição de dados pessoais e perseguição digital.

Flávio mentiu para os americanos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro quer comprar ajuda de Trump com nosso dinheiro

Bolsonarismo tenta vender facilidade aos brasileiros após ter criado dificuldade

Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir que Donald Trump suspenda o tarifaço temporariamente. O tarifaço, para quem não se lembra, foi organizado por Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. Na questão do tarifaço, o bolsonarismo está tentando vender facilidade aos brasileiros depois de ter criado a dificuldade, uma tática clássica no mundo da corrupção.

É como se Lula tivesse pedido, e obtido, sanções chinesas contra o Brasil depois da vitória de Jair em 2018, só para aparecer em 2022 dizendo: olha, prometo resolver esse negócio de sanções chinesas, realmente terrível isso, quem será que fez, se vocês me elegerem eu as reduzirei pela metade.

Lula não fez isso. Os Bolsonaros fizeram.

Direita sente, em Flávio Bolsonaro, o bafejo de maus ventos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Resistências e falta de empenho da direita contrastam com os bons índices do senador nas pesquisas

Contratempos da candidatura comunicam que hipótese de derrota é fava que se conta sem grandes lamentações

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem isso porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. A acurada percepção sobre a direção dos ventos é uma das habilidades inerentes à atividade.

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro (PL) conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

Ruge um tigre de papel, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado ajuda a explicar fenômeno Espriella

Avanço internacional da ultradireita tem elementos que indicam mudança na relação de políticos com as massas

Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

Muitos times para um coração, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Perguntei à IA por qual time torcia o comediante Zé Trindade. Respostas: por nenhum e vários

Dependendo da formulação da pergunta, a IA, sem nenhum caráter, responde de modo diferente

Uma das qualidades da IA é que, ao lhe fazer uma pergunta, você terá direito a uma resposta múltipla. Só depende da maneira como formulou a dita pergunta. Outro dia, em meio a uma pesquisa sobre comediantes brasileiros do passado, perguntei à IA qual era o time de coração do genial Zé Trindade. Para quem não se lembra, Zé Trindade (1915-1990) foi um astro do estúdio Atlântida, em chanchadas deliciosas hoje proibitivamente incorretas até nos títulos, como "Mulheres à Vista" (1959), "Mulheres, Cheguei!" (1959), "Marido de Mulher Boa" (1960), várias outras.

Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front, por Roberto Amaral*

Os EUA completam 250 anos de independência. Nada mais significativo e próprio celebrarem a efeméride sob a regência de Donald J. Trump, o presidente que, em pleno século XXI, representa, fortalece e atualiza a essência arrogante, colonialista e imperialista de sua história, como povo, nação e país. Essa essência ilumina a pretensão ideológica do destino manifesto, definido por Henry Kissinger como “a obrigação dos EUA de disseminar seus valores por todo o mundo” (Sobre a China, 2011).

As bases objetivas do imperialismo estão expressas na Doutrina Monroe (1823), consolidada pelo que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”. Refere-se à era da política do big stick do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), resumível na frase: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete”, revista por Trump com a omissão da primeira parte.

O atual governo — intervencionista na América Latina, na Palestina, e no Irã, honrando o legado de seus antecessores — não pode ser visto como “um ponto fora da curva”.

Poesia | Festa da poesia, de Marcelo Mário de Melo

Vou à festa da poesia

festa de entrada franca

ninguém é dono nem manda

ninguém promove ou banca.

 

Nela os portões são abertos

por nuvens de passarinho

e o recepcionista

é um cavalo marinho.

 

Para iluminar o espaço

as estrelas se abaixaram

e as cores do arco-íris

se soltaram pra pintá-lo.