Lula se recusa mais uma vez a participar de
confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo
O país está diante de uma escolha difícil
entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse
financeiro
A decisão de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
de não
participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial
deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro
turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que
essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política
nacional.
Flávio
Bolsonaro (PL),
que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser
mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo
de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando
desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de
afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.
A indigência do cotejo de programas é o
efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos
candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É
fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de
platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.
Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro
no país também ofende a Cristo
Mas tenho direito à ignorância e sou livre
para renunciar à minha liberdade
Eu posso ignorar que Flávio
Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao
anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do
Senhor Jesus
Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.
Posso ignorar que o pastor JB Carvalho,
fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição
religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e
assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora
Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB
e os riscos à liberdade religiosa.
Posso ignorar o desprezo de Flávio por
mulheres, sua rejeição à Lei Maria da
Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar
apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes
bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões
extremistas do Brasil e dos Estados
Unidos.
Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se
irmão for eleito
E há o risco de a promessa se alastrar para
outros órgãos, como PF e BC
Duas reportagens
de Patrícia Campos Mello publicadas
nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio
Bolsonaro, se eleito.
Depois do isolacionismo implementado durante
o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se
bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na
condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do
Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.
Campanha de 2010 também teve questão
religiosa oportunista; 2026 é muito pior
Selvageria que tira carne e medula do osso
das instituições é a nova regra do jogo
A eleição para presidente de 2010 teve
"guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a
azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim
da picada.
Direitas optaram por entregar liderança à sua
facção mais autoritária
Esquerdas têm que oferecer tradução renovada
de seus compromissos
O presidente Lula, seu vice, Geraldo
Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os
três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de
1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim
dizer, a última eleição da Nova República.
As direitas, em transição geracional, optaram
por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida
com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim,
produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo
prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.
Por suas declarações em palanques, é como se
Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus
Um deles é o de que vai terceirizar seu
mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?
Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer
que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar
com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais
assim. Flávio
Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em
comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência.
E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e,
se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.
"Deus está me preparando há 24 anos para
ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi
Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como
quem respira e suplicar
dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em
minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de
ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma
midiática crucificação.
Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA
expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos
Algo ruim vai nos acontecer como resultado
disso
Donald Trump
é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que
presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira
como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um
quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no
lugar do retrato de Biden?
Infelizmente, porém, quando alguém tão
moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou
de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da
Era da Inteligência
Artificial, não se pode ignorá-lo.
Porque, neste momento, Trump está deixando os
Estados
Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos.
Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos
por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.
Cinco anos atrás, uma percepção do economista
francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo
estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução
Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que
elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão
de pessoas em situações precárias.
Era mais um alerta do
que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado
foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.
"Em muitos
sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia
ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos em um
período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão
elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para
"uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas
de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty retornou à
cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no
Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe
liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na
capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários
países ao longo dos últimos anos.
No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no
estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida
pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e
impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil,
na cotação do final de setembro) até 2100.
O relatório também
propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional,
cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção
de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além disso, há
propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou
famoso, nos anos 2010, com seu O
capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto
global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel
central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu
incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no
comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.
Nos fóruns que se
seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas
de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A
próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.
"Será muito
triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na
direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições].
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário,
econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático
e consciente sobre o clima", diz.
A seguir, trechos da
entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do
primeiro turno da eleição presidencial brasileira.