terça-feira, 18 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Prioridade é reforma administrativa, não reajustes salariais

Por O Globo

Congresso parece mais preocupado em preservar distorções que em tornar Estado mais eficiente, mais justo e mais barato

A multiplicação de aumentos salariais para o funcionalismo público chancelada no Congresso é uma afronta ao bom senso e ao espírito republicano. Apenas o pacote de bondades aprovado na Câmara até o momento supera R$ 22 bilhões em custos, num Orçamento já engessado por gastos fixos que se refletem na crônica crise fiscal vivida por praticamente todos os governos. Evidentemente, como costuma acontecer nessas situações, a pressão de sindicatos por equiparação salarial com outras categorias promete tornar essa conta maior.

Onda conservadora, Por Merval Pereira

O Globo

A prevalência do grupo direitista no Chile fecha um ciclo de renovada onda conservadora na América do Sul

A provável vitória do candidato de ultradireita José Antonio Kast no segundo turno do Chile, onde cerca de 70% dos votos do primeiro turno foram dados para partidos de direita, desenha-se de maneira semelhante à situação atual brasileira. A direita chegou ao segundo turno desunida, mas imediatamente passou de segunda colocada para primeira no fim do primeiro turno. A esquerda estava unida, mas não teve força para obter nem mesmo o mínimo de 30% de votos esperados, embora tenha chegado em primeiro lugar.

A prevalência do grupo direitista no Chile fecha um ciclo de renovada onda conservadora na América do Sul, já governada pela direita na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador. Na Colômbia, existe a perspectiva de uma vitória da direita, embora o presidente Gustavo Petro, que não pode se reeleger, ainda tenha força política respeitável. Desde a reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, há uma tendência de união em torno dele do que os críticos já chamam de “internacional reacionária”.

Uma aventura em Belém, por Fernando Gabeira

O Globo

Há muitas questões na Amazônia que continuam insolúveis. A presença do crime organizado é uma delas

A decisão de realizar a COP30 em Belém foi audaciosa. Em termos de público é um sucesso. Cinquenta mil pessoas passaram por aqui. Fisicamente, para mim a COP representou um desafio. Andamos muito, tudo é muito distante. Descrevi o espaço como um gigantesco aeroporto sem cadeiras.

No meu telefone, há um aplicativo que mede meus movimentos. Todos os dias, registrava um recorde e me parabenizava pelo feito, como se fosse um atleta rompendo limites. E eu estava com a língua de fora.

Como em todas as COPs, as negociações se arrastam. Elas tratam dos grandes temas, financiamento, redução de emissões...

Por ser conhecido, tive o privilégio de sentir a diversidade e a riqueza do movimento ambiental. As pessoas me descreviam suas lutas, e gostaria de ter algumas horas de televisão para mostrar tudo isso.

Negociar como um rio amazônico, por Míriam Leitão

O Globo

COP segue seu curso, contorna os obstáculos e os incorpora na busca por consenso climático

A conferência de Belém tem encontrado caminhos sinuosos que contornam obstáculos, mas, ao mesmo tempo, vai negociando os bloqueios e os incluindo na jornada. Lembra um rio amazônico. De início, quatro grandes itens ficaram de fora da agenda. Pois bem, esses quatro agora viraram um só bloco que corre paralelo e pode desembocar no rio principal, o dos temas da agenda. Houve um olho d’água que surgiu inesperadamente, e ele pode desaguar também no comunicado final, o mapa do caminho para a redução gradual dos combustíveis fósseis.

Ontem foi o primeiro dia da etapa decisiva. Esta é a semana dos ministros, dos tomadores de decisão, e eles começaram a chegar para esses cinco dias finais. Um observador me explicou o seguinte: é como se houvesse três grupos, o G-100 com os assuntos que estão na agenda, o G-4, com os itens sobre os quais se conversa em consultas; e o G-Roadmaps, do qual pode sair o roteiro para zerar o desmatamento e abandonar os combustíveis fósseis.

Espionagem com IA, por Pedro Doria

O Globo

Talvez os chineses tenham sido os primeiros. Talvez. O truque, agora, é conhecido. Quem pode já está usando

Em setembro deste ano, a China conduziu um ataque hacker extenso a um grupo de 30 organizações. Não sabemos exatamente quais — governos, estatais, empresas de tecnologia. Sabemos que são, todas, entidades com presença global e que o objetivo do ataque era espionagem. Entrar nos servidores e puxar tanta informação quanto possível. Nada de surpreendente, aí. Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, Israel, os países que têm a capacidade técnica de espionar, espionam. Quem pode conseguir alguma informação que ajude a tomar decisões entendendo os lances que o outro lado está planejando, o faz. Mas esse ataque foi diferente num sentido bastante particular. Os chineses usaram ferramentas de inteligência artificial à disposição de qualquer um. E isso transforma radicalmente o jogo de espionagem.

Ninguém conhece o Novo Marco Legal de Combate ao Crime Organizado, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O conceito legal de “facção criminosa” foi alterado diversas vezes, com termos vagos como “organização criminosa ultraviolenta”. O objetivo de Derrite era unir direita e centro

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), confirmou a votação do chamado Novo Marco Legal de Combate ao Crime Organizado hoje. “Segurança pública exige firmeza, mas também garantias e eficiência institucional. Por isso, inseri na pauta de amanhã e a Câmara dos Deputados vai votar o Marco Legal de Combate ao Crime Organizado. É a resposta mais dura da história do Parlamento no enfrentamento do crime organizado”, anunciou na manhã de ontem.

Motta reforçou que o texto “aumenta as penas para integrantes de facções e dificulta o retorno às ruas, também cria e integra os Bancos Nacional e Estaduais de Dados sobre as Organizações Criminosas”. A firmeza do presidente da Câmara contrasta com o conteúdo nebuloso da proposta: ninguém sabe ainda qual versão será votada. O relator Guilherme Derrite (PP-SP), licenciado da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e politicamente alinhado ao governador Tarcísio de Freitas, apresentou quatro versões diferentes — todas polêmicas, todas recusadas, ora pelo governo, ora pela oposição, ora por ambos.

O Brasil ante o cerco da direita no continente, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Cenário externo, para Lula, será mais desafiador do que aquele de 2022

Num evento empresarial, o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, usou a passagem pela COP30 como escada para a afirmação de que seu país era um dos mais bonitos do mundo: “Perguntei a alguns jornalistas que estiveram no Brasil. Quem de vocês gostaria de ficar aqui? Ninguém levantou a mão. Todos ficaram felizes por termos voltado, principalmente por termos saído daquele lugar onde estávamos”.

Seis meses depois de ter tomado posse, Friedrich Merz já se tornou um dos dirigentes mais impopulares da história alemã, com apenas 25% de aprovação. Como sua eleição foi considerada o que a Alemanha conseguiu de melhor para evitar a ascensão da extrema-direita, Merz revela mais sobre a encruzilhada política do seu país do que sobre o Brasil.

Sua xenofobia afeta menos a perspectiva do acordo Mercosul-União Europeia do que o amor de Emmanuel Macron pelo Brasil, mas a visão, a partir do poder, na maior economia europeia é um aperitivo sobre um ambiente internacional mais hostil ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2026, do que aquele que marcou sua volta ao poder em 2022.

O que a eleição no Chile projeta para o Brasil, por César Felício

Valor Econômico

Base que rejeita Bolsonaro, Milei e Kast é heterogênea e tem pontos de contato com a direita

A ultradireita que viceja na América Latina não vive uma ascensão irresistível. Ela tem um teto, que pode ser transposto ou não caso haja uma comunicação eficiente durante a campanha. No caso da eleição presidencial do Chile, que terá seu segundo turno nas próximas semanas, tudo indica que essa transposição do teto vai acontecer. E o caso chileno poderá servir de modelo para a direita brasileira em 2026.

O segundo turno no Chile irá contrapor a comunista Jeannette Jara, que teve 27% dos votos, ao radical de direita José Antonio Kast, que teve 24%. Mas também são de direita, em menor ou maior grau, o terceiro, quarto e quinto colocado, o que dá a Kast amplo favoritismo na rodada decisiva. Antes de qualquer outra análise essa já é uma fotografia que talvez se repita no Brasil ano que vem: uma direita fragmentada no primeiro turno a se unir no segundo turno diante de um governista com rejeição grande.

Das favelas ao crime, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dos “soldados do tráfico”, 63% ganham 2 salários mínimos e 58% trocariam o crime por emprego

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), prometeu para hoje a votação do projeto antifacções, que ele definiu como “a resposta mais dura da história do Parlamento no enfrentamento do crime organizado”. Espera-se que seja, além de dura, eficaz contra os chefões do crime, que se disfarçam em suas mansões e carrões, e não só contra os “soldados e olheiros”, que ganham pouco, servem de escudo para os mandachuvas e morrem cedo – como quantos dos mortos no Rio?

Nem chefões nem “soldados” são santos, todos são criminosos, mas é preciso combater o crime principalmente pela cabeça, não pelo pé, como desde sempre, até porque a oferta de “soldados e olheiros” é farta, imensa: jovens, pretos e criados em favelas, sem oportunidade de estudar, trabalhar e viver dentro da lei. Um destino escrito nas estrelas e na desigualdade social do Brasil.

Balão Flávio, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro está inelegível. Eduardo estará. Sobrou Flávio, que, tudo o mais constante, concorreria à reeleição (tranquila) ao Senado – de repente o nome da vez a testar o mercado eleitoral da direita para 2026. O novo nome do bolsonarismo puro-sangue, admitido-avalizado pelo bolsonarismo eduardista, considerada a reivindicação de hereditariedade com a qual a família se projeta-proclama.

O nome ora possível do “bolsonarismo com Bolsonaro” para presidente, reação à jogada corrente-influente por uma chapa “bolsonarista sem (um) Bolsonaro”.

Atalho para onde? Por Jorge. J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A velha CLT continua a ter função e, para parte não desprezível dos trabalhadores, a ser considerada instrumento de garantia e segurança

No Brasil, 25,9 milhões de pessoas trabalham por conta própria . Talvez o dado surpreenda, mas está na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do terceiro trimestre de 2025, divulgada na semana passada. O número equivale a um quarto do total de 102,4 milhões de pessoas ocupadas. Poderia ser interpretado como prova forte do desejo dos brasileiros de tocar sua própria empresa, para fugir dos limites de um contrato formal de trabalho. Reforçaria a interpretação de que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em vigor desde 1943, perde importância de maneira acelerada.

Miscelânea no tempo, por Gilvan Cavalcanti

Acredito que uma revisita às ideias dos pensadores clássicos, ajudaria a pensar o novo mundo e o Brasil, em sua interconexão digital, fenômeno mais visível das mudanças contemporâneas. Poderia se evitar pensar e agir, politicamente, na tentativa de um retorno ao velho, ao antigo, como se novo fosse. É disso que se trata.

Tenho uma convicção. Há um consenso que o mundo material não é estático. Os pensadores da Grécia antiga, já anunciaram: ‘tudo flui’ e ‘nada’ é permanente, exceto a mudança’. Nos tempos modernos, com o surgimento do capitalismo, Marx sentenciou: ‘tudo que é sólido desmancha no ar’. O movimento da história já comprovou essa tendência. É incessante e permanente a mudança, inclusive na ciência e na tecnologia. No pensamento e no agir político, ocorre o mesmo processo continuo de mudança, conflito, interdependência globalista, ou como outros preferem, cosmopolita.

É o instante de pensar o nosso compromisso com o País. Isto sugere tentar desvendar essa complexa sociedade brasileira. Acredito que devemos partir dos elementos embrionários que definam nosso processo de afirmação do capitalismo brasileiro, seu êxito nesses longos anos de profundas modificações moleculares ocorridas. Entender esse caminho facilitaria muito o nosso caminhar futuro. E só a democracia política é o porto seguro para um pensamento reformista. O caminho mais real é debruçar sobre a conjuntura.

Eleitor chileno deixa cenário em aberto para segundo turno em dezembro, por Sylvia Colombo

Folha de S. Paulo

Com fragmentação da direita, comunista Jara sai vencedora em primeira rodada, mas rivais podem se unir em torno de Kast

Retórica de campanha se distanciou do Chile real, com instituições sólidas e indicadores melhores que os da região

O resultado da votação no Chile confirmou o cenário que as pesquisas já vinham indicando: a candidata governista Jeannette Jara foi a mais votada no primeiro turno (26,85%), com o ultradireitista José Antonio Kast logo atrás (23,92%). A participação nas urnas, de 85,4%, foi elevada, impulsionada pela obrigatoriedade do voto —uma reforma em vigor desde 2022— e por um pleito que mobilizou o país em meio a um clima dominado pela pauta da segurança pública.

centralidade do tema contrasta com os indicadores objetivos. Embora tenha aparecido como prioridade em todas as pesquisas de opinião —com eleitores atribuindo-lhe maior peso eleitoral—, o Chile continua entre os países da América Latina com taxas de homicídio comparativamente baixas. O peso excessivo da questão da segurança pública na campanha e no comportamento eleitoral revela uma percepção inflada, capaz de moldar as últimas semanas e favorecer discursos de resposta rápida e medidas de difícil execução, sobretudo no curto prazo.

Os ventos do continente sopram para a direita, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Maioria dos fatores que elegeu a direita em nossos vizinhos está presente aqui também

Esquerda se mostra muito mais dependente de Lula do que o outro lado do espectro é de Bolsonaro

O primeiro turno da eleição presidencial do Chile foi vencido por Jeanette Jara, do Partido Comunista. O problema: não só o segundo colocado, José Antonio Kast, como os próximos três são todos de direita. É muito provável, portanto, que a direita vença o segundo turno. Gabriel Boric, outro dia a promessa de uma nova esquerda, assiste ao seu país dar uma guinada na direção contrária.

Depois da mudança na Bolívia, que depois de 20 anos elegendo a esquerda elegeu Rodrigo Paz em outubro, e do triunfo de Milei nas eleições legislativas, a mudança no Chile marca um padrão. O pêndulo da política sul-americana está indo para a direita.

Se bobear, Cláudio Castro vende até o Cristo Redentor, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Maracanã encabeça a lista de ofertas para reduzir o rombo orçamentário

Numa jogada política, compra do estádio é negociada com o Flamengo

Por enquanto o Cristo Redentor escapou da bacia das almas. Mas nada impede que amanhã seja incluído no balcão de ofertas, posto à venda para reduzir a dívida e mitigar a crise fiscal do Rio de Janeiro. O rombo orçamentário previsto para 2026 é de quase R$ 19 bilhões, o maior em cinco anos.

Daí que Cláudio Castro —acusado de abuso de poder político e econômico na campanha de reeleição em 2022— teve a brilhante ideia de preparar, com a ajuda da bancada do Partido Liberal na Assembleia Legislativa, uma black friday particular, ofertando o complexo do Maracanã; o terreno onde fica o estádio Nílton Santos, arrendado ao Botafogo; o histórico prédio da Central do Brasil; o Terminal Rodoviário Américo Fontenelle, no centro da cidade. São mais de 60 imóveis em liquidação total, a custo de banana, pois o governador deixará o cargo.

Voto obrigatório afetou eleição no Chile? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

País andino reintroduziu o voto compulsório, com multa pesada para quem deixar de ir à urna

Parte dos especialistas crê que mudança pode ter acentuado tendência antissistema

A esquerdista Jeannette Jara e o ultradireitista José Antonio Kast se enfrentarão no segundo turno da eleição presidencial chilena no próximo dia 14. Como previsto pelas pesquisas, Jara chegou à frente de Kast, mas a diferença de menos de três pontos percentuais foi bem menor do que apontavam as principais sondagens.

Como a direita saiu dividida, e a esquerda, unida, a tendência agora é que o voto conservador se aglutine em torno de Kast e ele vença o pleito. Essa não seria a primeira vez que institutos de pesquisa subestimam a votação de candidatos da ultradireita, mas, no caso chileno, pode haver um outro fator que contribuiu para o bom desempenho dos postulantes mais radicais.