quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Mark Carney*

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

*O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil deve instituir prova para formado exercer a Medicina

Por O Globo

Qualidade sofrível dos cursos, exposta por exame do MEC, põe em risco saúde da população

É alarmante a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, como demonstrou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Parcela considerável dos alunos prestes a terminar o curso não tem conhecimentos mínimos para exercer a profissão. Dos 351 cursos avaliados, 107 ficaram em patamar abaixo do aceitável — menos de 60% dos alunos atingiram nível mínimo de proficiência. Dos 39 mil estudantes perto de se graduar, quase um terço não foi capaz de comprovar deter a formação básica. Em pouco tempo, estarão em postos de saúde, clínicas e hospitais sem qualquer impedimento. Diante de tal realidade, é essencial impor como condição para a prática da Medicina a aprovação numa prova nacional compulsória, em moldes semelhantes aos adotados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a advocacia.

Ninguém pode, nem tenta, deter Trump. Por Vera Magalhães

O Globo

É estarrecedora a letargia completa das instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo

A cada dia com ao menos uma nova e grave arbitrariedade de Donald Trump, doméstica ou além-fronteiras, cresce uma dúvida tão básica quanto perturbadora: nenhuma instituição ou país será capaz de detê-lo? Há meses já não é exagero temer pela implosão não só da democracia americana, mas de todos os complexos mecanismos que configuraram a ordem mundial desde o Pós-Guerra, e, ainda assim, não se forma uma coalizão capaz de minimamente representar um freio à escalada.

O capítulo da semana é a inacreditável crise pelo controle da Groenlândia, que parece coisa de jogo de tabuleiro de criança, mas é séria. Trump reavivou sua antiga obsessão por adquirir o território, pertencente à Dinamarca, com desculpas para lá de delirantes. A ofensiva veio, uma vez mais, acompanhada de ameaças tarifárias contra os aliados da Europa, que, por sua vez, ditaram o anúncio de retaliações — dinâmica que vai se reproduzindo em relação a vários países e blocos e mina qualquer previsibilidade nas relações geopolíticas e comerciais.

O Enamed é uma vitória. Por Elio Gaspari

O Globo

Faculdades formam médicos incapazes

A má notícia veio na semana passada. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) queria barrar na Justiça a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Logo depois, veio a boa notícia: o pedido foi negado, e na segunda-feira os dados do Enamed foram divulgados.

O comportamento da Anup equivale ao de um médico que se recusa a mostrar ao paciente os resultados de um exame mandado pelo laboratório.

Deu o que se previa: de uma maneira geral, os melhores cursos são de universidades públicas (gratuitas) e os piores são de faculdades privadas (pagas).

Quem vai pagar a conta do rombo de R$ 41 bilhões do Banco Master. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O caso expõe o velho modelo brasileiro: privatização dos lucros, socialização dos prejuízos, e põe o STF e o Congresso em rota de colisão e sob forte desgaste na opinião pública

O ponto mais sensível do escândalo do Banco Master é o custo final do rombo de R$ 41 bilhões apurado até agora, que recai não apenas para seus controladores, mas sobre a institucionalidade do nosso sistema financeiro, as regras desenhadas para evitar pânico bancário e proteger depositantes, com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O banco liquidado pelo Banco Central, além desse montante em CDBs, tem uma carteira de 1,6 milhão de investidores a ressarcir. Essa não será paga pela Faria Lima no sentido abstrato, será por um sistema de “mutualização” que transforma o prejuízo de um agente econômico em risco de todos.

América nua. Por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

Donald Trump não se constrange ao expor o imperialismo norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um imperialista sem hipocrisia

Donald Trump foi eleito com o lema "America First", mas governa promovendo a "America Naked" (América nua). Faz o strip-tease da democracia norte-americana, como se a Estátua da Liberdade estivesse se despindo diante do mundo. Para começar, se desfaz da tocha que usa desde 1886 como ícone de boas-vindas aos imigrantes e impõe muros, deportações e mortes, divide famílias, tratando imigrantes como invasores indesejáveis, não gente.

Despe-se da máscara de intervenções em outros países travestidas de intenções democráticas e assume a face autêntica de roubar petróleo, terras raras e territórios. Quase todos os seus presidentes agiram de forma semelhante com discursos dissimulados. John Kennedy impôs o bloqueio a Cuba. Lyndon Johnson e Richard Nixon colocaram porta-aviões no litoral para apoiar golpes, inclusive no Brasil, impor ditaduras sempre sob discurso de promover democracia.

Um olho na UE e outro na reversão do tarifaço. Por Fernando Exman

Valor Econômico

Movimentos de Lula são exemplos da conduta pragmática do Ministério das Relações Exteriores e do Palácio do Planalto

O oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) abriu a porta do avião presidencial que acabara de pousar na base de Assunção na manhã do sábado (17), dia que marcaria a histórica assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia após décadas de negociação. Uma escada amarela conectava a aeronave ao solo da capital paraguaia, onde militares estavam perfilados em frente a um longo tapete vermelho para a recepção das autoridades estrangeiras. Mas, para a surpresa de muitos, a primeira pessoa a sair foi a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O drama da Venezuela e o papel do Brasil. Por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia

Ninguém sabe com um mínimo de certeza o que ocorrerá na Venezuela. O acordo entre o governo Trump e o regime venezuelano tem bases frágeis.

Seja quem for o vencedor das eleições presidenciais deste ano no Brasil, terá de lidar com mais um capítulo da prolongada crise da Venezuela, a mais profunda e dramática jamais vivida por um país vizinho. Não é pequeno o risco de que o futuro presidente se depare com um cenário caracterizado pela escalada da intervenção dos Estados Unidos, com tropas estadunidenses no território venezuelano, em conflito com grupos armados ligados ao regime chavista. Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia.

Crise do Master é ‘ensaio para juízo final’. Por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Planalto avalia que terá de fazer mais concessões para aprovar indicação de Messias ao STF

O escândalo do Banco Master vai agitar ainda mais a Praça dos Três Poderes quando deputados e senadores voltarem das férias, no início de fevereiro. No Palácio do Planalto, ministros definem o impacto das investigações sobre as fraudes como “ensaio para o juízo final”, diante das conexões políticas de Daniel Vorcaro, dono do banco, com o Centrão e seus agregados.

O governo Lula avalia, agora, que terá de fazer mais concessões para que a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) seja aprovada pelo Senado no mês que vem. Até hoje, o movimento feito pelo Planalto, a contragosto do Ministério da Fazenda, não foi suficiente.

A eleição no preço do mercado. Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O divisor de águas para uma tomada de posição do mercado sobre as eleições será o dia 4 de abril

Foi relativamente tímida a reação do mercado à primeira pesquisa de intenção de voto do ano para a eleição presidencial, divulgada na semana passada. Além de a pesquisa mostrar um cenário praticamente inalterado em relação à virada do ano, com o presidente Lula (PT) mantendo-se na liderança e o senador Flávio Bolsonaro (PLRJ) consolidando-se em segundo lugar, a maioria dos investidores ainda não mexeu na alocação das suas carteiras mirando o desfecho de quem sairá vencedor do pleito.

Apesar de Tarcísio de Freitas (Republicanos) repetir que irá concorrer à reeleição ao governo paulista e que seu candidato na chapa presidencial é Flávio, os investidores mantêm, lá no fundinho do coração, a esperança de uma reviravolta e de que o nome da direita a disputar com Lula em outubro será o de Tarcísio. Ou seja, caso isso venha mesmo a acontecer – Flávio desistindo da candidatura ou, ao menos, de ser cabeça de chapa –, os preços dos ativos devem reagir estrepitosamente à injeção de otimismo da Faria Lima.

Se a Europa se render de novo a Trump, mundo fica ainda mais perigoso. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Projeto de tirano dos EUA foi contido apenas quando foi peitado ou por causa de risco doméstico

China, a Rússia de Putin, começo de pânico financeiro e impopularidade maior limitaram Trump

Donald Trump 2 foi contido até agora apenas por retaliações comerciais e armas nucleares chinesas, por um início de pânico no mercado financeiro americano (no tarifaço de abril de 2025), pela indiferença cínica e pelas armas nucleares de Vladimir Putin e pelo receio de que o mau humor do eleitorado aumentasse ainda mais, por causa de preços elevados por impostos de importação desmedidos. Por falar nisso, Trump 2 é ora menos impopular que no final do primeiro ano de Trump 1.

Trump foi parcialmente contido, de resto. A cada vitória sentiu-se mais à vontade para começar outro ataque bárbaro, contra outros países ou contra os próprios cidadãos e a Constituição dos Estados Unidos.

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Declaração franca do premiê canadense dá a receita para os tempos presentes

Recado de Mark Carney é simples e acertado: países têm de denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "ερων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "ερων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "λαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "λαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".

Falta uma agenda de Brasil nos discursos eleitorais. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo e oposição por enquanto estão juntos na falta de projetos de país a serem apresentados ao eleitorado

Ministros falam dos temas da campanha, mas deixam de fora as demandas por segurança e produtividade

Um dos temas que dominam as cogitações iniciais do ano eleitoral é justamente qual será o tema dominante na campanha. As pesquisas apontam a segurança pública, mas dois ministros que falaram recentemente sobre isso não incluem o assunto nos destaques.

Fernando Haddad (PT) disse ao UOL que a economia não definirá vencedor nem perdedor, ao contrário de eleições anteriores. Talvez tenha pretendido afastar sua gestão na Fazenda do escrutínio público.

Democracia é dever de casa do STF. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A defesa do regime inclui rever hábitos institucionais

Caso Banco Master mostra que corte precisa impor-se limites republicanos mais estritos

Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal desempenhou um papel decisivo na contenção de investidas antidemocráticas reais. Não se trata de retórica nem de gratidão automática. Executivo, bolsonarismo, setores do Legislativo, militância e influenciadores digitais, jornalismo ativista de direita e até frações das Forças Armadas testaram os limites da ordem constitucional.

STF resistiu e reagiu quando outras instituições vacilaram.

Justamente por isso, causa inquietação crescente a constatação de que hoje a defesa da democracia passa, paradoxalmente, por proteger o próprio STF de práticas e comportamentos que corroem sua autoridade republicana. Um tribunal constitucional não pode ser, ao mesmo tempo, o guardião último da democracia e o violador contumaz das regras de impessoalidade, sobriedade e contenção que estruturam o ideal republicano.

Cenário insustentável para 2026 e temerário para 2027. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão *

Lula devia aproveitar essa chance que Donald Trump está lhe oferecendo de participar, em companhia de algumas personalidades mundiais, do Conselho da Paz, para discutir um entendimento entre Israel e o Hamas e a recuperação de Gaza . É uma chance concreta de entrar para a História. 

A solução saída desse Conselho terá reflexos sobre outros conflitos que estão acontecendo no mundo. Dificilmente , por aqui,alcançaria resultado igual, mesmo que o ego indique que poderá atrapalhar a sua pretensa reeleição.

Daqui há duas semanas, o Congresso Nacional retoma suas atividades, e ele não tem a maioria; o Judiciário deixará de falar monocratimente por um presidente de plantão. Os escândalos do Banco Master, do INSS, o dos Correios e , por analogia , ao Mensalão e ao Petrolão, que estão surfando no tempo , começarão a ser desenterrados e pautados na política, em praça pública, pelos carnavalescos.