domingo, 15 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim demagógico da escala 6x1 terá preço alto

Por O Globo

Custo da hora trabalhada subiria entre 8% e 18%. Desemprego e informalidade cresceriam

De olho nos dividendos eleitorais, governo e Congresso apostam na redução da jornada de trabalho. A ideia é acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1. Na última segunda-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) duas Propostas de Emenda à Constituição. As duas reduzem as horas de trabalho mantendo intocado o salário. Basta matemática elementar para entender que isso significará menos produtividade, portanto menos geração de riqueza na economia.

Interesses cruzados, por Merval Pereira

O Globo

Porque Toffoli chamou a si e colocou o máximo de sigilo em todo o processo do Master? Porque queria esconder suas relações com Vorcaro

Os trechos publicados pelo site Poder 360 revelando parte das discussões havidas na reunião supostamente secreta dos 10 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que resultou na saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master revelam um espírito de corpo que não condiz com o papel institucional que o órgão representa. Afirmar como ponto de vista da instituição que Toffoli não tinha por que declarar-se impedido, mesmo diante do relatório da Polícia Federal que mostrou no mínimo um conflito de interesses na relação do ministro com o réu, é superar em muito a interpretação da lei.

A traição implícita na gravação da reunião já mostra que o Supremo passa por uma crise interna grave, e não é com posições extremadas como as do ministro Flavio Dino, que só vê suspeição em casos de pedofilia e diz que seu time é “STF Futebol Clube”, que vai ser resolvida. Ministros alegam que os elogios e a lealdade dedicadas a Toffoli foi uma maneira de induzi-lo a aceitar se afastar do caso, mas será preciso que se alterem regras e procedimentos para que o espírito de corpo exibido se transforme em espírito cívico, esse sim que deveria reger os atos dos “Supremos”.

As lições do caso Master, por Míriam Leitão

O Globo

Com a saída de Toffoli do caso Master, não há mais justificativa para sombras. A transparência tem que ser a norma. O sigilo, a exceção

Ainda há chão até que se conclua tudo o que cerca a quebra do Banco Master, mas já é possível tirar algumas lições do caso. A desta semana é essencial. Nenhum ministro do Supremo, por mais poderoso que seja, pode deixar de declarar o seu impedimento em algum caso, porque o país não está disposto a fazer vista grossa. Dias Toffoli foi empurrado para a saída, mas saiu esperneando. Ele achava que, mesmo tendo recebido dinheiro da teia de fundos de Daniel Vorcaro — como pagamento, segundo explicou, pela venda de um bloco acionário — poderia ser o juiz do caso. E que, sendo o juiz, poderia fazer todos os absurdos, como interferir na Polícia Federal e tentar intimidar o Banco Central.

O sigilo virou veneno, por Elio Gaspari

O Globo

No dia 2 de dezembro, o ministro José Antonio Dias Toffoli impôs o grau máximo de sigilo às investigações sobre o escândalo do Banco Master. Má ideia, coisa de poderosos de Brasília. Em menos de um mês o ministro virou um braço das tramas do banqueiro Daniel Vorcaro e de sua rede de intere$$e$. Com um funeral de primeira, seus pares tiraram-no do caso.

Quando Toffoli baixou o sigilo e também centralizou em seu gabinete o curso das investigações, supôs que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cabe uma pergunta: a armação podia ter funcionado? Só se tivessem combinado com a Polícia Federal (PF). Como a lenda atribui ao jogador Garrincha, faltou combinar com os russos. Não só faltou combinar, Toffoli desafiou a Polícia Federal.

Veias abertas da Venezuela, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Reportagem de 1971 mostra que petróleo e pobreza convivem há décadas no país

“Este país é um dos mais ricos do mundo. Também é um dos mais pobres e mais violentos.” Assim começa a reportagem “A civilização do ouro negro”, de Eduardo Galeano. Publicada em 1971, descrevia uma Venezuela que já passava por agruras muito antes do chavismo.

O texto retrata um país que produzia 3 milhões de barris de petróleo ao dia, mas negava serviços básicos à população. “A metade dos venezuelanos tem menos de 18 anos de idade. E mais da metade das crianças e dos adolescentes não recebe nenhum tipo de educação”, anotou o jornalista e escritor uruguaio.

“Desde que o primeiro poço rebentou aos borbotões, o orçamento nacional foi multiplicado por 100, mas a maioria da população continua tão pobre como na época em que o país dependia do cacau e do café”, resumiu.

Corpo como arte, por Dorrit Harazim

O Globo

Patinadores olímpicos podem ser vistos como híbridos de atleta e esteta; sua carne, testemunho da beleza da disciplina

Merece quase comiseração o trio de juízes de patinação artística no gelo que, de ofício, precisam se concentrar exclusivamente, com absoluta atenção, no desempenho técnico de cada competidor. Mesmo os outros nove árbitros que pontuam os elementos artísticos de uma apresentação, portanto também atrelados a um código de regras, não têm a liberdade de se deixar enlevar. Em contrapartida, o espectador pode se deixar transportar sem culpa e vivenciar júbilo sensorial raro.

O carnaval como rito e sonho não combina com propaganda eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

No culto à personalidade de Lula, a Acadêmicos de Niterói associa o presidente da Repúbçica candidato à releição à resiliência e identidade do povo brasileiro, mas preocupa o Palácio do Planalto

A grande expectativa deste domingo é o desfile da Acadêmicos de Niterói, que abre a apresentação das grandes escolas de samba na Avenida Sapucaí. Na contramão da espontaneidade do carnaval de rua, a agremiação aposta no apelo popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E corre o duplo risco de um desfile chapa branca e da campanha eleitoral antecipada com recursos públicos.

Um dos segredos dos grandes carnavalescos, como Rosa Magalhães, Fernando Pamplona e Joãozinho Trinta, era o mistério sobre seus desfiles. No caso da Acadêmicos de Niterói, quase tudo é previsível: através da metáfora da árvore símbolo da resistência na cultura afro-brasileira, a escola pretende contar a vida do operário metalúrgico que se tornou presidente da República. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” pode não dar mais nenhum voto à reeleição do presidente da República, mas já deu muita projeção à escola.

Saúde mental no trabalho: novas regras reconhecem que o problema não é individual, por Valdir Florindo

Correio Braziliense

Com a atualização da NR-1, deixa-se de perguntar apenas quem adoeceu para investigar como o trabalho está organizado e o que deve ser feito para prevenir o adoecimento mental

Em 26 de maio de 2026, entra em vigor uma mudança relevante na forma como o Brasil trata a saúde mental no trabalho. A atualização da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho, passa a exigir que o gerenciamento de riscos ocupacionais inclua, de maneira expressa, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. O alcance da norma é claro: o sofrimento psíquico deixa de ser tratado como questão estritamente pessoal e passa a ser compreendido, em termos preventivos, como fenômeno ligado à organização do trabalho. 

A atualidade do tema é inequívoca. Em 2025, segundo o Ministério da Previdência Social, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, com crescimento de 15,66% em relação a 2024. Esse cenário ajuda a explicar a mudança de foco da NR-1. 

Busca aos tesouros, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

De onde vem a fortuna do ministro Toffoli e para onde foi a do banqueiro Daniel Vorcaro?

Dias Toffoli sai da relatoria do caso Master, mas a crise no Supremo continua e tende a piorar, embolando novas revelações contra o ministro com o constrangimento de Alexandre de Moraes, a posição delicada de André Mendonça, as divisões internas, a crise com a PF e a guerra política. Tudo isso com a Corte sujeita a um comando, digamos, difuso.

Só faltava gravarem clandestinamente a reunião fechada que selou a saída de Toffoli. Não falta mais. Os trechos entre aspas no site Poder 360 não deixam dúvida de que foram degravados. Logo, alguém gravou e vazou e esse alguém foi um dos ministros. É o escândalo dentro do escândalo.

É preciso coragem para limpar o sistema, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Em 2025, anos após um escândalo de corrupção, Colômbia aprovou reforma do sistema de Justiça

Escândalos de corrupção em cortes supremas são relativamente raros. Um caso emblemático foi o chamado Cartel da Toga, na Colômbia, por ter envolvido três presidentes e outro juiz da Corte Suprema, procuradores, parlamentares e advogados; por ter levado a condenações à prisão; e pelas reformas implementadas no sistema de Justiça colombiano em resposta.

A partir de uma delação premiada de um investigado nos EUA, descobriu-se um amplo esquema de tráfico de influência na Suprema Corte colombiana, envolvendo a venda de sentenças e cobranças de propinas para retardar ou arquivar processos. As investigações estiveram a cargo da Procuradoria-Geral da República, em colaboração com o FBI e o Departamento de Justiça americano.

Bancada Master é de direita, e ninguém governa sem ela, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A verdade é simples: a esquerda, como a direita e o centro, precisa de apoio da bancada Master para governar

Dos 18 entes federativos que investiram no Master, 17 eram governados pela direita

O afastamento de Dias Toffoli do caso Master foi tardio, mas bem-vindo. E, se o afastamento ampliar o foco do público para além do STF, pode ajudá-lo a entender o que foi a mutreta política erguida ao redor da mutreta financeira de Daniel Vorcaro.

Ela aconteceu, sobretudo, no Congresso, nos estados e municípios. E, a menos que o conteúdo do celular de Vorcaro nos mostre outra coisa, foi feita majoritariamente pela direita.

O evangélico no Carnaval do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de relatório da PF sobre Toffoli, acordão se torna mais organizado e explícito

PF já pescou mais políticos e rastreia transações, dizem senadores que querem fogo no circo

Um acordão eficiente depende da segurança dos elos da cadeia que constitui o arranjo. Se alguém cai, o acerto de garantias implícitas de proteção corre risco. Pode haver tiros dentro da sala de coordenação do pacto ou um salve-se quem puder (Lava Jato).

Trata-se aqui, claro, do arranjo para proteger suspeitos ou envolvidos no Master. O relatório da Polícia Federal que especificou pelo menos uma das relações de Dias Toffoli com a turma do Master incentivou um movimento de organização maior do acordo, em especial entre parte do Senado e parte do Supremo.

Bolsonaro nos arquivos de Epstein, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Há 74 menções ao político nesses documentos, assim como referências a outras personalidades brasileiras

O escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo

Jamie Raskin, o principal democrata da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que os arquivos de Jeffrey Epstein foram editados para ocultar nomes de "abusadores, facilitadores, cúmplices e coconspiradores". Há 74 menções a Bolsonaro nesses documentos, assim como referências ambíguas a outras personalidades brasileiras. Sobre Bolsonaro não se falou diretamente de sexo nem de tráfico de menores.

Corrupção abre alas e pede passagem, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O tema volta à paisagem eleitoral no embalo das fraudes no INSS e do lodaçal crescente em torno do caso Master

Fica a dúvida se os candidatos enfrentarão o problema ou se continuarão a atribuir a culpa de tudo ao sistema

corrupção voltou a fazer parte da paisagem eleitoral. Em todas as suas formas: do peculato a transações ilegais no mundo privado e condutas flagrantemente antiéticas, passando pela infiltração do crime organizado no poder público.

A velha senhora andava meio esquecida. Não por falta de atividade, mas devido à disseminação da ideia de que excessos cometidos em investigações aconselhavam que se desse por esgotado o assunto.

Multidão consciente da loucura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Crônica de Dante Milano sobre o Carnaval carioca dos anos 1930 evoca a folia de hoje

'Quem não quiser brincar fique em casa', diz ele. 'Somos todos loucos. Os loucos têm razão'

"Nosso povo tem o seu dia. Não é o 13 de Maio, nem o 14 de Julho. É o Carnaval. Bombos, pandeiros, chocalhos, cuícas, violões, flautas, clarins. Montões de serpentinas e confetes rolando pelas ruas. Tem-se a impressão de que o dinheiro rola pelo chão. O povo respira livre.

"Passa um cordão no meio do povo. O tampo rotundo do bombo retumba, cuícas catucando um batecum macambúzio de macumba. Giros lentos de estandartes, bamboleios de lanternas de cor. Mirabolante, bombástico, babélico, umbilical. Homens de todas as cores entoam cantos em coro. As mulheres são princesas encantadas, pedaços de luz, de corpos nus. Virgens, sambai! A rua parece a enchente de um rio. A multidão se comprime. O momento é sublime. O povo é uma só onda, um só rumor. Encontros, apertões. Quem não quiser brincar fique em casa.

Sapucaí não apoiou a ditadura, por Rodrigo Antônio Reduzino*

O Globo/ Ancelmo Gois

Conclusão de que não houve adesismo aos governos dos generais consta da tese de doutorado

"Escola de Samba como expressão política é o enunciado afirmativo de uma intelectualidade negra e todo refino de uma expressão da cultura negra. É o direito a fabular, sonhar e organizar a sua apreensão sobre a realidade social, processo inerente a condição humana, como lembra o saudoso Antônio Cândido no Direito à Literatura.

Escola de Samba como qualquer espaço social, também tem disputa política, falo de território e poder, sempre esteve inserida em diálogo com a institucionalidade, desde de sua origem datada em 1928, quando são fundadas e constroem os seus espaços para desfilarem e existirem pela região da Praça Onze e Estácio a despeito do chamado “carnaval chic” das classes dominantes realizados na Rio Branco. Atreladas a suspeição, criminalidade e a esfera de polícia, fruto do ordenamento social da época que mantém a estrutura historicamente racista até os dias de hoje.