sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master mostra por que é melhor privatizar BRB

Por O Globo

Banco de Brasília estima rombo por falcatrua em R$ 6,6 bilhões — e ninguém sabe como ele será coberto

A liquidação do Banco Master expôs os problemas enfrentados pelo BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. No ano passado, a Câmara Legislativa do DF deu sinal verde para o BRB adquirir parte do Master. O negócio foi vetado pelo Banco Central (BC), que já via como irreversível a derrocada do banco de Daniel Vorcaro. Mas o BRB acabou comprando uma carteira fraudulenta de títulos do Master avaliada em R$ 12,2 bilhões. Uma auditoria do BC constatou que os papéis não existiam ou estavam supervalorizados, e a Polícia Federal abriu inquérito para investigar fraudes.

O Congresso é responsável por nosso futuro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país

A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.

Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios do Brasil.

Os mais iguais, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Privilégios evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais

“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é um desses livros que a gente lê com a estranha sensação de que já o havia lido e até mesmo de que já esteve no lugar ali descrito e até presenciou os acontecimentos ali ocorridos. O livrinho trata do poder das entrelinhas e do avesso na edificação da lógica perversa e oculta da dominação política fora dos marcos da grande herança da Revolução Francesa.

A familiaridade que a leitura nos sugere dá a impressão de que Orwell esteve no Brasil (ou Brazil?). Não só a gente já viu isso, mas ainda está vendo.

Tudo começa com uma insurreição dos bichos da chácara de Mr. Jones. Preguiçoso e bêbado, ele descuidava dos animais e os maltratava. Os animais haviam espalhado que Major, um porco premiado, tinha tido um sonho que gostaria de contar a todos logo que o dono da granja fosse dormir. E começou: “Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes?”. Ressaltou as condições adversas em que viviam os animais: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.

Alô, alô, eu vou chamar o marqueteiro: Sidônio! Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Diferença de 0,1 ponto percentual em pesquisa fez o chão tremer para a ala racional do PT

Ninguém irá passar recibo, mas a sucessão de reveses nos últimos dias dividiu o time lulista entre os sinceramente preocupados, os aflitos e os negacionistas. Estes minimizaram o resultado da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira (25), que mostrou pela primeira vez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno: 46,3% a 46,2%, respectivamente. Uma diferença de 0,1 ponto percentual, que fez o chão tremer para a ala racional do PT.

CPIs têm espetáculo turbinado em anos eleitorais, mas é o STF que surpreende, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Maior escândalo financeiro em ano de eleição hiperpolarizada aumenta a indefinição mas é Mendonça quem mais surpreende governo

CPMI do INSS pautou e aprovou, no atropelo do regimento, a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República. A mesma comissão sequer pautou a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. Os dois controlam uma empresa sediada nas ilhas Virgens Britânicas, suspeita de lavagem de dinheiro.

Escândalo embola o jogo da política, por Vera Magalhães

O Globo

Integrantes do Executivo imaginavam que Lula poderia sair incólume, mas percepção difusa de escândalo também atinge o governo e ajuda a explicar nova queda em pesquisas

O rastro de destruição deixado pela fraude do Banco Master em Brasília é tão grande que é difícil, hoje, apontar quem tem algo a ganhar com os desdobramentos do escândalo. Em maior ou menor grau, perdem o governo, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso e os partidos políticos, de A a Z.

Num ambiente marcado por alta tensão, em que um Poder aponta o dedo para o outro para detectar culpas, omissões, relações com o esquema de Daniel Vorcaro e responsabilidade por vazamentos de toda natureza, o rombo provocado pelo banco e a demora em estancá-lo são um trabalho de muitas mãos, que deixará mortos e feridos pelo caminho em todos os campos agora que as investigações acontecem de forma desordenada, tamanho foi o afã de abafá-las.

Juízes sem juízo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao defender penduricalhos, magistrados dão novos argumentos para banir pagamentos acima do teto

A causa do fim dos penduricalhos ganhou um impulso inesperado. Na quarta-feira, representantes de associações de juízes foram ao Supremo defender os pagamentos acima do teto. Em vez de justificá-los, deram novos argumentos por sua extinção.

O advogado Alberto Pavie Ribeiro, da Associação dos Magistrados Brasileiros, disse que a carreira não seria mais “atrativa” por causa dos salários pagos aos juízes. No Tribunal de Justiça do Rio, o subsídio inicial de um juiz substituto é de R$ 35,8 mil, fora benefícios.

Cem anos do mesmo argumento, por Pablo Ortellado

O Globo

Se o incômodo para os setores econômicos é pontual e momentâneo, o benefício para os trabalhadores é permanente e duradouro

O jornal Folha de S. Paulo publicou ontem uma entrevista com Marcos Pereira, presidente do Republicanos, em que o deputado explicou sua oposição ao fim da jornada 6x1. Questionado sobre como via a demanda por mais tempo de lazer e menos tempo de trabalho, o deputado respondeu:

— Acho que, quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais, ócio demais, faz mal. Tem vários casos de pessoas que conheço. Fulano, quando parou de trabalhar, morreu rápido, ficou doente. A gente precisa de atividade. O lazer é importante para a saúde mental. Mas a população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?

Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático

A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI.

O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.

Crise para além das eleições, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos

Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.

Para começar, uma das instituições mais criticadas, o Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento, não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da continuidade de deputados e senadores.

Lula já venceu? Será? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Outubro terá um candidato com o pai na cadeia e outro com o filho sob investigação

As quebras dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha remetem aos piores momentos da longa carreira política do presidente Lula – mensalão, Lava Jato e prisão – e desabam sobre a campanha da reeleição justamente quando o senador Flávio Bolsonaro se firma e ganha fôlego como o principal candidato da oposição. Quanta poeira, ou lama, pode sair daí?

E, afinal, Lula não estava virtualmente reeleito? A resposta, nua e crua, é não. Se as pesquisas até aqui capturavam o favoritismo do presidente, agora registram que a campanha vai ser ainda mais difícil do que a de 2022, que ele venceu por margem já bem apertada.

Sem antecedentes criminais, Lulinha tem uma relação que vai de mal a pior com a Polícia Federal, após as revelações sobre seus laços com o escândalo do INSS e a quebra dos sigilos, tanto pelo ministro do STF André Mendonça quanto pela CPMI do INSS. Ambos decidiram com base na PF.

Flávio Bolsonaro e um ‘Paulo Guedes de saias’, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Senador está sendo cobrado pela Faria Lima a anunciar o comandante da economia

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está sendo cobrado pela Faria Lima a anunciar o comandante da economia caso vença as eleições em outubro. A expectativa em seu entorno é de que o nome seja divulgado em breve, seguindo o mesmo roteiro adotado por seu pai na campanha de 2018.

À medida que o senador vai subindo nas pesquisas de intenções de voto e se consolidando como o candidato da direita, a ansiedade do mercado aumenta. Enquanto o posto de vice-presidente é barganhado pelos partidos políticos, é o ministro da Fazenda que interessa aos investidores porque ele precifica o “risco” do candidato.

Desarranjo no acordão da impunidade, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Queda de Toffoli, PF, ação da CPI do Crime Organizado e ataque a Lulinha perturbam acerto

Recomeço de investigações e medo de perder proteção incentivam ameaças e retaliações

O acordão para "abafar o caso" está com desarranjo. Balançam os acertos tácitos ou explícitos de proteger amigos e comparsas nos casos do Master, da roubança do INSS e até dos esquecidos fundos secretos da Reag.

As partes envolvidas, sejam investigadores, políticos ou seus aliados, estão atirando mais à vontade e, no caso da política, uns contra os outros. A soberba de Dias Toffoli ajudou. A Polícia Federal mais solta contribui. A barbeiragem dos governistas na CMPI do INSS também. Políticos investigadores em campanha eleitoral põem algum fogo no circo.

STF tenta sair das cordas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corte se concentra em casos que possam lhe render pontos junto ao público

Manobra pode aliviar pressão, mas não resolve problemas, que são reais

Acuado pelo escândalo do banco Master, o STF tenta limpar a própria barra, avançando em agendas que lhe rendam pontos junto ao público. O calendário lhe sorriu. A condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes já estava precificada, mas calhou de o julgamento acontecer agora, num momento em que o tribunal precisa desesperadamente de fatos positivos. E sempre pegam bem manchetes mostrando que os ministros estão fazendo o que se espera deles.

Eleição será decidida no triângulo das bermudas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Favoritos lutam nos três maiores colégios eleitorais para tirar a diferença da disputa à Presidência

Juntos, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro representam mais de 40% de todo o eleitorado brasileiro

Flávio Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) têm encontro marcado nesta sexta-feira (27) para mais um ato da dança da lealdade no baile da campanha eleitoral antecipada.

O reforço do governador é crucial para o senador. Salvo o imponderável, o gesto põe Tarcísio em definitivo no palanque da reeleição, mas não o afasta da cena nacional, vez que será ativo de peso na corrida da direita pela conquista da Presidência.

Trump usa Estado da União para fazer show de impostor fascista, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Presidente exibe característica histórica de líder autoritário que não é hipócrita, mas 'phony'

Pegadinha para democratas reforçou política estúpida do ICE, a Gestapo contra imigrantes

Donald Trump usou o discurso sobre o Estado da União, na noite de terça (24), para promover mais um espetáculo midiático em torno de suas teses nacionalistas e fascistas. A vocação do presidente norte-americano para o entretenimento é conhecida, já teve programa de rádio, foi comentarista da Fox e comandou o reality "O Aprendiz".

Em livro que está por lançar em breve, o professor e filósofo Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo, chama a atenção para o traço "phony" de líderes populistas autoritários. O filósofo Theodor Adorno já observara que lideranças fascistas não eram propriamente hipócritas, mas "phonies", ou seja, mobilizavam humor e impostura em suas performances. Nas palavras de Safatle —o entrevistado do podcast Ilustríssima Conversa no sábado (28)—, é preciso lembrar que "a ironia é um elemento constituinte do autoritarismo".

Quebrado ao meio, Ivan Alves Filho

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto marcou o pensamento moderno, afirmou certa vez desejar “quebrar ao meio a História da Humanidade”.

Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua própria história.

Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento.